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Sem reunião presencial, dependentes químicos usam apps para evitar recaída

Da esq. para direita: o conferente João Henrique Lima dos Santos; o administrador de empresas Thiago Morais Holzhausen; o zelador José Aparecido Freire da Silva; o empresário Christian Montgomery  - Arquivo pessoal
Da esq. para direita: o conferente João Henrique Lima dos Santos; o administrador de empresas Thiago Morais Holzhausen; o zelador José Aparecido Freire da Silva; o empresário Christian Montgomery Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para Tilt

22/02/2021 04h00Atualizada em 22/02/2021 12h28

Sem tempo, irmão

  • A pandemia tem impactado a recuperação de dependentes químicos
  • Ela interrompeu reuniões presenciais de narcóticos e alcoólicos anônimos
  • Muitos passaram a usar plataformas digitais para substituir reuniões presenciais
  • WhatsApp, Zoom e Anonymo foram alguns dos apps usados pelos entrevistados

O isolamento social causado pela pandemia impactou a vida de muitos dependentes químicos em recuperação. Com a suspensão das reuniões presenciais de grupos de narcóticos e alcoólicos anônimos (NAs e AAs) por causa do coronavírus, veio o medo da recaída. A saída encontrada por muitos foi fazer uso da tecnologia para se conectar com quem enfrenta os mesmos problemas, reproduzindo a rede de apoio encontrada nos NAs e AAs.

Esse foi o caso do conferente João Henrique Lima dos Santos, 43. Dependente químico há 22 anos, ele teve medo de ter uma recaída quando as reuniões presenciais dos Narcóticos Anônimos foram suspensas em março de 2020 por causa da pandemia.

Ele participa das atividades do NA desde 2018 e conta ter criado laços afetivos com os outros participantes ao longo desse tempo.
Santos contou a Tilt que perder o convívio social com eles poderia ter colocado em risco a sua recuperação, que já dura há três anos, e foi pensando nisso que ele e os companheiros do NA com quem tem mais afinidade criaram um grupo no WhatsApp para falar sobre os 12 passos do narcótico anônimo.

"Conversamos todos os dias por mensagens de texto, áudio e até vídeo chamadas para falar sobre os 12 passos. Passamos a fazer no WhatsApp o que fazíamos nos encontros presenciais. Cada um compartilhava o que quisesse", contou.

Santos disse ainda que passou a participar dos encontros online da irmandade pelo Zoom. Com duas a três horas de duração, ele conta que chegou a entrar em uma sala digital com 100 participantes.

Entre as facilidades de usar esses apps, ele diz poder ouvir e partilhar as histórias de qualquer lugar, fazendo qualquer coisa, como cozinhando, por exemplo, e a possibilidade de participar de mais reuniões — ele frequenta três por dias.

Além disso, o conferente afirma ter buscado outras ferramentas que não estão ligadas diretamente ao grupo em que faz parte e que nesse processo encontrou um aplicativo chamado Anonymo.

App que faz a vez dos NAs e AAs

A solução encontrada pela esposa do administrador de empresas Thiago Morais Holzhausen, 41, para que o marido não recaísse foi incentivá-lo a participar das reuniões digitais promovidas pelo aplicativo Anonymo, uma comunidade digital que ajuda pessoas na luta contra vários tipos de dependências: álcool, drogas, cigarro, jogos, comida, pornografia.

O app é gratuito e está disponível em Android e iOS. O Anonymo conta com ferramentas como 14 reuniões online durante o dia, chats disponíveis 24 horas por dia para conversar em tempo real, acompanhamento personalizado das conquistas diárias de cada usuário e frases motivacionais, entre outros recursos.

App Anynomo - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Holzhausen conta que tinha receio de se identificar nas reuniões do app e, por isso, aceitou participar dos encontros sem abrir a câmera. Ele conta que a manutenção do anonimato proporcionada pela câmera ajuda a quem, no início, não quer se expor, um problema bastante comum entre os dependentes químicos que resistem em frequentar reuniões presenciais, segundo ele.

"No começo, eu me sentia acuado, mas foi quando eu quebrei o anonimato e abri a câmera que a minha recuperação começou para valer", conta.

Holzhausen diz que ainda teve algumas recaídas durante o processo, mas que segue limpo há sete meses. "[Antes] Era só passar um zap, que o cara [traficante] trazia minha encomenda onde eu estivesse. Se usada de maneira ruim, a tecnologia ajuda a destruir pela possibilidade de se conseguir o que quer mais rápido e fácil. Quando me dei conta de que eu poderia usá-la a meu favor, ela foi um divisor de águas", diz.

O aplicativo também tem ajudado o zelador José Aparecido Freire da Silva, 43. Usuário de cocaína dos 18, ele conta que já tinha tentado de tudo para parar de usar, de "pai de santo, igreja, à promessa", mas nada funcionava.

A chegada da pandemia piorou ainda mais seu vício. Silva conta que a redução na carga horária do trabalho lhe deu mais tempo livre para ele se drogar. Além disso, ele conta que evitava sair de casa pelo receio de que, ao pegar a doença, ele ficasse impossibilitado de usar a droga.

Um dia, Silva conta que pediu ajuda a Deus para achar um meio de largar o vício e achou o Anonymo ao pesquisar no Google: "Como eu faço para parar de usar droga". Naquele mesmo dia, ele participou de uma reunião online.

A primeira impressão não foi das melhores, mas ele lembra que no final do encontro o coordenador do grupo disse: "Fica limpo hoje. Volta amanhã, que o segredo está na próxima reunião". Curioso para saber qual era o tal segredo, o zelador passou a participar de reuniões diárias.

Ele conta que a tecnologia tem sido importante para evitar que ele voltasse a usar cocaína, como no dia em que estava no trabalho e resolveu entrar em uma reunião online quando começou a sentir os efeitos da abstinência.

"Eu disse que quando terminasse eu ia na biqueira comprar droga porque eu não estava aguentando mais. Um coordenador disse que nunca viu ninguém morrer por vontade, que a vontade vem, mas ela passa. O conselho foi muito útil naquele momento, se eu tivesse que ter me deslocado fisicamente para ir a uma reunião presencial, pegado trânsito, eu não teria ido e, com certeza, teria tido uma recaída", afirma o zelador, que está limpo há sete meses.

App saiu da mente de um dependente em recuperação

O Anonymo foi lançado 11 dias antes de o primeiro caso de covid-19 ser registrado no Brasil. Ele saiu da mente do empresário Christian Montgomery, 37, também um dependente químico em recuperação, que está limpo há dois anos e cinco meses. Ele conta que teve a ideia de criar o aplicativo após ter sido internado em uma clínica de reabilitação em 2018 e de ter falado abertamente sobre o vício no Instagram.

"Eu sabia que falar dos meus problemas com as drogas todos os dias, assim como acontecem nas reuniões do NA ou AA, ia me fortalecer e me ajudar a não recair", diz.

Administrador de cinco bares em São Paulo e dono de uma empresa de eventos, Montgomery conta que perdeu seus negócios e muito dinheiro, um prejuízo de mais de R$ 1 milhão. Quanto mais eu afundava, mais eu usava. À medida que fui contando a minha história nas redes, outros dependentes e codependentes passaram a me seguir, eu percebi a necessidade deles de desabafar", diz.

Como não pode mais voltar para o segmento de bar e eventos, por causa da sua condição, ele teve a ideia de trabalhar no desenvolvimento de um aplicativo para ajudar pessoas com dependências, dar suporte e fornecer conteúdo. Para isso, contou com a ajuda do irmão. "Ele aceitou, entrou como investidor, trabalhamos quatro meses na criação do app e o lançamos no dia 15 de fevereiro de 2020", contou.

Montgomery conta que as restrições causadas pela pandemia alavancou os downloads do aplicativo. Para se ter uma ideia, nos primeiros 11 dias de funcionamento do app, 522 usuários haviam baixado o aplicativo. Seis meses após o início da pandemia, houve um aumento de 1.323%, com 7.432 downloads. Em um ano de funcionamento, o Anonymo já registra 19.761 usuários.