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O momento em que Paul McCartney percebeu o fim dos Beatles

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Pedro Antunes

Colunista do UOL

30/11/2021 04h00Atualizada em 30/11/2021 15h41

Naquela sexta-feira, 10 de janeiro de 1969, antes da hora do almoço, a câmera quase não consegue focar em George Harrison. Os quatro Beatles ensaiavam no estúdio de cinema Twickenham" com a ideia de criar um especial para TV e, principalmente, um álbum tocado ao vivo, sem truques de estúdio. O nome do projeto, "Get Back", vinha da proposta de "voltar às origens", para uma época mais simples e na qual o grupo chegou a gravar um álbum em um só dia (no caso, era "Please Please Me", lançado em 1963).

Aquele dia marcava o final da primeira semana de novos encontros diários entre a banda e a relação musical de Paul McCartney e John Lennon desenferrujava depois da criação do disco The Beatles, também conhecido como "White Album" (ou "Álbum Branco", no Brasil), todo erguido com sessões de cada integrante separadamente.

No dia 1º de janeiro, Harrison havia voltado para Londres (a vida de rockstar não é fácil, certo?) e estava em outra vibe. O guitarrista havia descoberto um novo sentido para a vida na Índia e também criara uma turminha musical própria, com Eric Clapton e Bob Dylan, com quem ele havia composto recentemente. Ou seja, ele não era o menino "tímido" de outros tempos.

Sentado próximo da bateria, sobre uma almofada azul de veludo, George Harrison tentou estabelecer uma nova conexão entre os outros Beatles ao longo destes cinco dias iniciais e não conseguiu.

Na saída para o almoço, ele calmamente anunciou que deixaria o grupo. "Quando?", perguntam. "Agora". "Vejo vocês nos clubes", despediu-se

No seu diário, Harrison descreveu aquele 10 de janeiro desta forma:

"Levantei. Fui para Twickenham. Ensaiei até a hora do almoço. Deixei os Beatles e fui para casa."

Mas mês de janeiro de 1969 ainda não estava no fim, como é possível assistir em "The Beatles: Get Back", o novo projeto de Peter Jackson, o diretor de "O Senhor dos Aneis" e "O Hobbit", que narra justamente este período da vida dos Beatles.

O cineasta se debruçou sobre as 56 horas de imagens inéditas filmadas por Michael Lindsay-Hogg, naquele que deveria ser conhecido como o "Big Brother da Maior Banda de Rock de Todos os Tempos".

Acompanhando ativamente o projeto, Lindsay-Hogg chegou a lançar uma montagem encurtada destas imagens, que levou o nome de "Let It Be", o mesmo título do álbum resultado destas sessões de ensaio.

O retrato do vídeo de Lindsay-Hog é mais tenso, melancólico e aponta alguns dedos para os motivos que levaram os Beatles ao fim, como a presença de Yoko Ono, a companheira de John Lennon.

O que Peter Jackson faz é apresentar uma versão parruda, de 470 minutos, divididos em três episódios publicados pelo Disney+ na sexta, sábado e domingo passados, deste momento da existência dos Beatles, quando o quarteto estava prestes a acabar.

E, mais dolorosamente e principalmente, quando Paul McCartney percebe o fim.

Claro, o fã da banda sabe como tudo terminou - brigas sobre o empresariamento do grupo, a disputa de egos e a intensidade da convivência nos anos anteriores -, mas o que Peter Jackson faz é nos dar o detalhe, a fagulha do fim.

E ela começa com George Harrison, isolado, no seu cantinho. Na sexta-feira após a saída do colega, Paul, John, Ringo e Yoko fazem uma sessão de ensaio visceral, com gritos e uivos. Havia muita energia presa ali que precisava sair de alguma forma.

Se Lindsay-Hog fosse o Boninho, o chefão do BBB, esse problema estaria resolvido. Boninho é mestre em criar situações em que os atritos fiquem mais evidentes. Assim, os silêncios poderiam se tornar conversas. Quem sabe, o destino do quarteto fosse outro caso eles realmente conversassem sobre o que pensavam.

Ainda assim, "Get Back" é uma ótima (e também longa demais) forma de se aventurar pelo mundo dos Beatles.

Quem não curte a banda, não conhece ou ouviu uma ou outra canção, pode ter ali a chance de conhecê-los com mais profundidade do que qualquer outro Beatlemaníaco (que tem coragem de usar esse apelido horrendo) até então.

Diante do ineditismo das imagens, cenas e sub-tramas, o conhecedor do grupo parte no início desta jornada de um ponto muito similar àquele que chegou agora na obra dos Beatles.

Tudo começa com um "bom dia", em uma manhã fria de janeiro e acaba... Bom, não vou dizer exatamente como a série de Jackson encerra. Mas a jornada é contada com começo, meio e fim. Tudo rico em cores e risadas.

Risos, sim. Os Beatles definhavam enquanto instituição musical, mas cada um dos quatro integrantes da banda visualizavam também uma nova década de vida, um momento novo e pessoalmente radiante. A vida pré-30 anos é cheia de otimismo, mesmo.

Arrepia de testemunhar a leveza de Ringo ou o sorriso que George exibe ao ser realmente ouvido. A dinâmica entre Lennon e McCartney é igualmente tensa e leve, conforme muda o humor de cada um deles. Não fica clara uma disputa por poder, como se imaginava anteriormente.

Aliás, o próprio Paul McCartney afirma entender que não adianta separar John e Yoko. Eles estariam juntos até o fim da vida do ex-beatle, em 8 de dezembro de 1980, afinal, como bem previu McCartney.

Há quem diga que "Get Back" é um documentário de rock. Para mim, é assistir a um reality show, é estar o mais próximo do que qualquer um da nossa geração jamais sonhou em estar da maior banda de todos os tempos - mesmo que você discorde desta definição quadrada e, possivelmente, datada.

É quase possível sentir o cheiro de chá recém-preparado e dos cigarros fumados à exaustão nos estúdios (eu, como ex-fumante, precisei mascar chicletes e beber muito líquido para dar conta dos desejos tabagísticos).

Nada dará mais a sensação de que você é um Beatle do que esta imersão proposta por Jackson. Não a sensação de ser um dos quatro, nem nos postos já ocupados de 5º Beatle, 6º Beatle e 7º Beatle, mas oferece uma chance para que cada um de nós tenha a sensação ser o 8º Beatle, o que já é ótimo.

A sensação se intensifica no momento em que Paul McCartney vê o fim, logo no 9º minuto do segundo episódio da série.

Recapitulando, no episódio anterior, após se sentir ignorado na primeira semana de ensaios, George Harrison avisa que deixaria a banda. No domingo, dia 12 de janeiro de 1969, os integrantes se encontraram na casa de Ringo e, segundo conta o baterista, as coisas até funcionaram bem no começo, mas o final da reunião foi desastrosa. George se despediu com um simples "até breve".

E assim, quando uma nova semana têm início em Twickenham, pouco se sabe sobre quem aparecerá no estúdio. E o primeiro a surgir é Ringo, cuja aparição acalma a tensão silenciosa ali. Pouco depois, Paul e a companheira dele Linda surgem também.

Rodeado por equipe técnica e Ringo, Paul é questionado sobre o futuro. Se pressionasse John, teria ele ao seu lado para seguir com os Beatles?

Paul sabe que não. Diz, então, que restariam apenas dois. Ele e Ringo.

O silêncio que vem a seguir talvez não dure um minuto, mas é como se abrisse um buraco na linha temporal e cada segundo se arrastasse por uma eternidade. A câmera não abandona o rosto de McCartney. Os olhos dele enchem-se de lágrimas, enquanto fica claro que ele perde o poder de fala, está imerso em pensamentos.

Ali, meus amigos, os Beatles chegaram ao fim - o que veio depois, o show no telhado da Apple, o álbum "Abbey Road", tudo foi longa e tortuosa despedida.

Paul McCartney soube naquele instante. E eu, vivendo meu momento de "8º Beatle" entendi, também. Doeu em mim como se eu fosse um Beatle.

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