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Leonardo Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pirataria é crime; mas dá para condenar quem compra disco de vinil falso?

Vinil pirata de "Louco por Você", de Roberto Carlos - Reprodução
Vinil pirata de "Louco por Você", de Roberto Carlos
Imagem: Reprodução
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Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues é jornalista do UOL, com passagem pela Folha de S.Paulo. Também é colecionador de LPs e luta para que, um dia, toca-disco deixe de ser confundido com vitrola.

Colunista do UOL

17/11/2021 04h00

Uma reportagem publicada pelo jornal O Globo esta semana, com o título "Vinil pirata: Cópias grosseiras de LPs raros são vendidas como originais e revoltam colecionadores", causou burburinho na comunidade colecionista.

O texto assinado por Mateus Campos revela a existência de uma rede de pirataria que já inunda o mercado brasileiro com cópias grosseiras de discos. Elas são feitas não com vinil, mas com um plástico esverdeado e mais barato, do tipo PETG, um copoliéster derivado do PET, o mesmo das garrafas.

Esses discos apresentam defeitos de fabricação, som inferior ao original e, segundo a reportagem, vem enganando e revoltando colecionadores. Produzidos com aparelhos caseiros, são vendidos como "importados" por mais de R$ 300, R$ 400.

A maior parte desses álbuns são de artistas brasileiros, com título raros e alguns mais recentes que nunca receberam lançamento no formato. Você já se deparou com alguns por aí? O que pensa a respeito disso?

Antes de emitir minha opinião, deixo aqui duas informações que a ótima reportagem não mencionou

1) A pirataria de vinil não é algo novo nem chegou agora no Brasil. Ao contrário. Lá fora, é uma realidade há décadas.

Selos independentes dos EUA, Europa e Japão já criaram tsunamis de relançamentos não autorizados de LPs fora de catálogo. Artistas brasileiros da velha guarda da MPB, tão procurados no exterior, conhecem bem essa história. E talvez você também.

Você tem ou já viu um LP nacional raro, cujo selo indica uma reedição importada? Um "Paêbirú", de Zé Ramalho e Lula Cortes, um "Tim Maia Racional" ou a maravilhosa estreia dos Mutantes? Pois a chance de serem piratas é considerável.

Uma dica a quem tem essa dúvida: cheque o número de catálogo e bata o código com os que constam na lista de versões do álbum em questão presente no site Discogs. Se surgir a palavra "unofficial" ou se o código nem mesmo estiver ali, nós já sabemos...

2) Nem todo colecionador se revolta ao adquirir ao se dar conta que adquiriu um pirata.

Leitores da reportagem de O Globo correm o risco de inferir que todo disco pirata é mambembe, produzido com máquinas de corte artesanais, sem qualquer cuidado com masterização e um consequente som ruim. Mas não é bem assim.

Especialmente lá fora, cópias podem ser confeccionadas com extrema qualidade. Com capa, selo e arte gráfica perfeitos. Coisa que só discípulos de Sherlock Holmes seriam capazes de denunciar.

E há colecionadores que não só não se sentem enganados como até se orgulham de possuir tais falsificações, mesmo depois de as desvendarem. Há quem as enxerguem como raridades, fazendo seu valor subir exponencialmente no mercado.

Edição japonesa picture disc (pirata) do primeiro álbum de David Bowie - Reprodução - Reprodução
Edição japonesa picture disc (pirata) do primeiro álbum de David Bowie
Imagem: Reprodução

O colunista está defendendo a pirataria então?

Nada disso. Pirataria é crime no Brasil, com pena que pode chegar a quatro anos de reclusão e multa. Seu comércio é uma prática danosa à economia e ao sustento de milhares de profissionais envolvidos direta e indiretamente na cadeia produtiva. Jamais defenderia quem as produz.

Mas, cá entre nós, nunca foi difícil entender quem opta por adquirir um disco pirata. Especialmente quando a motivação é econômica. É bom lembrar que existem colecionadores das mais variadas faixas de renda.

A legislação também proíbe a compra, mas você pagaria R$ 5.000 para ter um raríssimo "Louco por Você", de Roberto Carlos, que foi retirado das lojas pelo artista e jamais relançado, sendo que é possível obter uma cópia dele por R$ 300? É um dilema para alguns.

Eu não consumo piratas, mas a inflação do vinil e o momento tenebroso pelo qual passa a economia brasileira já não seriam motivos suficientes para não condenar moralmente quem tem no "piratão" a única possibilidade de acessar um vinil colecionável?

Talvez a questão mais importante seja menos a pirataria em si e mais o que permitiu que ela existisse. E resolver esse gravíssimo problema passa necessariamente pelos debates social e político. E por suas inevitáveis consequências.

Essa é a minha opinião. E qual é a sua? A compartilhe nos comentários ou mande uma mensagem para mim no Instagram (@hrleo) ou Twitter (@hrleo_). Quer ler mais textos do colunista? Clique aqui.

E até o próxima datilografada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL