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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

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O último suspiro: astrônomos flagram buraco negro pouco antes de sua morte

A imagem obtida por rádio-observatórios mostra os jatos de matéria produzidos pelo buraco negro central em Arp 187 - ALMA (ESO/NAOJ/NRAO), Ichikawa et al.
A imagem obtida por rádio-observatórios mostra os jatos de matéria produzidos pelo buraco negro central em Arp 187 Imagem: ALMA (ESO/NAOJ/NRAO), Ichikawa et al.
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Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

10/06/2021 04h00

Astrônomos da Universidade de Tohoku, no Japão, acreditam haver encontrado evidências dos últimos sinais de um buraco negro supermassivo antes de morrer. É o seu último suspiro, por assim dizer.

Hoje sabemos que quase todos as galáxias, ou pelo menos aquelas acima de um determinado tamanho, têm um buraco negro com milhões ou até bilhões de vezes a massa do Sol em seu centro. Além disso, alguns desses buracos negros estão consumindo uma enorme quantidade de matéria ao seu redor, sendo classificados como núcleos ativos de galáxias.

Essa matéria se acumula na forma de um disco de gás ao redor do buraco negro. Com a enorme energia gravitacional na região, esse material acelera e se aquece, emitindo até mesmo sinais de raios-X.

Ao mesmo tempo, o corpo cria um campo magnético tão potente que um jato é formado. Esse jato é capaz de levar parte do gás da região a distâncias de milhares ou milhões de anos-luz de distância do próprio buraco negro.

Os pesquisadores japoneses, liderados por Kohei Ichikawa, utilizaram o radio-observatório ALMA, no Chile, para estudar o sistema de galáxias Arp 187, a pouco mais de 300 milhões de anos-luz de distância de nós. Ao examinar as imagens, encontraram realmente um jato de matéria de alguns milhares de anos-luz de dimensão, um sinal claro da presença de um buraco negro.

No entanto, ao buscar por sinais de raios-X no centro da galáxia, uma surpresa: não havia nada ali, nenhuma emissão de energia característica do disco de matéria ao redor do buraco negro. Esse disco é comparativamente muito pequeno, milhares de vezes menor que o jato, mas os cientistas esperavam ver um pontinho brilhante bem no centro do sistema.

O interessante é que o jato observado foi iluminado pelo próprio disco, mas devido às distâncias envolvidas, essa luz leva alguns milhares de anos para ser emitida e chegar às bordas das nuvens de gás vistas nas imagens.

Então o que estamos vendo nos jatos é como um eco da luz emitida pelo disco. Um clarão de luz produzido há no máximo três mil anos, mas que já não está mais lá. São os momentos finais da vida fugaz desse monstro cósmico.

Vale lembrar que o buraco negro não deixa de existir, ele continua lá. Aparentemente, ele consumiu toda a matéria que havia no disco, e agora parou de brilhar.

O trabalho é importante para entendermos o mecanismo de funcionamento dos buracos negros. Como detetives, vemos um crime que acabou de acontecer, e com as evidências ainda frescas, temos mais chances de encontrar a causa da morte.