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"Ancestors" é um jogo de sobrevivência visceral, mas repetitivo

Em "Ancestors: The Humankind Odyssey" você precisa se proteger para garantir a sobrevivência da espécie - Divulgação
Em "Ancestors: The Humankind Odyssey" você precisa se proteger para garantir a sobrevivência da espécie Imagem: Divulgação

Daniel Esdras

Do GameHall

06/09/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Game vem do estúdio de Patrice Désilets, que participou da criação da série "Assassin's Creed"
  • Jogador começa como um filhote de primata e precisa evoluir através das gerações
  • Ausência de instruções e tutoriais amplifica a imersão e força o jogador a usar intuição e aprender com seus erros
  • Conceito de genes, habilidades e cadeia alimentar é muito bem trabalhado, mas repetição e falhas técnicas comprometem

Patrice Désilets é um apaixonado pela história da humanidade e sempre usa seus conhecimentos nessa área na hora de criar os conceitos para os seus jogos. Foi assim quando fez parte do time da Ubisoft que criou "Assassin's Creed", lá no início dos anos dois mil, e foi assim nos últimos quatro anos, enquanto criava seu o primeiro jogo na novíssima "Panache", chamado "Ancestors: The Humankind Odyssey".

O período escolhido por Patrice e sua equipe atiça a curiosidade do jogador, já que é pouco explorado em outros jogos. Contar a história da evolução humana, mesmo tomando liberdades criativas que fogem do rigor científico, é uma tarefa ousada e difícil, que fica ainda mais puxada por ser o primeiro título do estúdio. Afinal, onde buscar referências?

Incrédulo e desconfiado, troquei mouse e teclado pelo controle, seguindo a orientação dos próprios desenvolvedores para aproveitar ao máximo a jogabilidade, e dei o Start. Nos minutos iniciais, a introdução já deixou bem clara a premissa do jogo, o que me fisgou de vez.

A câmera foca em um humanoide carregando um filhote nas costas (mais parecido com um macaco que com um humano) e passeia por uma floresta densa, mostrando como a lei da natureza rege o local. O que parece mais um dia de passeio para os dois ancestrais da humanidade se transforma em um pesadelo em poucos segundos.

Uma águia gigante captura os dois humanoides e viaja até o seu ninho, onde executa o adulto sem muito trabalho. Fui imediatamente colocado no controle do filhote, que por algum milagre sobreviveu a uma queda do ninho enquanto rolava, e seu pai lutava em vão pela sobrevivência. Com a tela se distorcendo e as sombras da floresta tomando a forma de predadores enquanto buscava o rumo de casa, uma representação do medo do pequeno, o cartão de visitas da Panache não deixa dúvidas, "Ancestors: The Humankind Odyssey" é um jogo de sobrevivência; e daqueles bem viscerais.

Tentativa e erro

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A volta do filhote para o local onde vive o seu clã é basicamente o tutorial, com pequenos avisos na interface sobre como utilizar as mecânicas mais básicas, que envolvem os sentidos do (ainda) animal. A partir disso, não existe mais nenhum auxílio, é preciso descobrir tudo por contra própria (ou então conferir guias do START!), na base da tentativa e erro, como, de fato, deve ter acontecido com nossos ancestrais.

O primeiro aprendizado é que a sobrevivência da humanidade depende não de um indivíduo, mas da sobrevivência do grupo

O primeiro aprendizado é que a sobrevivência da humanidade depende não de um indivíduo, mas da sobrevivência do grupo. Com o controle total do clã, descobri que não há diferenças comportamentais entre os membros, como humanoides mais propensos a fazer algum tipo de atividade ou mais fortes, mas há diferenças de idade e sexo.

Os anciões têm uma pelagem mais acinzentada e uma postura menos firme, indicando os sinais de idade. Já os adultos esbanjam saúde e, ao serem analisados, mostram um medidor de energia bem maior que o dos idosos. Por fim, temos os filhotes, que ficam sempre próximos a algum adulto, quando não nas costas deles.

É possível controlar qualquer um dos humanoides do clã, mas você provavelmente vai demorar para descobrir como fazer isso, já que o jogo não explica absolutamente nada. Aliás, para descobrir tudo será um martírio, já que o processo de tentativa e erro para absolutamente tudo vem carregado de doses cavalares de frustração.

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Como o jogo não tem nenhum objetivo fixo, como uma missão que guie o jogador, é normal ficar perdido nas primeiras horas, e isso faz parte da experiência. A primeira descoberta será o funcionamento dos sentidos do humanoide, que pode identificar recursos e outros animais através do olfato, visão ou audição, cada uma com suas peculiaridades, mas com o mesmo fim.

Após pegar um objeto, é possível analisá-lo, e nesse momento começa o entendimento das mecânicas mais básicas de sobrevivência: comer e beber água. Cada alimento tem suas características próprias, podendo dar resistência temporária ao frio ou a sangramentos, bem como problemas graves como uma intoxicação alimentar. Curar esses males é um aprendizado que demanda tempo e mais experimentação, experimentando o que a natureza te oferece e se adaptando de acordo com os resultados.

A partir daí eu estava realmente empolgado com o jogo. Ao bater pedras umas contra as outras descobri como fazer uma espécie de moedor, que serve para triturar algumas plantas e formar uma pasta que serve para curar ferimentos. Ao empilhar folhas, construí novas "camas" para os membros do meu clã. Com o tempo as descobertas na base vão diminuindo e é hora de buscar novos horizontes.

Após pegar um objeto, é possível analisá-lo, e nesse momento começa o entendimento das mecânicas mais básicas de sobrevivência: comer e beber água

Para sobreviver é preciso evoluir

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A seleção natural é implacável: as espécies mais fracas não tiveram vez e acabaram engolidas pelos desafios que as diferentes eras do nosso planeta trouxeram. Para superar cada um desses problemas, é preciso evoluir, passar os melhores genes para a nova geração e se adaptar aos cenários que se impõem sobre o seu grupo.

"Ancestors: The Humankind Odyssey" simula essa evolução de forma interessante, mas com alguns problemas de conceito. No jogo existe uma árvore de habilidades muito semelhante ao que encontramos em diversos RPGs, mas a experiência que permite ganhar novas habilidades é adquirida de forma diferente.

Ao utilizar certas habilidades dos humanoides, como seus sentidos, destreza ao criar itens, ou mesmo experimentando novas comidas ou se comunicando, há um certo ganho de experiência, que é maior se o humanoide em questão estiver com um ou mais filhotes nas costas. Algo como uma experiência coletiva.

Com esses pontos é possível aprender novas habilidades que servem para todo o clã, o que não faria sentido se as habilidades ganhas não fossem tão específicas e voltadas para experiências individuais. Com a mecânica de evolução fica ainda menos verossímil.

Para cada filhote vivo no clã, é possível travar uma das habilidades aprendidas para a próxima geração. Quando o tempo passar e os jovens se tornarem adultos, e os adultos se tornarem velhos, todas as habilidades não travadas serão esquecidas e será preciso acumular experiência novamente para liberá-las.

O que torna o sistema desconexo é que, após passar de geração, os humanoides adultos se tornam anciões, mas perdem a maioria das habilidades que aprenderam durante a vida, mantendo só as que foram travadas, algo que deveria valer só para os filhotes. Portanto, não há conexão com os membros do grupo, que inevitavelmente se tornam apenas cobaias para o seu experimento darwiniano.

Após algumas gerações repetindo o processo de ganhar experiência para liberar habilidades que você já conhece, o loop fica maçante e a diversão cai drasticamente.

Uma parte bem legal desse sistema é que alguns filhotes podem nascer com habilidades que serão fixadas automaticamente na próxima geração, quando eles se tornarem adultos, mesmo que você não as tenha liberado antes. Elas também vão valer para todo o clã, mesmo para os anciões que não as tinham quando mais novos.

Relevando os problemas de lógica, a progressão é bem divertida quando feita pela primeira vez. Após algumas gerações repetindo o processo de ganhar experiência para liberar habilidades que você já conhece, o loop fica maçante e a diversão cai drasticamente.

Inteligência artificial deixa a desejar

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Um dos grandes problemas de "Ancestors: The Humankind Odyssey" está no uso da inteligência artificial. Ao colocar membros do clã para me seguir durante a exploração da floresta, uma das mecânicas de comunicação do jogo, acabei descobrindo que eles mais atrapalham do que ajudam.

Por diversas vezes me deparei com meus comandados se jogando na frente de um predador, ou ficando para trás de forma pouco inteligente, o que resultou em um banho de sangue graças a um crocodilo faminto. Como não há muitas opções de controle do clã e o nível da inteligência artificial está mais próximo dos macacos que dos humanos, ficou difícil focar no que realmente importa.

Como tudo depende muito da interação com o mundo, as deficiências nos sistemas quebram a imersão e te deixam furioso

Além dos problemas com os membros da equipe, há diversos outros também com os animais da floresta. Cobras e felinos não conseguem subir em árvores e desistem facilmente de qualquer investida. Javalis algumas vezes passam por cima das cobras e nada acontece, enquanto em outras situações idênticas, rola uma cinematic mostrando uma batalha rápida e eletrizante entre os dois, com um deles virando a presa.

Por conta do pouco investimento nessa área, também há poucas opções de interação com os outros membros da sua equipe na base. Para conseguir um par para um dos humanoides e garantir a sobrevivência da espécie, bastam alguns acertos em um minigame de catar piolho, que não mostra muita criatividade, aliás.

Como tudo depende muito da sua interação com o mundo, esse tipo de deficiência nos sistemas quebra a imersão e te deixa furioso quando resulta na morte de um humanoide do seu clã.

Travessia é mais desafiadora que o combate

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Após muita tentativa e erro, você irá conseguir fazer uma lança para se defender dos perigos da floresta. Há diversos animais na chamada Neogene Africa: javalis enormes, felinos rápidos, crocodilos, cobras, águias e até mesmo hipopótamos.

Com a lança em mãos, me frustrei ao descobrir que o combate é bem trivial, já que não há um sistema de combate em si, mas um momento de câmera lenta, o mesmo utilizado ao criar o meio de se defender, no qual você pode pressionar um botão no tempo certo para contra-atacar ou se esquivar. Não importa qual o animal, o sistema será sempre o mesmo, o que também não ajuda a acabar com o marasmo do loop de evolução.

Para abrigar essa diversidade de fauna, o mapa foi feito em tamanho respeitável, com uma boa quantidade de biomas. Florestas, pântanos, cachoeiras, picos rochosos e muita variação visual compõem a Neogene Africa. Em cada um desses locais é possível encontrar novos suprimentos, plantas e animais. Um dos grandes baratos do jogo é sair procurando os marcos do continente, que escondem surpresas como fragmentos de meteoro e materiais diferentes, como pedras preciosas.

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O problema é que atravessar a floresta não é tarefa trivial - e quem dera fosse pelos desafios de sobrevivência. Os humanoides são lentos, e como a maioria dos predadores está no chão, durante boa parte do tempo você vai preferir perambular pelas árvores. Só que o sistema de travessia é falho e pouco responsivo.

Pular de uma árvore para outra é, muitas vezes, um salto de fé, já que a visão é prejudicada pela câmera e folhas, e a noção de distância dos saltos é prejudicada. Para piorar, não fica muito claro qual a distância de queda que causa capaz de causar dano. Por vezes seu personagem vai cair de uma árvore enorme e não sofrer nada, em outras muito parecidas vai quebrar um osso ou mesmo morrer.

Com várias horas de prática e uma pilha de corpos por conta das falhas, o processo se tornou mais intuitivo e foi possível se esborrachar menos no chão. Mas ainda assim está longe de ser um sistema responsivo e divertido.

Repetição e poucas novidades

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Após reiniciar o jogo várias vezes para desfazer os estragos dos erros, percebi que o aprendizado anterior me permitia chegar no mesmo ponto bem mais rápido. Ao construir rápido a lança, ter a possibilidade de tratar cada efeito negativo e sabendo quais as melhores habilidades, a evolução se tornou meu foco principal.

Ao evoluir mais e passar pelas eras, a repetição vai se tornando quase insuportável, já que as mudanças na floresta e no clã não justificam a repetição do loop, que recebe poucas novidades na jogabilidade, mesmo com as modificações que o tempo faz no mundo. E nesse momento fica claro que a preocupação conceitual do jogo ficou acima da diversão na execução, o que infelizmente deve fazer a maioria dos jogadores deixar o jogo de lado antes do final. Parafraseando o grande Reggie Fils-Aimé: " O jogo é diversão. Se não for divertido, para que se incomodar?".

Se por um lado o jogo conta com alguns problemas, é impossível ignorar a rapidez da tela de créditos, que conta com menos de 50 nomes. Para um estúdio desse porte, "Ancestors: The Humankind Odyssey" é um grande feito, com ótimos momentos e que indica um futuro muito promissor para Patrice Désilets, o homem que gosta de jogar a história da humanidade.

Ancestors: The Humankind Odyssey

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"Ancestors: The Human Kind Odyssey" aborda a evolução humana e se passa em um período interessante e pouco explorado no universo dos games. O foco na sobrevivência casou muito bem com a proposta do jogo, mas a repetição e o escasso senso de progressão tudo cansativo muito rapidamente. É um conceito nobre e que desafia o jogador, mas que infelizmente esbarra nas falhas de execução.

Lançamento: 27/08/2019
Plataformas: PC (futuramente para Xbox One, PlayStation 4)
Preço Sugerido: R$ 118,99 (Epic Games Store, para PC)
Desenvolvimento: Panache Digital Games
Produtora: Private Division

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