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Ricardo Feltrin

Opinião: Jornalismo da Globo em SP parece Clube do Bolinha

Michelle Barros durante o "Bom Dia São Paulo", da TV Globo - Reprodução/TV Globo
Michelle Barros durante o "Bom Dia São Paulo", da TV Globo Imagem: Reprodução/TV Globo
Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

16/05/2022 00h09

O pedido de demissão da jornalista Michelle Barros, da Globo, na última quinta, só pegou de surpresa mesmo a um ou outro editor.

Alguns dos colegas mais próximos dessa repórter de 42 anos já sabiam que ela estava decepcionada com os rumos de sua carreira na casa, e que havia o desejo de deixá-la. Motivos não faltaram.

Nos 12 anos em que trabalhou na Globo, Michelle fez de tudo: cobriu buraco de rua, tempestades, "cavou" boas pautas, sempre esteve disponível —inclusive quando precisou substituir âncoras às pressas.

Sem falar que sempre foi uma boa comunicadora e tinha grande empatia com o público.

Mas, ano após ano, ela viu todas as chances de ascensão profissional evaporarem.

Nos últimos tempos, sempre que apareceu uma oportunidade —como ancorar, e não só "tapar buraco" em telejornais regionais—, sempre foi preterida. Sempre um homem era escolhido.

Segundo esta coluna apurou, Michelle até tentou no último momento se recolocar em outro departamento da emissora, mas, segundo a direção, não havia lugar vago.

Clube do Bolinha França

Curioso que, nos últimos anos, a Globo tem defendido e tentado aplicar cada vez mais em seus escalões a diversidade (de raça, gênero etc.). No Jornalismo em São Paulo, apesar disso, não se vê muito dessa prática até agora.

Senão vejamos:

No "Hora 1", primeiro jornal da Globo com alcance nacional, quem comanda hoje é Roberto Kovalick, 57 anos. Ele substituiu uma mulher, Monalisa Perrone (hoje na CNN Brasil).

Já o "Bom Dia SP" é ancorado por Rodrigo Bocardi.

A seguir há o vespertino "SP 1", que até abriu a vaga de âncora no final do ano passado. Michelle já cobrira essa vaga várias vezes, na ausência dos "estáveis". Era uma das concorrentes. Pelo menos na cabeça dela.

Sem chance. Para efetivação, foi escolhido outro (bom) repórter, mas homem: Alan Severiano.

No telejornal a seguir, o "Jornal Hoje", havia uma mulher na bancada, Maju Coutinho, mas ela acabou "saída" para o "Fantástico".

A vaga dela foi novamente ocupada por outro homem: César Tralli.

No "SP2", a mesma coisa. A vaga era de Carlos Tramontina, e agora é de José Roberto Burnier.

O "Jornal Nacional" é também simbólico. Já trocou três vezes as âncoras, mas o âncora homem (Bonner) está lá desde 1996.

Para encerrar, há pelo menos um alento feminino: Renata Lo Prete, que há anos comanda o "Jornal da Globo". Só que ela se afastou temporariamente após contrair covid-19.

Quem foi escolhido para substituí-la? Fábio Turci.

Diversidade, pero no mucho

Tudo isso indica, para dizer o mínimo, um desequilíbrio paulista (principal vitrine da TV brasileira) em um dos três chamados pilares de conteúdo da Globo.

Enquanto a dramaturgia e a linha de shows da casa caminham rumo a uma distribuição cada vez mais justa de cargos e papéis, no Jornalismo de SP o que nós vemos lembra até o Clube do Bolinha, no qual menina não entra.

Michelle Barros saiu após 12 anos de bons serviços prestados e —para zero surpresa dos bastidores da Globo— não teve direito ao famoso "textão" de Ali Kamel.

O "textão" é o termo (jocoso) dado dentro da Globo às cartas de despedida dedicadas por Kamel a alguns profissionais. Não é o único. Outros departamentos também têm diretores que eventualmente fazem "textões" de despedida a ex-funcionários.

Outro lado

Procurada pela coluna, a TV Globo, por meio da CGCom, nega que exista machismo ou "clube do Bolinha" em seu jornalismo de SP.

Apesar de a coluna ter deixado claro que estava fazendo um levantamento sobre o jornalismo diário em São Paulo, a emissora optou em argumentar com dados de outras praças, como o Rio, e também incluir programas que nem são totalmente jornalísticos ou muito menos feitos em São Paulo.

Leia a nota:

"Você está com a visão de São Paulo e não incluiu o "Bom Dia Brasil", o "Globo Repórter" e o "Fantástico".

No total são 6 homens e 10 mulheres.

Ainda que tirasse os dois semanais e ficasse apenas com os telejornais diários de rede e locais de RJ e SP, a conta é equilibrada: são 6 apresentadores homens e 6 mulheres.

E mesmo que você contasse apenas TJs de rede e locais de SP, a conta não é esse desequilíbrio todo: 5 homens e 3 mulheres."

Réplica

O "Bom Dia Brasil" é feito no Rio de Janeiro, e não em São Paulo —região abordada. Os demais programas citados são semanais, além de não serem telejornais.

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