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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Inferno no espaço: cientistas acham planeta tão quente que derrete metais

Impressão artística de um planeta tipo "júpiter-quente", próximo a sua estrela hospedeira. - ESO/L. Calçada
Impressão artística de um planeta tipo "júpiter-quente", próximo a sua estrela hospedeira. Imagem: ESO/L. Calçada
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

27/04/2021 13h06Atualizada em 28/04/2021 11h44

Cientistas anunciaram nesta terça-feira (27) a descoberta de um dos planetas mais quentes já observados. Com uma temperatura superficial que varia entre 2300 e 2700 graus Celsius, TOI-1431b não deve ser um lugar muito apropriado para abrigar vida. A essa temperatura, quase todos os metais derreteriam, e alguns —como o cobre— poderiam até mesmo evaporar. A descoberta foi publicada no site Arvix e ainda precisa ser revisada pelos pares, isto é, passar por análise da comunidade científica.

O novo planeta traz essas condições devido a uma combinação de proximidade e temperatura da estrela. O planeta orbita uma estrela com quase duas vezes a massa do Sol, e que é quase 2000 graus Celsius mais quente que o nosso astro-rei.

Ao mesmo tempo, a distância entre o planeta e a estrela é de apenas 5% da distância da Terra ao Sol, apenas 7.5 milhões de quilômetros. A essa distância, TOI-1431b leva apenas 2,7 dias para orbitar a estrela. Já imaginaram, um ano que dura menos de três dias terrestres?

O planeta propriamente dito é um pouco maior que Júpiter, com três vezes a sua massa. Dessa forma, o planeta é denominado de "Júpiter ultra-quente", uma classe rara de planetas extrassolares que atingem temperaturas extremas.

Para encontrar o planeta, os pesquisadores, liderados por Brett Addison, da Universidade de Queensland do Sul, na Austrália, usaram dados do telescópio espacial TESS. Esse observatório é especializado em encontrar a diminuição no brilho de estrelas quando um planeta passa em frente a elas.

Em seguida, usaram telescópios na Terra para confirmar a descoberta. Com esses instrumentos, puderam ver o movimento causado na própria estrela pela órbita do planeta ao seu redor. Por estar tão próximo, TOI-1431b gera uma forte atração gravitacional em sua hospedeira, com um movimento que chega a cerca de 200 m/s e que pode ser detectado por instrumentos terrestres.

O mistério agora é entender como esse planeta se formou. Desde que começamos a detectar os primeiros planetas ao redor de outras estrelas, notamos uma grande quantidade de objetos do tipo jupíteres quentes, ou seja, planetas gigantes muito próximos a suas estrelas hospedeiras.

Isso é inesperado, pois nossos modelos são incapazes de explicar como planetas se formariam aí. De fato, o Sistema Solar não tem nada parecido: os gigantes gasosos estão todos a grandes distâncias. Nas proximidades do Sol, por outro lado, devido às grandes temperaturas presentes, seria muito difícil explicar como os planetas teriam suficiente material sólido para crescer de grãos de poeira até seu tamanho atual.

A principal explicação é que isso aconteça através de interações. Os planetas provavelmente se formam na parte externa do sistema planetário, e por interações gravitacionais com outros planetas, por exemplo, ou até mesmo com outras estrelas vizinhas, podem ir parar em órbitas mais próximas à estrela.

Os autores desse trabalho acreditam que este seja o caso. Eles veem indicações de que o planeta orbita em direção contrária à rotação da própria estrela, o que não deveria acontecer naturalmente. Dessa forma, foi provavelmente uma interação gravitacional com outro objeto que levou TOI-1431b ao "inferno" onde se encontra atualmente.