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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um homem medíocre e a nostalgia do tempo dos militares

Cena de A Herança do Coronel, HQ de Carlos Trillo e Lucas Varela - Reprodução
Cena de A Herança do Coronel, HQ de Carlos Trillo e Lucas Varela Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin

Colunista do UOL

20/06/2022 10h01

Elvio Gustavino é um homem de meia idade medíocre, que leva uma vida medíocre. No trabalho, num escritório, é tratado como o medíocre que é. Em casa, não dá conta de cuidar de sua mãe, uma senhora prostrada numa cadeira de rodas que passa fome enquanto sonha com um bife à milanesa com batatas fritas. A espelunca imunda onde vive soa como um reflexo da alma de Elvio.

O homem medíocre sofre com a realidade na qual está metido. A Argentina da redemocratização não lhe faz bem, abala os seus orgulhos torpes. Elvio é filho de Aaron Gustavino, coronel apontado como um dos maiores carrascos da ditadura militar responsável por massacrar nossos vizinhos entre 1976 e 1983.

Aaron era um homem perverso. O abuso sexual fazia parte de seu leque de violências utilizadas nas sessões de tortura. Bonecas e máscaras estavam entre os objetos que tinha em mãos para treinar a sua podridão ou para satisfazer seus fetiches enquanto trucidava mulheres vistas pelos militares como inimigas da nação.

O bruto era motivo de orgulho naquele lar cristão. Na segunda metade dos anos 1970, Elvio e a mãe que agora definha tinham certeza de que tanto o chefe da família com as mãos ensanguentadas quanto eles, cúmplices, cumpriam o dever pátrio que todas as pessoas de reputação ilibada deveriam cumprir. Cidadãos de bem costumam gostar de assassinos fardados e de torturadores, descobrimos há alguns anos.

A Herança do Coronel, HQ de Carlos Trillo e Lucas Varela - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Saudoso dos tempos de coturnos esmagando civis, pomposo pelo passado do pai agora morto e inconscientemente perturbado pelo que viu na infância, o medíocre trabalha para conseguir juntar dinheiro e enfim comprar Luisita, boneca de vitrine que há tempos namora. É óbvia a atração sexual de Elvio pelo brinquedo vendido por um judeu visto como avarento, num esteriótipo que poderia ser evitado.

A história, uma ficção, mostra os ecos da ditadura Argentina na sociedade do país após a redemocratização. Está em "A Herança do Coronel", HQ com arte de Lucas Varella e roteiro de Carlos Trillo, um gigante dos quadrinhos hermanos. A obra chegou há pouco aqui no Brasil pela Comix Zone!, com tradução de Fernando Paz.

Aaron, Elvio e a família de bem apoiadora e saudosista da tortura saíram da cabeça de Trillo, mas não é difícil encontrar correlatos caminhando pelas nossas ruas. Quadrinho sobre a herança podre do período de militares no poder e os refluxos ditatoriais numa sociedade democrática - de democracia falha, é verdade -, olhamos para o saudosismo e para as perturbações de Elvio e encontramos no personagem os mesmos traços de gente com quem cruzamos pelas esquinas.

Covarde, Elvio, o medíocre, se assusta e se encolhe quando confrontado com firmeza pelo passado de sua família. É bonito o final de "A Herança do Coronel", desfecho que parece ter mais sentido num país onde militares foram julgados e punidos por aquilo que fizeram quando tomaram o Estado para si. Precisávamos ter seguido o mesmo caminho, talvez isso tivesse nos poupado de vermos Elvios apoiando fardados a novamente infestar a política e ser parte indissociável de um novo governo da morte.

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