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Thiago Gonçalves

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Teoria de Einstein ajuda a achar planetas que não orbitam nenhuma estrela

Impressão artística de um planeta errante - A. Stelter / Wikimedia Commons
Impressão artística de um planeta errante Imagem: A. Stelter / Wikimedia Commons
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

08/07/2021 04h00

Como podemos encontrar planetas orbitando outras estrelas? A pergunta não é simples, já que planetas, ao contrário de estrelas, não produzem energia diretamente e assim não emitem luz.

O método mais comum atualmente é o do trânsito, ou seja, a diminuição do brilho de uma estrela quando o planeta passa em sua frente. Como o planeta orbita a estrela, essa diminuição acontece periodicamente, e podemos até inferir o tamanho do corpo a partir das observações.

No entanto, temos outro problema: quantos planetas errantes, sem uma estrela hospedeira, existem em nossa galáxia? Mesmo se esses viajantes passam em frente a um objeto brilhante, será impossível classificá-los como planetas, já que o sinal não-periódico poderia ser explicado por uma grande variedade de fenômenos.

Aí entra a relatividade geral de Einstein. Outra forma de detectar planetas é através do efeito de lentes gravitacionais: ao passar em frente a uma estrela, o planeta pode curvar suficientemente o espaço-tempo ao seu redor, agindo como lente e aumentando o brilho da estrela.

Usando observações do telescópio espacial Kepler, a equipe liderada por Iain McDonald, da Universidade de Manchester, estava buscando exatamente por esse tipo de viajante galáctico.

O processamento de dados foi um dos maiores desafios, já que os eventos de lenteamento podem durar entre horas e dias, e o telescópio não necessariamente acompanhava o brilho de uma mesma estrela neste período de tempo.

McDonald explica o desafio do trabalho:

"Estes sinais são extremamente difíceis de encontrar. Nossas observações apontaram um telescópio idoso, com visão embaçada, para uma das regiões mais congestionadas do céu, onde milhares de estrelas brilhantes variam sua luminosidade, e com milhares de asteroides atravessando o campo. Dessa cacofonia, tentamos extrair pequenas variações de brilho causadas por planetas, e temos apenas uma chance de observar o sinal. É como buscar um único piscar de um vagalume no meio de uma autoestrada, utilizando um celular."

Ainda assim, o projeto foi um sucesso. Eles conseguiram encontrar 27 candidatos a planetas nos dados. A maioria já era conhecida antes, mas os cientistas encontraram quatro possíveis planetas do tamanho da Terra, vagando desacompanhados pela galáxia.

O trabalho confirma a possibilidade de usar telescópios espaciais nesse tipo de busca, e abre caminho para futuros projetos como o Euclid, da Agência Espacial Europeia, ou o Nancy Roman, da Agência Espacial Norte-Americana, ambos planejados para esta década.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL