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Ricardo Feltrin

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Empresário da noite de SP, Oscar Maroni luta contra o câncer

Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

10/06/2022 00h09

Famoso por falar o que pensa, causar polêmicas e ter atraído a ira de políticos, cidadãos e entidades conservadores, o empresário Oscar Maroni está enfrentando a maior de suas lutas, contra um câncer na próstata.

Aos 71 anos, o dono da famosa boate Bahamas Night Club, de São Paulo, deve ser operado ainda este mês, enquanto segue o tratamento.

Ele falou com a coluna, por telefone e e-mails, nos últimos dias:

Danos irreparáveis

Desanimado com os rumos que o país está tomando (e também São Paulo), Oscar Maroni Filho afirma que não só o câncer, mas também outras doenças, que passou a sofrer, são efeitos do estresse e prejuízo que vem sofrendo nos últimos 15 anos.

"Graças ao Kassab e outros políticos", desabafa.

"São danos irreparáveis, perdi minha mulher (câncer), minha saúde, desenvolvi diabetes que chegou a 404 (índice de glicemia; o normal é cerca de 100). Também virei um hipertenso", declara.

"Pergunto como cidadão, empresário e homem que tem um mínimo de dignidade: como devo proceder?", em referência à interferência da prefeitura em seus negócios.

Caça ao 'bruxo'

Durante as últimas décadas, Maroni ficou mais conhecido como um polemista e combatente daqueles que considera hipócritas.

Sua boate foi fechada um sem-número de vezes, especialmente a partir da gestão de Gilberto Kassab na prefeitura (2006-2008)

Pois foram esses que o levaram a ficar preso por cerca de um mês, em 2007, condenado a oito anos por "favorecimento à prostituição" dentro do Bahamas. Ficou um mês atrás das grades e obteve a soltura.

A operação que o colocou na prisão teve apoio do ex-prefeito Kassab, afirma ele.

Dez anos depois, acabou absolvido pelo STJ (Supremo Tribunal de Justiça), que concluiu (resumidamente) que a boate Bahamas é um empreendimento legal, e não importa que seja frequentada por prostitutas. Ninguém negocia e faz sexo na boate (há um anexo para outra de suas empresas, um hotel).

O hotel Oscar´s

Cerca de 20 anos atrás ele construiu outro hotel, o Oscar´s, com 223 quartos e próximo ao Bahamas.

Porém, depois que ocorreu o acidente com o voo 3054 da TAM, matando 187 pessoas, o hotel virou alvo da mídia e das autoridades. Literalmente um "bode expiatório" temporário enquanto eram apuradas as causas do acidente.

A prefeitura e o Ministério Público estadual chegaram a entrar com pedido de demolição do prédio porque, afirmavam (sem qualquer laudo técnico), que sua localização punha "em risco o tráfego aéreo local".

Foi preciso que o Comando da Aeronáutica e o Ministério da Defesa emitissem um laudo técnico que negasse qualquer risco para Congonhas na localização do Oscar´s.

Não adiantou. Com Kassab e seus sucessores, o hotel continuou fechado, mas agora sob outro argumento: foi construído acima do tamanho e altura permitidos pela "lei de zoneamento" na região. O problema é que essa "lei" só foi criada dez anos depois que o hotel foi construído.

"O prejuízo que já tenho por 14 anos do hotel fechado chega a R$ 300 milhões. Estou fechado, mas tenho de pagar R$ 4 milhões de IPTU por ano. Tudo por causa de políticos e politicagens", protesta Maroni, que concorreu a deputado federal em 2018 e obteve mais de 6.200 votos.

"Não serei candidato a nada, mas ninguém vai me calar. Destruíram minha saúde, mas não a minha mente."

Outro lado 1 - Gilberto Kassab

A coluna não conseguiu localizar o ex-prefeito Gilberto Kassab até a publicação deste texto. Se ele se manifestar, o texto será atualizado com sua posição sobre o assunto.

Outro lado 2 - Prefeitura de SP

Procurada para comentar a denúncia de Oscar Maroni, de perseguição por parte do setor de fiscalização, a Prefeitura de São Paulo, por meio de sua Secretaria de Comunicação, emitiu a seguinte nota:

"A Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB), por meio da Subprefeitura Vila Mariana, esclarece no âmbito de sua competência que em 2002, foi autuado o embargo de obra por desacordo ao projeto originalmente aprovado conforme o alvará 2000-26845-00, de 31 de julho de 2000.

Posteriormente, a obra sofreu nova autuação em 2007 devido a mais um aumento de área construída sem aprovação prévia. A obra permanece paralisada desde então e sem ocupação até a presente data.

Para regularização da edificação nos termos da Lei 17.202/19, deverão ser atendidos índices referidos à Lei 13.885/04 e liberação do Comaer (Comando da Aeronáutica).

Em tempo, informamos que a análise e deliberação ao assunto referido é de competência da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL).

A Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) informa que o Alvará de Aprovação e Execução de Edificação Nova emitido pela Prefeitura autorizava a construção de um prédio de 13 andares para o empreendimento citado pela reportagem.

O documento encontra-se cancelado. Assina; Prefeitura de São Paulo."

Réplica - Oscar Maroni

Após ter acesso à nota da prefeitura sobre o Hotel Oscar´s, Maroni enviou mais uma nota:

"O que a prefeitura esta fazendo é o que faz há 14 anos: enrolar com desculpas. Friso que, se você pegar a carta e os laudos (enviados ao prefeito Ricardo Nunes), ali fica bem detalhado que eu preencho as exigências de altura e outros itens. Não sei mais o que fazer."

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