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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Olimpíadas: É fascinante ver a tecnologia usada para performance de atletas

Veículo autônomo utilizado durante os Jogos Olímpicos de Tóquio - Comitê Olímpico Internacional
Veículo autônomo utilizado durante os Jogos Olímpicos de Tóquio Imagem: Comitê Olímpico Internacional
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Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

31/07/2021 04h00

Essa semana o Brasil parou para assistir e celebrar a medalha de prata conquistada pela mais jovem atleta brasileira a subir em um pódio olímpico, a skatista Rayssa Leal.

Em uma apresentação marcante pela qualidade técnica, pela leveza e descontração, Rayssa garantiu a medalha histórica ao Brasil em uma edição dos Jogos Olímpicos também muito especial: a primeira na qual cinco novas modalidades esportivas foram incluídas: surfe, skate, karatê, escalada esportiva e beisebol/softbol.

Esta edição dos Jogos Olímpicos será lembrada como única em tantos outros sentidos, afinal de contas, está sendo realizada enquanto o mundo ainda enfrenta a pandemia de covid-19.

Sua realização estava prevista para o ano de 2020 —não à toa toda a comunicação mantém o emblema "Tokyo 2020"— e só está sendo possível graças a diversas adaptações e restrições, que vão desde a realização das competições sem a presença de público de fora do Japão até mudanças nas cerimônias de premiação, nas quais os atletas são responsáveis por colocar suas próprias medalhas.

Essas adaptações em nada parecem retirar o brilho e o encantamento das Olimpíadas, especialmente frente a conquistas tão simbólicas e inéditas como a de Rayssa Leal.

E em um cenário no qual a presença física se torna impossível, podemos contar com os recursos da tecnologia para ampliar nossa proximidade com os atletas e suas performances surpreendentes. Mas o uso das soluções digitais vai muito além.

Não é de hoje que as soluções tecnológicas são aplicadas para trazer ganhos de eficiência e cuidados na saúde dos atletas. E é fascinante observar como a junção entre tecnologia e desempenho humano podem nos fazer avançar e alcançar patamares muito próximos à perfeição, como o desempenho de Bolt nas corridas, de Phelps na natação ou de Biles na ginástica artística.

Com os Jogos Olímpicos de 2021, essa relação ganha um novo patamar. Há tecnologias aplicadas para a coleta de dados sobre a performance dos atletas.

Com o apoio de wearables —por exemplo, um relógio— e de soluções de inteligência artificial, é possível mapear com precisão o desempenho em provas e, a partir dessas informações, traçar estratégias para melhorar os resultados alcançados.

Outras tecnologias utilizam imagens para monitorar a competição; com precisão milimétrica, elas são acionadas para atestar, por exemplo, se uma bola caiu dentro ou fora da quadra.

As soluções digitais também estão presentes na organização dos Jogos Olímpicos em si. É o caso da Toyota, que desenvolveu um veículo autônomo —ainda que com supervisão humana— para transportar até 20 pessoas entre as arenas de competição. A empresa também apoiou a criação de robôs responsáveis por interagir com participantes.

E há algo ainda mais surpreendente: a cobertura televisiva de mais de 9 mil horas ao longo dos 17 dias de jogos será realizada pela NHK, emissora japonesa, com a tecnologia 8k em parte da programação, além de utilizar soluções de clouding e o 5G para ampliar a eficiência da transmissão.

E como não poderia ser diferente, a tecnologia também está sendo aplicada para prevenção de covid-19 durante os Jogos Olímpicos.

As medidas de monitoramento têm como base o uso de tecnologias: os mais de 100 mil atletas, familiares e trabalhadores serão testados frequentemente; também foi desenvolvido um aplicativo para facilitar o rastreamento de contatos (contact tracing) e todos que entram em território japonês devem utilizar a solução e informar sua localização via GPS. A medida vai facilitar o controle e isolamento de eventuais focos de contaminação.

Tecnologia como símbolo de potência mundial

Não é por acaso que as Olimpíadas de Tóquio devem ser consideradas como um divisor de águas quando o assunto é a utilização de tecnologias. O Japão tem sido uma potência que lidera o desenvolvimento de inovação e tecnologias mundialmente: no Global Index Innovation de 2020, o país ocupa o 16º lugar entre 131 nações - o Brasil, por sua vez, está na posição 64.

O país é referência especialmente quando o assunto é robótica. O Japão é líder mundial em exportação de robôs. Dilemas muito presentes no ocidente em relação à presença dos robôs performando atividades antes exclusivas dos seres humanos parecem ter sido superados pela sociedade japonesa. Esse tipo de tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano das famílias, nas empresas e na gestão pública do país.

Acima de tudo, a experiência japonesa nos ensina uma lição: os frutos do desenvolvimento tecnológico não podem ser colhidos de um dia para o outro. É preciso investir no desenvolvimento científico, criando legados hoje que possibilitem avanços surpreendentes no futuro.

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Ter a oportunidade de acompanhar os Jogos Olímpicos de 2020 tem sido uma experiência extraordinária. Não tenho dúvidas de que esse evento será um marco na história do desenvolvimento tecnológico.

E, no momento atual, ter a chance de torcer pelos atletas brasileiros e suas conquistas tem sido fundamental para resgatar a esperança de dias melhores. Que este sentimento possa nos ajudar na cura de outras feridas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL