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Ricardo Feltrin

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Análise: Por que Globo foi de lucro bilionário a prejuízo milionário

Ricardo Feltrin

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

Colunista do UOL

11/04/2022 00h18

Para quem olha apenas para os números, e desconhece a dinâmica da economia e as peculiaridades de cada empresa, parecem números assombrosos

Em 2010, o Grupo Globo teve um lucro líquido de R$ 2,7 bilhões.

Paulatinamente essa lucratividade foi caindo até chegar a um resultado negativo no ano passado: R$ 174 milhões de prejuízo (veja o resultado ano a ano no final deste texto).

Apenas em dez anos (2010-2020), a queda passou de 98%. Em 2021, chegou ao "patamar" negativo (-106%).

Muitos fatores externos

Vários fatores empurraram o maior grupo de mídia do país para isso.

Instabilidade e crise econômica, mudanças no modus operandi do mundo da publicidade, fuga de assinantes na TV paga (na qual a Globo é a maior produtora de conteúdo), boicote por parte de governos (como Temer e Bolsonaro), e explosão das redes sociais e do streaming são algumas dessas causas.

Para o grupo da família Marinho, porém, era um resultado previsível há anos, desde que a emissora decidiu investir em outros setores e veículos, como seu próprio streaming (Globoplay).

"Os resultados que você aponta estão compatíveis com os desafios da economia, particularmente a partir de 2016, com a evolução e disrupção do mercado de publicidade e com a transformação do modelo de negócios que estamos implementando nos últimos anos. Isso inclui não apenas a mudança dos hábitos do consumo digital, mas suas consequências nos fluxos de receitas da publicidade e da TV paga tradicional", afirma a empresa em nota enviada a esta coluna (leia a íntegra).

Torce para falir? Tá sentado?

Se os números dos últimos balanços da Globo não são positivos, também não são nenhum monstro destruidor ou nem sequer indicativo de "falência" --como desejam sofregamente muitos bolsonaristas.

Como foi publicado ontem na coluna de Guilherme Ravache, no UOL, além de a receita do grupo ter crescido 15% no ano passado, a fortuna dos Marinho continua fermentando feito bolo.

Outro motivo que o grupo aponta para o péssimo resultado do ano passado foi causado pelo atraso ou adiamento de grandes eventos esportivos: só aí houve um prejuízo de meio bilhão de reais, como mostrou no mês passado o site "Notícias da TV".

Fato: No início dos anos 2000 a situação financeira do grupo também ficou tão ou mais delicada que agora.

Era uma época de investimentos bilionários na expansão da TV por assinatura, e a Globo estava à frente de tudo. Também naqueles tempos falava-se em "falência", mas o grupo saiu mais fortalecido (e rico) do que nunca.

A mesma coisa deve estar acontecendo com o serviço Globoplay. Não é um gasto ao léu, como Ravache afirmou em seu texto de ontem: um dia, é possível que o Globoplay valha mais que a própria TV Globo.

Além disso há sociedades do grupo em várias empresas muito valorizadas, inclusive no mercado financeiro.

Ou seja: gasta-se mais hoje, lucra-se menos ou aceita-se que haja até prejuízo. Mas, a companhia parece sempre olhar para o futuro da mídia, do Entretenimento e, principalmente, de seu cofre.

Diferentemente de todas as "rivais" (sic).

Lucro Líquido da Globo Comunicação e Participações S/A (dados confirmados pelo GG)

2010: R$ 2,7 bi

2011: R$ 2,1 bi

2012: R$ 2,9 bi

2013: R$ 2,5 bi

2014: R$ 2,4 bi

2015: R$ 3,1 bi

2016: R$ 1,9 bi

2017: R$ 1,9 bi

2018: R$ 1,2 bi

2019: R$ 752 milhões

2020: R$ 167,8 milhões

2021: - R$ 173,8 milhões

* Colaborou com os cálculos o jornalista José Paulo Kupfer, do UOL.

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