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MV Bill relembra polêmica durante apresentação no Faustão: 'Grave e cômico'

O rapper MV Bill
O rapper MV Bill
Douglas Jacó / Divulgação

Guilherme Lucio da Rocha

De Splash, em São Paulo

30/11/2020 04h00

Marcou a minha carreira e a história da TV.

É assim que o rapper MV Bill resume sua participação no "Domingão do Faustão", da TV Globo, no já distante ano de 2004.

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Para Splash, o cantor disse acreditar que o episódio, bem ou mal, trouxe audiência --o que, naquela época, era muito importante para o programa da Rede Globo.

"Tem uma parada nesse episódio que é o medidor de audiência. Na época, tinha aquela briga entre Gugu e Faustão e a gente estava lá em cima".

Era um período que quase não se via pessoas pretas na TV. Os rappers tinham a imagem de falar errado, de ter um vocabulário curto. Tudo isso pairava sobre minha apresentação: um cara preto, da favela e do rap no Faustão? Fodeu! O que ele vai aprontar?!

O rapper contará sobre essa e outras passagens em um livro de contos. Ele diz que já finalizou sua parte e está em conversa com editoras para lançar o trabalho no primeiro trimestre de 2021.

Entre os causos, Bill diz que falará sobre seu início, a amizade com Chorão e a parceria com o Racionais MCs.

Agora voltando para história no Faustão, o rapper explica que foi convidado ao programa em 2001, mas recusou. "Não vou para cantar só uma música e deixar o telefone de contato".

Após três anos de negociações, ele acordou com a produção que se apresentaria com duas músicas e daria uma entrevista.

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Entre as músicas que MV Bill escolheu estava "Só Deus Pode Me Julgar", do álbum recém-lançado "Declaração de Guerra". Ela tem sete minutos de duração, e lá pelos cinco minutos a letra diz:

Pra quê? Por quê?
Só tem paquita loira
Aqui não tem preta como apresentadora
Novela de escravo, a emissora gosta
Mostra os pretos chibatados pelas costas

Como você pode ter percebido, era uma música com críticas claras à Rede Globo.

Eu tinha a chance de cantar duas músicas na maior vitrine do Brasil! Eu escolhi essa porque falava sobre tudo, mandava o papo reto. Eu enviei para produção do programa, não foi surpresa para ninguém. A música tem sete minutos, mas acho que só ouviram uns três (risos).

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Ao perceber a confusão, Fausto Silva ainda tentou brincar, interrompeu o artista e disse que o trecho cantado era uma rima feita na hora. Mas, nesse caso, não era um "quem sabe faz ao vivo".

E se você pensa que MV Bill nunca mais pisou na Globo por conta desse episódio, está enganado.

Eu saí do palco praticamente sendo convidado para uma próxima apresentação. Na época, o que mais ficou em evidência foram os números, não teve qualquer tipo de mal-estar. Foi uma parada grave e cômica ao mesmo tempo.

E de fato MV Bill voltou ao próprio Faustão, até como convidado da "Dança dos Famosos", e para outros programas da emissora.

O cantor também deixou sua marca no programa "Altas Horas", quando respondeu um questionamento da plateia sobre cotas raciais.

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Tio Bill

Com mais de 20 anos de carreira, MV Bill é um dos maiores nomes do hip-hop nacional. Além da música e da veia de escritor, ele também é apresentador do programa "Hip Hop Brazil", transmitido aos sábados, às 22h, no canal Music Box Brazil.

É um trabalho em que eu tenho a chance de mostrar as novidades da cena, só passo videoclipes de rap nacional. Procuro dar mais visibilidade para galera que está começando, de todos os cantos do país.

Por sua relação com a nova geração, fazendo parcerias com artistas como ADL, 3030 e L7NNON, além de participar de novos projetos como Poesia Acústica e Favela Viva, ele ganhou o apelido de Tio Bill.

Mas ele leva na boa e até curte o carinho dos mais jovens.

É um orgulho, uma honra ter o reconhecimento da nova geração. Tem gente que não gosta de ser chamado de tio, tem essa coisa de ser mais velho, mas eu fico de boa. Não pego pilha e até gosto, acho um sinal de respeito.

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CUFA

Além de rapper, MV Bill é um dos criadores da Central Única das Favelas, a CUFA, junto com o Celso Athayde, que por anos foi seu produtor. A ideia do projeto é fornecer apoio social, cultural e político às favelas em todo o Brasil.

A organização está presente em todos os estados do Brasil e em países como Bolívia, Alemanha, Chile, Hungria, Itália e Estados Unidos.

Desde 2017, Bill se afastou da liderança da instituição, mas segue acompanhando o trabalho da CUFA, principalmente em tempos de pandemia.

A CUFA deu um show, ajudou bastante gente com os 'Mães da Favela'. Eu bato palma. Só não acho que eles devem substituir o poder público. Quero que a CUFA não seja tão necessária, porque será um sinal que os políticos estão fazendo o que deveriam fazer.