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Novos hábitos: pandemia deve alterar drasticamente escolhas do consumidor

Anna Shvets/ Pexels
Imagem: Anna Shvets/ Pexels
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

09/08/2020 04h00

Mais do que o impacto tecnológico, covid-19 pode ter um impacto em mudança de valores.

Quem estudou psicologia ou marketing conhece a Pirâmide de Maslow. Concebida pelo psicólogo norte-americano Abraham Maslow, é uma teoria proposta na década de 40 que trata da hierarquia das necessidades humanas.

Na base da pirâmide ficam as necessidades fisiológicas, como respirar, beber, comer, fazer sexo. Mais acima da pirâmide, a segurança, seguida pelo amor, estima e, no topo da pirâmide, a realização pessoal.

A pirâmide fala sobre indivíduos, mas é natural que o contexto histórico tenha influência. Não importa se você é rico ou pobre, jovem ou sênior, se o seu país entra em guerra, isso afeta todo mundo.

Não é incomum acharmos estrangeiros que estão no Brasil porque fugiram da guerra (ou dos efeitos causados por ela) em seus países. É o caso do meu sogro. Mais comum ainda, achar quem nasceu no Brasil porque os pais fugiram da guerra.

O historiador Yuval Harari lembra que, pela primeira vez na história da humanidade, a paz não é entendida como o período entre guerras. Na cabeça da maioria das pessoas, um país entrar em guerra com outro é algo fora de questão.

Mas ainda assim, mesmo a guerra sendo coisa do passado e a vida dessas pessoas ter melhorado, é natural que elas tenham uma visão e um comportamento diferente.

Mesmo tirando todos os pré-conceitos e preconceitos em relação às gerações, a maioria das pessoas nesse perfil que conheci têm um comportamento diferente quando se fala de curtir a vida ou investir seu dinheiro, como se estivessem guardando gordura para a próxima crise, a próxima guerra.

Já a geração X se preocupou muito em vencer na vida. Ainda que isso tenha um significado diferente para cada um. Para boa parte da população brasileira, fazer faculdade era a prova dessa conquista. Quantas vezes você escutou alguém dizer com orgulho que foi a primeira pessoa na família a ter diploma? A geração Y, como sabemos, está mais preocupada em ser feliz.

E chegamos ao covid-19.

Ainda que a comparação com a guerra tenha tantas diferenças como similaridades, o impacto em mortes e na economia será brutal. De forma e graduação diferentes, impacta a todos, jovens ou não, abastados ou não.

Pode — e deve — mudar comportamentos. Talvez não tão radical como muitos esperam, mas mesmo as menores mudanças podem ter grande impacto no universo dos negócios.

Tenho visto matérias e discussões sobre mulheres rediscutindo a importância da maquiagem. Em um momento onde muita gente faz reunião de pijamas, talvez as mulheres descubram que usar maquiagem não é uma obrigação.

Como sabemos, covid-19 já terá grande impacto. Mesmo pós-quarentena, o número de trabalhadores remotos será absurdamente maior do que era antes da crise. Muitas empresas aceleraram seus esforços em lojas online, muita gente passou a experimentar e ganhar hábito nas compras.

Segundo o Ebit, o ecommerce em março cresceu 48% em comparação ao ano anterior e cerca de 31% são novos consumidores, o que eu chamei em outro artigo de "virgens digitais".

Uma pesquisa da consultoria McKinsey mostrou que nos EUA a aceleração foi ainda maior. A curva de crescimento de compras online iria demorar dez anos para chegar onde chegou em apenas três meses.

Mas a provocação que eu trago no texto vai além disso. Estou falando não apenas sobre mudança de hábitos, mas de valores.

Um estudo da empresas Ketchum, apontou que 86% dos norte-americanos passaram a dar mais importância para a saúde mental. A mesma pesquisa apontou que 74% disseram que a covid-19 mostrou o quão desnecessário eram seus hábitos de compra no passado. Outros 45% disseram que já mudaram suas preferencias de marca. E 88% afirmaram que está valorizando mais o comportamento ético das empresas.

O quanto disso vai se manter e o tamanho do impacto na escolha de empregos e de marcas na hora da compra ainda é cedo para dizer. Porém, ainda que você não acredite que todos sairemos com mais empatia e responsabilidade dessa crise, alguma coisa irá mudar. E para a sua empresa, mesmo uma pequena mudança nos valores pode significar um impacto bem alto nos resultados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.