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Com tanta gente em casa, a internet no Brasil vai aguentar o tranco?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Helton Simões Gomes

De Tilt, em São Paulo

18/03/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Tráfego digital de países afetados pelo Covid-19, como China e Itália, cresceu 25% em média
  • No Brasil, há apreensão se o consumo doméstico da internet vai levar a rede a um colapso
  • Anatel pediu a empresas que reforçassem velocidade e pacote de dados, além de abrir wi-fi
  • Agora, agência vai monitorar se redes estão congestionadas e se há perda de qualidade
  • Enquanto isso, empresas pensam em aproveitar crise para expandir oferta de fibra óptica

Com escolas suspendendo aulas e empresas decretando 'home office' para evitar a disseminação do coronavírus, o consumo da internet nas casas virou preocupação das provedoras e das agências reguladoras. Três semanas após os primeiros casos de Covid-19 no Brasil, já rola uma mudança no comportamento dos consumidores, que passaram a atingir picos de acesso em um horário mais cedo que o normal.

O consumo já está explodindo em todo mundo. "Em vários dos países impactados inicialmente pela Covid-19, como China, Coreia do Sul, Japão e Itália, nós vimos crescimento no tráfego de internet de 25% em média sobre as taxas do resto do mundo", afirmou a Tilt Patrick Sullivan, diretor de tecnologia da Akamai, que analisa o fluxo de dados digitais em todo mundo.

Prevendo que o mesmo ocorra por aqui, a Anatel (Agência Nacional das Telecomunicações) começa a partir desta quarta-feira (18) a acompanhar os planos de contingência das principais teles do país —uma atitude tomada apenas em cenários de crise, como após a tragédia de Brumadinho e a Greve dos Caminhoneiros, que parou o país em 2018.

Será que tanta gente sentada na frente da Netflix ou fazendo reuniões por videoconferência é capaz de levar nossa internet entrar ao colapso? A resposta curta é: não.

Outros segmentos econômicos, como o hoteleiro, artístico, turístico e de comércio, estão sendo muito impactados. O caso do setor aéreo é emblemático. O setor de telecom está relativamente 'blindado' aos demais em relação à crise decorrente da Covid-19
Leonardo Euler, presidente da Anatel

A inevitável lentidão

Isso está longe de ocorrer, mas tem gente que acredita que a lentidão da internet é inevitável. Antes de mostrar por que esses especialistas acreditam nisso, é preciso entender como há várias redes dentro da rede de internet.

Os fios que chegam até sua casa são a chamada rede de acesso. Já os cabos que percorrem distâncias maiores são a rede de transporte (chamadas de backhaul e backbone). Eles conectam os grandes servidores, que compõem o núcleo central, onde a informação é processada antes de ser roteada para seu destino. Os cabos submarinos ligam redes nacionais às de outros países.

"Todas essas partes serão um pouco mais demandadas, e já existe uma mudança de perfil nessa situação de coronavirus", diz Gustavo Santana, superintendente de obrigações e controle da Anatel. Se o pico do acesso costumava ser entre 20h e 22h antes da crise, agora começa já pela manhã e vai tarde adentro.

Só que a demanda a essas várias redes é equalizada de forma diferente. O dado trafegado se repete no núcleo central, nas redes de transporte e nas saídas internacionais. Isso se chama redundância —ou seja, há vários meios de alcançar a informação que você quer acessar. Se acontecer um problema entre núcleos, basta haver um redirecionamento do dado. Mas, com o fio que chega até sua casa, isso não é possível.

"Eu não acredito que vá haver colapso, mas há grande risco de ter lentidão. Não interessa se os dados das empresas estão em um superdata center, que tenha a maior redundância do mundo. O caminho que essa informação percorria era do data center para o escritório, muito mais controlado e com capacidade de rede mais alta. Agora, o caminho será do data center para escritório e de lá para a casa da pessoa. E aí vai depender da conexão que a pessoa tem em sua casa", diz Tadeu Viana, diretor de vendas da Corning, que fornece fibra ótica para as operadoras.

As instalações com esse equipamento têm crescido no Brasil, mas ainda há casas atendidas com pares de cobre, capazes de trafegar até 10 Megabits por segundo, ou com cabos coaxiais, que oferecem até 30 Megabits, diz Viana.

O executivo conta que, com fibra ótica, a limitação passa a ser a capacidade do servidor de entregar conteúdo.

Pense na fibra como uma estrada bem asfaltada e em que o limite para trafegar é infinito. Mas para trafegar dados ali precisa de um carro, que é a estrutura de equipamentos que a operadora coloca. Pode ser um Porsche, que vai passar numa velocidade alta, ou colocar um carro normal
Tadeu Viana, diretor de vendas da Corning

Além disso, a internet residencial pode apresentar lentidão se todo mundo usar serviços que consomem grande quantidade de dados ao mesmo tempo. "Quando a operadora diz que vai entregar 100 Mbps, é uma conta estatística. Se todos os usuários usarem 100 Mbps ao mesmo tempo, ela não consegue entregar. Não que a fibra não aguente, mas falta Porsche para transportar tanta gente por aquela estrada."

Nelson Simões, diretor-geral da Rede Nacional de Pesquisa, responsável por conectar universidades, concorda. "Nas redes domésticas, há grandes chances de lentidão no que chamamos de última milha: nos períodos de maior uso, que talvez agora passe a ser o horário comercial", explica.

Ele descarta que possa haver quedas e interrupções de sinal, pois eles "não ocorrem com o aumento de acesso: apenas se houver um problema no equipamento. Mas hoje, os equipamentos são modernos o suficiente para suportar esse aumento de tráfego."

Colapso?

Isso, no entanto, está longe de significar um colapso da rede. A infraestrutura da internet é construída de modo a oferecer muito mais capacidade do que os consumidores precisam, diz Santana. "Quando as empresas fazem uma rede, elas mensuram qual é o tráfego normal, digamos de [capacidade] 10. Eles não botam um cano de 10, mas um de 20. Elas dimensionam uma rede com a condição de que vá sobrar demanda".

Quer um exemplo? O Comitê Gestor da Internet no Brasil administra 32 pontos de intercâmbio de tráfego digital em uma região metropolitana. É crucial para que a internet seja mais ágil e eficiente. É lá que sua conexão pula, por exemplo, da rede de um pequeno provedor para a do Facebook.

Chamado de IX.br, o projeto brasileiro é o terceiro maior do mundo —só perde para o da Alemanha e da Holanda. A capacidade de tráfego, tanto de dados enviados quanto recebidos, disparou. Era de 6 Terabits por segundo (Tbps) em janeiro de 2019. Está beirando os 10 Tbps.

"A capacidade instalada é bem maior que isso, da ordem de uns 25 Tbps. A gente está bem longe de ter um gargalo. A gente trabalha com uma folga razoavelmente grande de capacidade para o caso de ter algum evento em uma rota de data center", diz Júlio Sirota, gerente de infraestrutura do IX.br, que responde por 15% da internet brasileira.

O problema, caso venha a existir, provavelmente deve vir de provedores de conteúdo, diz ele. E os serviços de streaming de vídeo são os fortes candidatos. Eles até guardam caches de seus filmes e séries em servidores locais para facilitar o acesso. Mas, caso surja algo muito aguardado, pode não ser suficiente em tempos de internet já congestionada. Na Europa, o Teams, uma ferramenta de produtividade da Microsoft que pode fazer ligações de voz e vídeo, chegou a apresentar instabilidade pelo alto acesso.

Monitoramento de crise

Diante de toda a apreensão, a Anatel vai monitorar os planos de contingência das grandes operadoras, como Claro, Vivo, TIM e Oi. O Grupo de Gestão de Riscos e Acompanhamento do Desempenho das Redes de Telecomunicações (GGRR), da Anatel, vai analisar os relatórios diários de congestionamento das redes, interrupções de serviço e se as ações colocadas em prática serão efetivas caso a rede atinja certo grau de uso.

Outro ponto de atenção é a "saúde" de certas rotas. Para isso, o grupo checará se essas rotas estão sendo direcionadas para outras com mais dados que o normal, se cumprem indicadores de qualidade ou se há muitas quedas de chamada, diz Santana.

A partir daí, poderão ser tomadas decisões como desvio de tráfego para a rede de outras empresas. De antemão, a Anatel pediu para as operadoras reforçarem a velocidade de seus consumidores, ampliarem o plano de dados, abrirem redes de wi-fi e deixarem de cobrar para acesso a ferramentas de informação do Ministério da Saúde.

Ainda assim, é cedo para saber o impacto sobre a rede e por quanto tempo vai durar. "Não dá para saber, porque o coronavírus em alguns países já tem confinamento há mais de mês. Não dá para estimar o tamanho do problema. Pode se resolver em uma semana ou não", prevê Santana.

O que já dá para perceber é que, diferentemente do que ocorre com companhias de outros segmentos, as teles querem aproveitar esse momento para reforçar as vendas. Viana, da Corning, diz que algumas empresas têm questionado se é possível ampliar a oferta de fibra ótica. "Seja por trabalho ou por lazer, quando ficam em casa, os consumidores consomem mais banda. E, para a operadora, isso é oportunidade."

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