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Ricardo Feltrin

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Análise: Com Lula ou Bolsonaro, Globo vai "perder" a eleição

Lula e Bolsonaro têm algo em comum: odeiam a Globo - Reprodução
Lula e Bolsonaro têm algo em comum: odeiam a Globo Imagem: Reprodução
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

14/06/2022 10h26

Dos proprietários até o chamado "chão de fábrica" da TV Globo, há uma certeza eleitoral: se Lula ou Bolsonaro, qualquer um, for eleito, o futuro da emissora estará envolto em uma névoa de incertezas.

Nenhuma grande empresa do país está mais ameaçada por uma eleição presidencial que a Globo.

Senão vejamos:

Se Lula for eleito, uma de suas primeiras medidas será tentar aprovar a tal "regulação da mídia". Se dependesse de Franklin Martins, o ex-ministro das Comunicações do petista, isso já deveria ter ocorrido até 2010, antes do fim do segundo mandato do chefe.

Faltou coragem a Lula em peitar o maior conglomerado de mídia do país? Talvez.

No início do governo Dilma Rousseff, o ex-ministro voltou a insistir nessa medida, mas Dilma a rejeitou e acabou rejeitando também Martins —numa das mais benéficas decisões de seu governo, aliás.

Na atual campanha eleitoral, no entanto, Lula voltou a falar insistentemente na "regulação da mídia".

Franklin, o artífice

Não por acaso, o tema estava sendo muito mais martelado enquanto —ora vejam— Franklin Martins estava ditando as regras da campanha. Porém, ele ainda tem (bastante) influência sobre Lula.

A "regulação" idealizada pelos petistas, dizem eles, é a "britânica".

Bom, o problema é que no Reino Unido não houve nenhuma "regulação" de fato, mas uma tentativa (justa) de regulamentação e punição judicial contra os abusos dos tabloides, que chegaram a grampear celulares de celebridades e expor suas vidas privadas de forma criminosa.

Além do mais, o Reino Unido é um caso sui generis, onde a população paga para ter uma marca de mídia de altíssima qualidade, chamada BBC. Já no Brasil bancamos um show bilionário de horrores televisivos públicos.

Sim, leitores, os britânicos pagam uma taxa anual para bancar todas as emissoras do grupo BBC. Mas esse "imposto" deve ser extinto até 2027. O futuro da BBC a partir daí ninguém sabe.

Globo, o alvo de Lula

Aqui no Brasil, a medida em fermentação tem destino certo: o Grupo Globo. O PT certamente terá a empresa como alvo, ao menos na área de concessões.

O Grupo Globo tem hoje quatro concessões de rádio. Esta coluna aposta que esse número vai cair, embora rádio seja um grão de areia para a empresa.

Já na área de TV aberta, a coisa fica mais complicada. O que um eventual governo petista pode fazer? Cassar a concessão? A menos que consiga maioria absoluta no Congresso, isso é impossível.

Obrigar a emissora a exibir conteúdo direcionado ou intervir na programação? Seria vergonhoso e patético (mas não impossível).

Nas demais áreas do Grupo Globo, Lula e seu séquito terão pouco o que fazer, pois tudo está na esfera privada.

A Globo tem jornal, o maior número de canais de TV paga, o maior serviço de streaming do Brasil, parceria em muitas empresas (inclusive internacionais) e até um fundo de investimento aberto ao público.

Além, claro, de um enorme, saudável e bilionário caixa.

Talvez esse seja o motivo de tanta diversificação e venda de ativos pelos Marinho nos últimos anos: precaução contra aventuras governamentais.

Com Bolsonaro, Globo é o alvo

Com Jair Bolsonaro reeleito, aí a coisa pode ser pior. Inclusive muita gente não descarta que haveria a tentativa de implantação de uma espécie de "neototalitarismo" —algo que ele e seus devotos vêm tentando há quase quatro anos. Ou coisa ainda pior.

Num eventual segundo mandato, Bolsonaro e sua turma se sentiriam ainda mais empoderados para subir um ou vários tons na agressividade contra a mídia (e os inimigos).

Nesse caso, a situação não vai ficar feia apenas para a Globo, mas para muitos outros veículos não alinhados com o governo. Mas, sem dúvida, o maior conglomerado de mídia do país ainda será o alvo preferencial.

Há anos o presidente em exercício achincalha a Globo e seus donos sem piedade e com um ódio incontido.

Por três anos, ele cortou da emissora e do grupo praticamente toda a publicidade federal, enquanto jorrava dinheiro em emissoras "amigas" com ibope beirando o traço, inclusive várias TVs religiosas.

Porém, no ano passado, o TCU "cortou as asinhas" de Bolsonaro e determinou que ele não pode gastar dinheiro público como quiser (parece que ele não sabe ou não aceita disso).

Para o TCU, é obrigatório que o governo obedeça a critérios de audiência para direcionar o dinheiro da publicidade da União.

Ameaçado de sofrer sanções no cargo se a prática continuasse, o presidente recuou. Ele até pode continuar punindo a Globo, mas, quanto menos ele der a ela, menos poderá dar também às suas "afiliadas", como RedeTV e SBT.

A concessão da Globo

Já de uns tempos para cá, o presidente passou a ameaçar não renovar a concessão da TV globo, que vence dentro de quatro meses.

Em primeiro lugar, não é possível articular um ato (violento) desse porte tão próximo à eleição. Mas, numa eventual reeleição, tudo pode mudar.

Por ora, a ameaça de Bolsonaro não passa de bravata, pois não é o Executivo quem decide renovar ou não uma concessão pública, e sim o Congresso Nacional.

De qualquer forma, o futuro da Globo, seja com qualquer um dos principais concorrentes à Presidência, está cheio de pedras no caminho. Ou montanhas.

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