Topo

Página Cinco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Livro reúne HQs baseadas em contos de Gabo, Borges, Onetti e Juan Rulfo

Cena de Versões, de Alberto Breccia, Juan Sasturain e Carlos Trillo - Reprodução
Cena de Versões, de Alberto Breccia, Juan Sasturain e Carlos Trillo Imagem: Reprodução

Rodrigo Casarin

Colunista do UOL

22/03/2023 04h00

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido

Causa grande impacto a cor vermelha que aparece na derradeira história de "Versões" e rompe com o preto e branco absoluto em todas as outras narrativas. É como se o sangue manchasse não apenas aquela trama específica, mas enfim transbordasse de contos marcados por violências de diferentes matizes. Se a obra é um admirável apanhado da arte latino-americana, os múltiplos achaques que se espalham e, de alguma forma, conectam o continente também estão ali.

A seleção presente na HQ recém-publicada pela Veneta com tradução de Marcelo Barbão espanta por reunir tantos artistas incontornáveis num volume tão pequeno. Como o nome indica, a obra traz versões em quadrinhos de contos de seis dos maiores escritores da literatura do continente. São peças bem concentradas, às vezes breves até demais, que buscam extrair o que há de essencial em cada enredo.

Estão ali releituras de "O Fim", do argentino Jorge Luis Borges, de "Lembra-se", do mexicano Juan Rulfo, de "Semelhante à Noite", do cubano Alejo Carpentier, e de "A Prodigiosa Tarde de Baltazar", do colombiano Gabriel García Márquez, além do olhar para contos de dois uruguaios: Juan Carlos Onetti com "As Gêmeas" e Horacio Quiroga com "A Galinha Degolada". Guimarães Rosa ficou de fora do volume por conta de problemas com direitos autorais, informa no posfácio Laura Janina Hosiasson, professora de literatura hispano-americana. Uma pena.

Versões, de Alberto Breccia, Juan Sasturain e Carlos Trillo - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Feitas entre o final dos anos 1970 e o começo dos anos 1980, quem encabeça as versões é Alberto Breccia, nome dos mais importantes da história dos quadrinhos no continente, dono de traços pesados, soturnos, misteriosos. Dentre seus trabalhos mais famosos estão títulos como "O Eternauta 1969" e "Che", recentemente publicados no Brasil numa boa leva de edições de sua obra. Breccia é argentino, bem como a dupla que se alterna nos roteiros de "Versões": Juan Sasturain e Carlos Trillo, este um dos autores do ótimo "A Herança do Coronel" (Comix Zone).

Apesar de criadas por autores de lugares diferentes, com estilos distintos e trazerem narrativas que vão de uma briga nos pampas a uma guerra mítica, passando por desencontros e arranca rabos cotidianos, há certas questões que acabam por conectar as tramas.

Amálgama de parte do que há de melhor na literatura e nos quadrinhos deste canto do mundo, "Versões" é um livro marcado pela melancolia, pela aspereza, pela solidão íntima que parece se impor mesmo quando os personagens estão acompanhados. Alguma malandragem também faz parte, bem como os laços que nos atam a questões do passado jamais resolvidas, porcamente jogadas para debaixo do tapete.

Assine a newsletter da Página Cinco no Substack.

Você pode me acompanhar também pelas redes sociais: Twitter, Instagram, YouTube e Spotify.