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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O que é a energia escura? Modelos inéditos dão novas pistas para a ciência

Visão do Telescópio de Cosmologia do Atacama, utilizado nos estudos sobre a energia escura - M. Devlin/ Universidade da Pensilvânia
Visão do Telescópio de Cosmologia do Atacama, utilizado nos estudos sobre a energia escura Imagem: M. Devlin/ Universidade da Pensilvânia
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

23/09/2021 04h00

A energia escura, como o próprio nome indica, segue sendo um mistério a ser desvendado pela astrofísica. Essa substância, cuja composição ainda é desconhecida, é responsável por "empurrar" o universo, acelerando a expansão e fazendo com que o espaço cresça cada vez mais rápido.

Embora sua descoberta tenha sido há mais de 20 anos, ainda há problemas não resolvidos —mesmo sem levar em conta que não sabemos do que a energia escura é feita. Por exemplo, medidas independentes da taxa atual de expansão do universo geram valores diferentes. Como isso é possível? Erros nos experimentos, ou algum processo físico ainda desconhecido?

Pela relevância do problema, equipes diferentes tentam atacá-lo de diferentes formas. Enquanto alguns astrônomos tentam pensar em novas medidas, outros pesquisadores buscam novos modelos para entender o comportamento da energia escura. E agora um desses modelos está apresentando resultados promissores.

Apelidado de energia escura precoce, ele funciona de forma diferente da energia escura "tradicional". No modelo antigo, a energia escura tem densidade constante e se comporta sempre da mesma maneira. A energia escura precoce, por outro lado, seria mais intensa no começo do universo, e gradualmente perderia sua influência sobre a expansão do universo.

É como um fluido que vai gradualmente desaparecendo ao longo dos bilhões de anos após o Big Bang. O modelo foi proposto por Vivian Poulin, da Universidade de Montpellier (França), e seus colaboradores em 2018, e parecia resolver alguns dos problemas com o modelo anterior.

Agora, dois grupos independentes —um deles liderado novamente por Poulin— analisaram dados do Telescópio de Cosmologia do Atacama (ACT, na sigla em inglês), e ambas as equipes concluíram que os dados favorecem a energia escura precoce sobre o modelo tradicional.

O físico teórico Marc Kamionkowski, da equipe de Poulin, parece animado com as perspectivas, e enfatiza como é reconfortante que uma análise independente dos dados concorde com os seus próprios.

"Os autores daquele estudo são bastante conservadores, e têm profundo domínio sobre os dados e as medidas", diz.

O resultado, no entanto, ainda está longe de ser visto como definitivo. Os dados do telescópio espacial Planck, por exemplo, mais completos que os do ACT, levam a uma conclusão diferente, favorecendo o modelo antigo.

No final, esse é um excelente exemplo de ciência em tempo real: diferentes modelos e metodologias para tentar resolver um resultado ainda sem explicação.

O único caminho para resolver a disputa é o usual: mais e melhores dados, mais experimentos e o método científico para confirmar ou descartar essa ou aquela hipótese.

Só não acreditem se lerem por aí que o problema da energia escura está resolvido. Às vezes algumas notícias de jornal podem dar a entender isso a partir de manchetes bombásticas, mas raramente a ciência funciona dessa forma.