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Leonardo Rodrigues

REPORTAGEM

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Adele está colapsando a indústria de disco de vinil, mas a culpa não é dela

A cantora Adele, plena com tanto sucesso -
A cantora Adele, plena com tanto sucesso
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Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

02/12/2021 04h00

Lançado no último dia 19 de novembro, o novo disco da cantora Adele criou uma avalanche tão violenta na indústria da música, especialmente na de discos de vinil, que, abarrotadas, fábricas foram obrigadas a atrasar e até paralisar suas produções. Por causa disso, gigantes como Taylor Swift, Elton John e Coldplay tiveram pela primeira vez de se virar —nos "30"— para ter seus LPs prensados.

Para artistas independentes, o cenário criado em parte pela inglesa não poderia ser mais desolador. Encomendar um vinil virou uma aventura dispendiosa, um exercício de paciência que chega a levar um ano de espera em filas intermináveis. Isso se o pedido for aceito pela fábrica.

Estaríamos portanto vivenciando a "bolha" dos discos de vinil? O ocaso de um mercado inflado que está prestes a estourar levando todos à falência? Não, não é para tanto. Mas o momento preocupa.

Segundo a revista Variety, a Sony Music requisitou inéditas —para nossos tempos— 500 mil cópias duplas para a primeira tiragem de "30", álbum que precisou ser concluído com mais de seis meses de antecedência. Era a única forma de lançá-lo simultaneamente no vinil e streaming. O atraso já estava previsto em cronograma.

É fato. Após uma década e meia de bonança, o formato passa por uma curiosa crise. As pessoas passaram a consumi-lo tanto que a indústria mundial e seu maquinário simplesmente não estão dando mais conta de tanta demanda.

O novo álbum da cantora Adele, "30" - Tolga Akmen/AFP - Tolga Akmen/AFP
Imagem: Tolga Akmen/AFP

Mas sejamos justos aqui: a origem do problema não tem nada a ver com Adele

Se há um vilão, somos nós, o consumidor. Fizemos a procura por discos, que já era crescente no pré-pandemia, explodir no último ano. Hoje, segundo levantamento da revista Billboard, a capacidade de todas as fábricas do mundo é de produzir cerca de 160 milhões de cópias por ano, mas a demanda do mercado já é superior ao dobro disso. A conta não fecha.

Para piorar, há ainda falta de insumos em fábricas desde que um incêndio dizimou no ano passado a Apollo Masters, uma das duas únicas fornecedoras de matrizes de discos do mundo. Resultado: caos, preços altos e prazos de entrega a perder de vista.

Segundo analistas, a solução para esse impasse orbita dois pontos. Primeiro, é preciso investir maciçamente na capacidade produtiva e tecnológica das fábricas. Segundo, é preciso mudar a maneira de monetizar música na internet, que não é tão vantajosa como alguns imaginam. Com covid e shows escassos, a mídia física virou uma boia financeira para músicos. Uma boia furada.

E no Brasil?

Se você imagina que por aqui a situação está pior, acertou. Nossas duas principais fábricas de discos, a fluminense Polysom e a paulista Vinil Brasil, tiveram de interromper atividades e suspender encomendas este ano devido a alta demanda.

E elas nem precisaram cogitar a fabricação do novo disco de Adele, já que o aumento de custos tributários já havia inviabilizado a prensagem de discos internacionais há alguns anos, explica à coluna o consultor e fundador da Polysom, João Augusto.

João Augusto, da Polysom - Folhapress - Folhapress
João Augusto, da Polysom
Imagem: Folhapress

Ele explica que, como o Brasil acompanha a tendência dos mercados norte-americano e europeu, ainda que em outra escala, a procura também cresceu exponencialmente na pandemia. Triplicou. Isso estendeu o prazo de encomendas em até um ano. Antes, discos eram entregues entre 60 e 90 dias.

"O fenômeno é mundial. Quando acreditávamos que a pandemia iria acabar com o nosso negócio, ele simplesmente explodiu de tal forma que ninguém estava preparado. Mas a produção já estava muito acelerada já antes da covid", afirma Augusto.

Outros agravantes segundo empresários: a desvalorização do real e a gasolina nas alturas —o material do vinil também é derivado do petróleo— pressionaram gastos de importação. Fora a crônica ausência de mão de obra especializada no país, que também atrapalha e muito.

"Hoje todos estão lidando com gestão da crise. Nossos planos são normalizar a produção. Já evoluímos e passamos a produzir 50% do normal. Só no ano que vem poderemos avaliar melhor e quem sabe fazer investimentos", conta Michel Nath, dono da Vinil Brasil.

Quando essa crise de demanda do vinil vai cessar? Ninguém sabe ao certo. Mas a aposta é que o jogo vire primeiro lá fora com o reequilíbrio da cadeia produtiva.

Estamos longe. Só mudando profundamente a estruturas social/econômica conseguiremos competir com a realidade dos EUA e Europa. A política do Brasil só vem atrapalhando nossa vida. Lá fora, uma pessoa pode escolher se gasta dinheiro com um disco ou um lanche. Aqui, com desemprego, precisamos escolher entre pagar conta de luz e ou comprar o disco. Tudo é mais difícil
Michel Nath

Enquanto isso, muitos artistas estão desistindo de pegar carona na "boom" do vinil e produzir LPs. E os pequenos, sem surpresa, são os que mais sofrem. Um deles é a banda mineira independente Dada Hotel, que, após cinco anos de produção, lançou seu álbum de estreia em setembro, mas só em streaming e CD. Planos de vinil ficaram para depois.

"Cotei preços nas fábricas em janeiro e, em maio, acionei de novo a empresa escolhida. Fui avisado de que haviam interrompido o atendimento. A outra fábrica não parou, mas pediu quatro meses para começar a prensagem. Juntou isso ao preço da tiragem, que já era maior do que a produção do disco, e acabamos desistindo", lamenta o vocalista Fabio Walter.

A realidade dele é a de milhares de músicos no Brasil. Produzir arte nunca foi fácil por aqui. E agora piorou. Sugestão singela deste colunista a quem anseia mudar esse cenário: pense muito bem antes de digitar o número na urna das próximas eleições. E nas subsequentes. E nas que vierem depois. Faz e sempre fez toda a diferença. Não é preciso ser colecionador para entender.

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E até o próxima datilografada!