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REPORTAGEM

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Censura e apagamento histórico marcam novo livro da coleção Vaga-Lume

Livros da Coleção Vaga-Lume - Homoliteratus
Livros da Coleção Vaga-Lume Imagem: Homoliteratus
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

27/09/2021 04h00

"Por que começamos a contar nosso tempo no ano um?"

A dúvida está logo nas primeiras linhas de "Os Marcianos", mais recente título da Série Vaga-Lume (Ática). Escrito por Luiz Antonio Aguiar, o livro é a segunda novidade da coleção em aproximadamente um ano. No final de 2020, o lançamento de "Ponha-se No Seu Lugar", estreia de Ana Pacheco na literatura juvenil, deu fim ao hiato de mais de dez anos sem que a Vaga-Lume emitisse sinal inédito de luz. Por enquanto, não há previsão para que outros livros saiam pela série.

Criada no começo dos anos 1970, a Vaga-Lume se transformou num enorme sucesso de público. Seus cento e tantos títulos venderam, até aqui, mais de 8 milhões de exemplares e marcaram a vida de uma quantidade inestimável de leitores. É nítido como qualquer menção à coleção mexe com as melhores memórias afetivas de muita gente - indício é o mar de saudosismo que rolou certa vez lá no Twitter, como vocês podem ver abaixo.

"O Escaravelho do Diabo", de Lúcia Machado de Almeida, "O Mistério do Cinco Estrelas", de Marcos Rey, "A Ilha Perdida", de Maria José Dupré, "A Turma da Rua Quinze", de Marçal Aquino, e "Meninos Sem Pátria", de Luiz Puntel, são alguns dos títulos que costumam vir à mente dos leitores quando a coleção é mencionada. Difícil dizer se novidades terão o mesmo sucesso desses trabalhos, mas a aposta é válida.

Ficção científica que dialoga com títulos como "As Crônicas Marcianas", de Ray Bradbury, em "Os Marcianos" o leitor encontra uma narrativa futurista ambientada após a colonização de Marte. É no planeta vermelho que os personagens vivem sob uma rigorosa cartilha que impõe um olhar para o presente e para o futuro, enquanto busca apagar o passado que existiu na Terra. Típico dos livros da série, alguns jovens desafiam as regras impostas e, por meio de pesquisas históricas e arqueológicas, descobrem verdades ocultadas.

Na obra, Aguiar passa por temas como censura e reclusão causada pela tecnologia. Há também o questionamento da forma como quem detém o poder lida com o conhecimento histórico. "Em 'Os Marcianos', há uma história oficial e a história que é descoberta pela galera aventureira, curiosa, 'arqueologicamente intrometida'. E essa descoberta, como sempre, traz a liberdade!", diz o escritor numa entrevista que acompanha o livro.

Mestre em Literatura, Aguiar é autor de "Confidências de um Pai Pedindo Arrego" (FTD), com o qual foi um dos vencedores do Jabuti de livro juvenil em 1994. Em 2013, ficou com o segundo lugar da mesma categoria com "Os Anjos Contam Histórias" (Melhoramentos). Também são deles os roteiros para adaptações em quadrinhos de clássicos como "O Alienista", de Machado de Assis, e "Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto.

Leia um trecho de "Os Marcianos":

Os Marcianos - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Por que começamos a contar nosso tempo no ano um?

Os olhares da turma inteira se voltaram para Zás. Alguns colegas viraram-se para ele de supetão, como se tivessem levado um susto. Outros, de canto de olho, como se não quisessem ser percebidos.

O professor examinou Zás por alguns instantes. Pela média de idade da turma, devia ter uns quinze anos. "A garotada está se desenvolvendo cada vez mais depressa!", pensou, enquanto decidia o que iria responder. E como.

Ficava satisfeito de continuar sendo indagado sobre o assunto, ano após ano. Sentia voltar a antiga motivação para dar aulas toda vez que um dos estudantes, com interrogações brilhando nos olhos, tomava coragem para levantar a mão e interrompê-lo.

No entanto, tinha de retornar ao tema programado para aquele dia.

O nome do professor era Marco Antônio, mas todos o chamavam de professor Marola. Ele até gostava, apesar de saber que a maior parte não tinha a menor ideia do que seria uma marola. Nem ele nem ninguém que ele conhecia poderia já ter visto o mar. Óbvio que não. Foram palavras que permaneceram, sabe-se lá por que, mas que pertenciam... ao outro mundo.

É quando começa a nossa História, César... — respondeu, finalmente. Essa era a resposta recomendada pelo Manual. — Foi quando ocorreu o desastre da queda da astronave Hipólita, e os sobreviventes se tornaram os Pioneiros. Foi o início da Colônia.

Mas... e daí?

Marola ficou calado, com os olhos fixos em Zás. Era também o que prescrevia o Manual. Responder somente o que fosse perguntado. Não estender as questões... O Manual recomendava que se esperasse para ver até onde iria o aluno e qual seria sua próxima dúvida. Se ainda houvesse alguma.

"Maldito Manual", pensou Marola.

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