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Ricardo Cavallini


IA que detecta epidemia nos traz novos desafios morais, éticos e legais

Xinhua/Wang Fei
Imagem: Xinhua/Wang Fei
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

31/01/2020 04h00

Cada vez mais, os avanços tecnológicos irão trazer desafios morais, éticos e legais.

Um exemplo muito utilizado são os carros autônomos. Se em um acidente o carro precisasse priorizar a vida de uma pessoa em detrimento de outra, quais seriam os critérios de escolha e de quem seria a responsabilidade?

Podemos citar muitos outros exemplos. A impressão 3D trará desafios com a pirataria de produtos e produção de armas. A inteligência artificial já assusta pelo risco de resultados com viés, falta de privacidade e controle governamental.

A tecnologia sempre trouxe esse desafio, a novidade é que as coisas estão mudando rápido demais. Com a emergência global do coronavírus podemos passar pela necessidade de adiantar uma dessas discussões.

A plataforma canadense BlueDot, um algoritmo desenvolvido em inteligência artificial fez o primeiro alerta sobre o vírus, muito antes dos governos. No futuro, podemos deixar na mão de algoritmos assim a capacidade de proibir voos aéreos para evitar uma grande epidemia?

Alguns cientistas norte-americanos acreditam que a epidemia pode matar até 65 milhões de pessoas pelo mundo. Pense no caos e no prejuízo que seria fechar o tráfego aéreo em alguns lugares, agora pense em 65 milhões de vidas.

Enquanto isso, cientistas em Hong Kong disseram ter criado uma vacina. Em uma emergência global, autoridades até aceitam que se encurtem algumas etapas, mas dependendo do tipo de problema, a vacina ou a cura para uma doença pode levar meses apenas nos testes em animais, e anos para ser liberada em seres humanos.

Com tecnologias como Crispr, em um futuro muito breve poderemos chegar a cura do câncer e problemas como o coronavirus. Mas como lidar com epidemias como esta?

Sim, existem regras, legislação e um entendimento claro por parte dos cientistas, mas será que a pressão popular e governos populistas não seriam suficientes para burlar tudo isso?

Um medicamento não testado corretamente poderia causar uma catástrofe ainda maior. Neste caso, os "pró-vacinas não testadas corretamente" seriam tão perigosos para a sociedade quanto os "antivacina"?

O que você faria?

Pense, 65 milhões de pessoas. Talvez a sua família e seus amigos corram risco de morte.

Você pressionaria o governo? Você tomaria a versão pirata da vacina vendida na 25 de Março [região de comércio popular em São Paulo] e comprada no Paraguai?

A resposta para esta e outras questões não são nada triviais. O avanço tecnológico irá trazer desafios morais, éticos e legais que irão desafiar nosso bom senso. Logo ele, cada vez mais escasso.

Ricardo Cavallini