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Guilherme Rambo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Apple diz que novas regras ameaçam segurança do iPhone, mas não é bem assim

Przemyslaw Marczynski/ Unsplash
Imagem: Przemyslaw Marczynski/ Unsplash
Guilherme Rambo

Guilherme Rambo é programador desde os 12 anos. Especialista em engenharia reversa, é conhecido mundialmente por revelar os segredos da Apple antes mesmo dos anúncios da empresa, além de programar para as plataformas da empresa.

18/06/2021 04h00

Não é de hoje que órgãos regulatórios dos mais diversos países e regiões têm olhado torto para as grandes empresas de tecnologia, inclusive a Apple. A empresa passa por diversos processos sobre práticas anticompetitivas, a maioria deles envolvendo a forma como controla todo software que pode ser executado nos iPhones e iPads, ao mesmo tempo que oferece serviços concorrentes dos aplicativos de terceiros.

Não é difícil perceber essa questão com um exemplo: Apple Music. Quando você compra um iPhone, o Apple Music já vem pré-instalado. Além disso, você verá propagandas do Apple Music por tudo quanto é canto no sistema, até mesmo nos Ajustes. Ao mesmo tempo, existem outros apps que oferecem streaming de música, como o Spotify.

O Spotify —concorrente direto do Apple Music— precisa ser encontrado e instalado manualmente por você através da App Store, controlada pela Apple. Toda atualização do Spotify precisa seguir as regras definidas pela Apple para a App Store e passar por sua revisão rigorosa, com a probabilidade de ser rejeitada. Não fica difícil entender o argumento dos que defendem que a Apple exerce práticas anticompetitivas no iPhone quando observamos este exemplo simples.

Mais recentemente, a União Europeia anunciou um pacote de medidas que visam reduzir o poder das grandes empresas de tecnologia por lá. Uma dessas medidas exigiria que a Apple permitisse a instalação de apps nos iPhones sem passar por sua aprovação e pela App Store.

Segundo Tim Cook, tal medida "destruiria a segurança do iPhone" e diversas medidas de proteção de privacidade que a empresa vem incluindo em seu sistema operacional. Segundo Cook, a forma como a lei se expressa atualmente "forçaria a instalação de apps sem passar pela App Store".

Vejo alguns problemas com essas afirmações. Mesmo que a Apple fosse obrigada a permitir isso, nenhum usuário seria "forçado" a fazê-lo, da mesma forma como no Android é possível instalar apps sem passar pelo Google Play, mas a enorme maioria dos usuários se limita aos apps disponíveis na plataforma.

Além disso, a Apple tem outra plataforma que permite a instalação de apps de qualquer lugar: o Mac. Não vejo a Apple em seu marketing afirmando que o macOS é inseguro, ou menos seguro que o iOS. Ambos os sistemas operacionais possuem medidas de segurança intrínsecas à forma como operam que impedem violações graves de segurança e privacidade, mesmo que um app seja instalado sem passar pela App Store.

É claro que podem existir falhas de segurança, mas estas ocorrem tanto no Mac quanto no iPhone e são corrigidas rapidamente com atualizações. Considerando isso, fica difícil concordar com as afirmações de Tim Cook.

O melhor futuro para as plataformas —não só da Apple, como todas as demais— seria dar liberdade para que seus usuários pudessem instalar o que bem entenderem nos seus dispositivos, afinal nós compramos —não alugamos— nossos iPhones.

Pessoalmente, não sou muito fã do uso de leis para aplicar mudanças tecnológicas, pois aqueles que as criam raramente possuem conhecimento suficiente para compreender a repercussão das suas decisões. Por isso mesmo gostaria que a Apple agisse antes que fosse forçada a fazê-lo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL