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Na falta de seringas, pistolas seriam boa alternativa para vacinação?

Pistolas de vacinação foram usadas no Brasil em campanhas nacionais de saúde - Museu de Saúde Pública Emílio Ribas
Pistolas de vacinação foram usadas no Brasil em campanhas nacionais de saúde Imagem: Museu de Saúde Pública Emílio Ribas

Dan Novachi

Colaboração para Tilt

17/01/2021 04h00Atualizada em 18/01/2021 10h40

Sem tempo, irmão

  • Uso de pistolas para vacinação se popularizou no Brasil em 1975 contra meningite
  • Funcionou no passado, mas estudos mostraram que elas contribuíam para infecção de doenças
  • Fatores como o alto custo, dificuldade de capacitação e de manutenção levaram ao desuso

A possível falta de insumos para campanhas de vacinação contra a covid-19 no Brasil, além das declarações do presidente Jair Bolsonaro de que a compra de vacinas estaria suspensa, deixaram a população ainda mais ansiosa. Enquanto esperamos, muitos maiores de 40 anos a recordarem com certo saudosismo as campanhas de vacinação em massa com pistolas de ar comprimido.

Esses aparelhos chegavam a vacinar até mais de mil pessoas em único dia em décadas passadas. Mas será que na falta de seringas, as pistolas seriam uma boa alternativa à vacinação de covid? De acordo com especialistas, a resposta é um sonoro não.

"Sob nenhuma hipótese, é justificável o uso de pistolas para substituir seringas e agulhas. O provimento dos suprimentos necessários já deveria ter sido realizado no segundo semestre do ano passado, quando já se sabia que teríamos vacinas e que precisaríamos deles", sustenta Raquel Stucchi, professora de infectologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Apesar de já terem sido aplicadas no país há décadas atrás, as pistolas não permitem uma esterilização adequada. Por serem usadas em uma grande quantidade de pessoas, oferecem o risco de contaminação e transmissão de doenças por meio do sangue, entre uma pessoa vacinada e a seguinte.

Enquanto as seringas e agulhas são descartáveis e inutilizadas logo após um uso único, as pistolas tem seu uso prolongado e contato com diversas pessoas.

"É inconcebível colocar às pessoas o risco de transmissão de doenças como hepatite B, hepatite C e HIV, transmitidas pelo contato com sangue diante de um procedimento que ocorre para proteger de uma outra doença. Não faz nenhum sentido", argumenta a médica.

Duas esguichadas e pronto, tá limpo!

"Quem fez essa vacinação na época falava que para vacinar, entre uma pessoa e outra, dava-se dois esguichos pra fora, para de algum modo limpar o equipamento, para então aplicar no próximo da fila", recorda Rosana Ritchmann, infectologista do Instituto Emílio Ribas e ex-presidente da Sociedade Paulista de Infectologia.

Ritchmann também foi vacinada com essas pistolas quando criança, na campanha nacional de vacinação contra a meningite, na década de 1970, quando esse equipamento se popularizou no país. Esse outro período de emergência sanitária também gerou um grande número de mortes, especialmente de crianças.

A diferença é que, no período, a comunidade médica e científica desconhecia que o uso repetido das pistolas também poderia contribuir para a contaminação cruzada de outras doenças. Apesar de utilizarem ar comprimido nas injeções, a aplicação podia produzir ferimentos na pele e contaminar com fluídos e sangue a ponta do dispositivo, e consequentemente o próximo a receber a vacina.

"Com a descoberta de doenças veiculadas por materiais biológicos, principalmente por sangue, fica proibido o uso de um mesmo dispositivo em várias pessoas", explica Ritchmann.

Aparelhos semelhantes às pistolas ainda são usados na aplicação de alguns tipos de remédios e medicações, especialmente os de uso contínuo, onde o paciente mantém o uso único e exclusivo da pistola. É o caso de diabéticos que necessitam de insulina. Mas o uso para vacinação em massa permanece fora de questão.

Eficácia variável, alto custo e difícil manutenção

Em meados da década de 1990 as pistolas destinadas à vacinação em humanos pararam de ser fabricadas. Segundo a avaliação de pesquisadores e instituições de saúde, havia uma preocupação sobre serem veículos da propagação de outras doenças, gerando ainda mais problemas no combate às epidemias.

Além disso, havia acidentes que causavam lacerações (ferimentos graves) na pele, devido à pouca qualificação dos profissionais responsáveis pela vacinação e também a baixa manutenção dos aparelhos.

A quantidade de medicação ou vacina das pistolas também era variável, chegando algumas vezes a injetar apenas 10% das doses recomendadas. Outros problemas eram a dependência da manutenção do aparelho e a qualificação do vacinador.

A pistola de vacinação surgiu nos Estados Unidos na década de 1930, com o nome técnico de inoculadores a jato para injeção de materiais biológicos. Após algumas mudanças, o aparelho passa a ser usado em larga escala para a vacinação na década de 1950, principalmente no exército e em presídios.

O modelo precursor no Brasil, aprimorado no início da década de 60, usava dispositivos para inoculações intradermicas e acionamentos pneumáticos, que permitiam vacinar muitas pessoas rapidamente. Chamado de Pad-O-Jet, funcionava com um pedal e foi amplamente usado em campanhas de imunização em massa. Não só no Brasil, mas principalmente na América Latina, África Ocidental e Ásia, até mesmo com o aval e incentivo da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Negacionismo não é de hoje

"Ela (a pistola) foi amplamente usada em meio a um período absolutamente centralizador e autoritário que negou a importância da epidemia da meningite", explica Maria Cristina da Costa Marques, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Durante o período, o governo negou informações e adotou uma atitude negacionista, por a encarar como uma questão de segurança nacional e que colocaria em xeque a sua "competência". "Isso foi extremamente danoso, com uma taxa de mortalidade altíssima no Estado de São Paulo", pontua Marques.

Apesar dos problemas, pode-se dizer que a pistola cumpriu sua função naquele momento histórico. Informações complementares sobre o aparelho podem ser encontradas nos arquivos do Museu da Vida, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), do Museu de Saúde Pública Emílio Ribas e no Instituto Butantan, que tem um centro com documentação bastante vasta sobre o assunto.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que dissemos numa versão anterior deste texto, a comunidade científica já sabia, sim, da existência de doenças transmissíveis pelo sangue ou outros fluidos biológicos. O que não era conhecida era a maneira como as pistolas da vacinação facilitavam a transmissão dessas doenças. O texto foi corrigido.
Diferentemente do que dissemos numa versão anterior deste texto, as pistolas usadas em vacinas na década de 1970 não utilizavam agulhas. O texto foi corrigido.