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Quem foi Alexandre Dumas, escritor francês negro homenageado pelo Google

Alexandre Dumas é o homenageado desta sexta pelo Google - Reprodução
Alexandre Dumas é o homenageado desta sexta pelo Google Imagem: Reprodução

Felipe Oliveira

Colaboração para Tilt

28/08/2020 14h00

"Um por todos, todos por um", conhecido lema da obra Os Três Mosqueteiros, talvez seja uma das frases mais famosas criadas na mente do brilhante escritor negro Alexandre Dumas. Nascido em 1802, o autor francês conhecido por seus romances e aventuras é o homenageado do Google nesta sexta-feira (28).

O gigante da tecnologia retrata outra obra de Dumas que se espalhou pelo mundo e até hoje encanta leitores: O Conde de Monte Cristo. O doodle —mudança temporária no logotipo do Google em suas páginas— de hoje traz uma arte da história em quadrinhos, mas sem spoilers. Segundo o Google, neste mesmo dia, em 1844, o jornal parisiense Les Journals de Débats publicou a primeira parte do romance, que seguiu até 1846.

Mas a história de Dumas não se resume apenas a suas obras. O nome do escritor é uma homenagem a seu pai, general que se juntou aos exércitos revolucionários franceses e lutou na Itália e no Egito.

Preconceito com o pai influenciou obras

A vida do pai do escritor, contudo, não foi só de glórias. Uma das histórias famosas envolvendo o general Alex Dumas diz respeito à sua juventude. Conta-se que em setembro de 1784 o pai do escritor, então um jovem negro filho do Conde Davy de la Pailleterie com uma escrava, foi a um teatro acompanhado de uma mulher branca.

No local, um oficial branco das Índias Ocidentais resolveu insultar o filho negro do conde. Primeiro, fingiu confundir o jovem negro com o lacaio da mulher, o que provocou uma confusão. Na sequência, capangas do oficial forçaram Dumas a se ajoelhar e pedir perdão pelo ocorrido.

Humilhado, decidiu mudar de vida para a carreira militar e se matriculou nos Dragões da Rainha. Ele abandonou o nome do pai e adotou o sobrenome da mãe, Marie-Cessette Dumas. Após as glórias no exército, no qual chegou a comandar uma força com mais de 50 mil homens, Alex se casou com Marie-Louise-Elizabeth Labouret e, em 1802, tiveram o terceiro filho, que viria a se tornar um famoso escritor.

Orgulhoso pela história de vida do pai, Alexandre Dumas chegou a colocar em uma obra o ato em que o jovem e robusto Alex pega o vilão Titon e o joga no fosso da orquestra.

De acordo com o jornal britânico The Independent, repetidamente Dumas criou personagens que vencem bravamente, mesmo tendo os pais desprezados. Prova disso é o início de Os Três Mosqueteiros, quando o pai de D'Artagnan diz ao filho: "nunca se submeta em silêncio à menor indignidade", pois "é somente por sua coragem que um cavalheiro avança hoje em dia (...) Não tema tantos imbróglios, e procure aventuras ".

Polêmica no cinema

Reverenciado com um dos autores franceses mais famosos de todos os tempos, com suas obras atingindo mais de 300 volumes e 100 mil páginas publicadas, Alexandre Dumas também era conhecido por possuir diversas amantes e filhos fora do casamento.

Sua história foi retratada no filme L'Autre Dumas (O Outro Dumas), de 2010. Contudo, a produção causou polêmica antes de seu lançamento porque Dumas, negro, foi interpretado pelo ator Gérard Depardieu, loiro e de olhos azuis.

Para a produção, o ator precisou usar uma peruca de cabelos encaracolados e ter a pele escurecida. Na época, o produtor do filme, Frank Le Wita, disse que Depardieu, um dos mais populares atores da França, foi escolhido por sua vivacidade que, segundo ele, lembra a do próprio Dumas.

Escalação de Gerard Depardieu, branco e de olhos azuis, como Alexandre Dumas, escritor negro, causou polêmica - Reprodução - Reprodução
Escalação de Gerard Depardieu, branco e de olhos azuis, como Alexandre Dumas, escritor negro, causou polêmica
Imagem: Reprodução

O problema é que a escolha não foi bem aceita por atores negros e ativistas pelos direitos raciais na França. "Daqui a 150 anos, o papel de Barack Obama poderia ser interpretado em um filme por um ator branco com uma peruca de cabelos encaracolados?", perguntou Patrick Lozès, presidente do Conselho de Associações Negras da França, ao jornal britânico The Times. "Poderia também Martin Luther King ser interpretado por um branco?", criticou na época.

Gerard Depardieu chegou a se manifestar e classificar a discussão como "ridícula" e "desnecessária". Para o ator a questão não era "interessante".

Alexandre Dumas morreu após um derrame em 1870. Seu corpo foi exumado por ordem do presidente Jacques Chirac, em 2002, e seu novo caixão foi carregado por quatro homens vestidos como os mosqueteiros Athos, Porthos, Aramis e D'Artagnan, sendo transportado em procissão solene até o Panteão de Paris, o grande mausoléu onde filósofos e escritores da França estão sepultados.

Nas homenagens, Chirac reconheceu que o escritor passou por atos de racismo durante a vida. O corpo de Dumas foi sepultado ao lado de Victor Hugo e Voltaire, outros duas proeminentes figuras francesas.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do informado anteriormente, a data da primeira publicação de O Conde de Monte Cristo é 1844, não 1884. Ele foi terminado em 1846.