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Helton Simões Gomes

Perto da eleição, ação hacker preocupa país sem pólvora para ciberataque

Ascom/TSE
Imagem: Ascom/TSE
Helton Simões Gomes

Jornalista com mais de 10 anos de experiencia na cobertura de ciência e tecnologia, com passagens por Folha, Band e TV Globo. Vencedor do prêmio CNI de Jornalismo de 2013.

Colunista do UOL

14/11/2020 04h00

O roubo das mensagens de Moro, Dallagnol e a turma da Lava Jato tinha sido a atitude mais espetacular praticada por um hacker que se teve notícia no Brasil. Até agora. Entretanto, o ataque ao STJ estabeleceu um novo marco.

A ação elevou a preocupação para níveis alarmantes por pelo menos dois motivos: primeiro, teremos eleições municipais neste domingo. Segundo, a estrutura do país contra ataques cibernéticos ainda é incipiente. Parafraseando o presidente Jair Bolsonaro, nesta área, temos mais saliva do que pólvora. Além disso, outras investidas hackers indicam que ações assim estão deixando de ser invisíveis e irão atrapalhar cada vez mais o dia a dia de brasileiros.

Na terça-feira (3), soubemos que a Polícia Federal foi acionada para investigar a invasão aos sistemas do STJ, pois:

Com diferentes tonalidades, todos os incidentes acima impactaram de formas diferentes a vida dos cidadãos. Antevendo o receio de eleitores e procurando apaziguar as franjas mais céticas da população, o TSE, que não sofreu ataque nenhum, se adiantou. Avisou que a urna eletrônica não é conectada à internet e que os votos são contabilizados em rede criptografada e privada — não está ligada a bluetooth, wi-fi etc.

Por tudo isso, não deve ser dessa vez que os terraplanistas eleitorais verão a fraude que tanto aguardam para ressuscitar o voto em papel. Mas as consequências da ação de hackers no STJ e na Enel ainda estão no ar.

No primeiro caso, processos em segredo de Justiça podem vir a público. No segundo, criminosos poderiam usar as informações vazadas para se passarem pelos clientes da distribuidora de energia e aplicar golpes. A coisa é tão séria que já há especialistas aventando a possibilidade de surgirem processos judiciais questionando a quebra da privacidade.

Essas ações podem se valer da Lei Geral de Proteção de Dados, que entrou recentemente em vigor. Mas é aí que começam os problemas. A legislação prevê um órgão para enquadrar empresas e órgãos públicos que vacilassem na hora de preservar as informações de seus clientes. Ela aplicaria multas e sanções. Porém, só passará a funcionar no ano que vem, por decisão de Bolsonaro.

Cibersegurança e proteção à privacidade são assuntos diferentes, mas descuidar de um geralmente compromete o outro. E esse é um assunto mal resolvido no Brasil. No caso do STJ, a PF foi acionada por ser a autoridade policial com competência para apurar ataques a bens da União. Mas quem atua no caso da Enel? Ou do CFC?

O governo já desenhou um plano para fazer do GSI sua super-agência de cibersegurança. Entre as boas intenções, está a de coordenar a atuação dos centros de resposta a incidentes cibernéticos de diversos setores, do financeiro e elétrico ao de telecomunicações. É, por ora, uma ideia. Enquanto isso, estamos todos fadados a sofrer da mesma crise de ansiedade que está acometendo agora os moradores de Osasco.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.