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Guilherme Ravache

REPORTAGEM

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Por que o sucesso Minha Mãe é uma Peça não aconteceria no governo Bolsonaro

 Minha Mãe é uma Peça, com Paulo Gustavo, hoje não existiria por falta de políticas para o setor - Reprodução / Internet
Minha Mãe é uma Peça, com Paulo Gustavo, hoje não existiria por falta de políticas para o setor Imagem: Reprodução / Internet
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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

23/01/2022 04h00

Resumo da notícia

  • As empresas de streaming devem investir ao redor do mundo mais de R$ 1,3 trilhão em conteúdo em 2022, mas Brasil ainda ignora potencial do setor
  • Segundo produtores, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) sofreu um apagão e deixou a indústria no limbo desde o início do atual governo
  • O crescimento do streaming no país trouxe novos desafios para o setor, como a disparada dos custos de produção, que inflacionaram o mercado
  • Hoje faltam profissionais, infraestrutura e carência de estúdios é problema crescente; volume de produções poderia ser até quatro vezes maior
  • Debate sobre cotas de produção nacional no streaming e o modelo de propriedade das obras audiovisuais é preocupação do setor
  • Ancine diz ter iniciado novo estudo e que 10% das obras disponíveis em streaming têm participação brasileira

Dificilmente você encontrará alguém que não ache importante gerar empregos. Mas na prática, o que acontece na indústria audiovisual brasileira é a sistemática eliminação de milhares de postos de trabalho e a sucessiva destruição de valor de um dos setores que mais cresce, gera empregos, impostos e exportações no mundo.

"Hoje, um filme como Minha Mãe é uma Peça não existiria", diz Iafa Britz, produtora da comédia com o ator Paulo Gustavo que em suas três edições levou mais de 27 milhões de brasileiros aos cinemas e bateu recordes de público. "Ninguém sabia quem era o Paulo Gustavo. Ninguém acreditava em um filme com um homem vestido de mulher. Minha Mãe é uma Peça Só aconteceu por causa dos incentivos", afirma. Atualmente, produzir a obra para o streaming seria difícil, já que as empresas seguem "modelos rígidos de conteúdo" e não querem arriscar.

Segundo Iafa, há mais de 20 anos atuando no setor, produzir conteúdo no Brasil nunca foi uma tarefa fácil, mas desde o início do governo Bolsonaro se tornou uma tarefa quase impossível. "Vivemos em um limbo. Há uma crise institucional na Ancine. É essencial que o país comece a pensar em uma política para o audiovisual. Não podemos abrir mão de algo que foi construído pela sociedade".

Como Paulo Gustavo deu lucro ao governo

Minha Mãe é uma Peça faz parte de uma onda de produções nacionais que despontaram nas últimas duas décadas e acumularam lucros e prêmios. Em boa parte, estas obras são resultado de medidas dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula nos anos 2000.

Em 2001 uma lei implementou a cota de tela, que obrigou as exibidoras brasileiras a incluírem obras nacionais em sua programação nos cinemas. Em 2011, veio a nova Lei da TV a cabo, que passou a exigir produções nacionais na TV fechada.

Com a necessidade de produzir obras nacionais, mesmo um filme com Paulo Gustavo, um ator de sucesso no teatro, mas ainda pouco conhecido do grande público, passou a fazer sentido diante da crescente demanda.

Minha Mãe é uma Peça ainda desmistifica a ideia de que filme no Brasil existe apenas para deixar os produtores das obras mais ricos. "O primeiro Minha Mãe é uma Peça foi feito com incentivo, mas retornamos todo o dinheiro ao fundo setorial. O segundo foi um misto de incentivo e verba privada. O terceiro, sem incentivo", lembra Iafa.

Iafa diz que nem todas as obras precisam ter o lucro como finalidade. "Temos responsabilidades sociais e a necessidade de encontrar novos talentos e buscar diversidade". Mas ela destaca que quando usados de maneira eficiente, os incentivos não apenas viabilizam novas produções, mas permitem criar um sistema sustentável para o audiovisual.

Chegada do streaming mudou prioridades

Viabilizar o audiovisual brasileiro é bem mais que um capricho intelectual. Uma produtora de grande porte como a Conspiração, que em 2021 produziu sete obras de ficção e nove de não ficção, gera mais de 10 mil empregos diretos e indiretos por ano. Do fornecedor de alimentos nas gravações, aos motoristas, eletricistas, seguranças e toda sorte de profissionais no set, é surpreendente a quantidade de pessoas empregadas nos filmes e séries. As empresas ainda pagam milhões em impostos e exportam conteúdo para o mundo inteiro.

O próximo ano deverá registrar o maior investimento da história em produções para serviços de streaming no mundo. Lideradas pela Netflix, as empresas do setor devem investir juntas mais de R$ 1,3 trilhão em conteúdo, um aumento de 14% em relação a 2021, de acordo com a Ampere Analysis.

A indústria cultural tem alto valor agregado, produz propriedade intelectual e gera receitas recorrentes por anos. Escrava Isaura, de 1976, além de popularizar as novelas brasileiras no exterior, dá lucro para a Globo há décadas.

Se por um lado o sucesso da Conspiração torna óbvio o valor gerado pela indústria audiovisual, surge a questão: se a Conspiração produz tantas obras, precisa de incentivos? Mas observar a evolução das produções da Conspiração é de certo modo observar como as políticas audiovisuais determinam os rumos do setor.

Como os incentivos moldam o mercado

A Conspiração começou em 1991 focando em publicidade e videoclipes. Eram os tempos da MTV, que chegou ao país em 1990. A TV estava no auge. Em 2005, quando o cinema voltou a ter importância comercial, a Conspiração lançou Dois Filhos de Francisco. Com a chegada da cota de TV a cabo, a produtora entrou com força no segmento de séries. Produziu Mandrake, primeira série da HBO feita no país, e lançou fenômenos como Detetives do Prédio Azul (D.P.A.), no ar no Gloob desde 2012, com 15 temporadas lançadas e três filmes produzidos.

Com o crescimento do streaming a Conspiração também passou a produzir para as plataformas. "O streaming entrou com muita demanda e ocupando mão de obra. Ficou mais difícil fazer cinema, que segue sendo um negócio importante, mas não é hoje o principal negócio da produtora", diz Luísa Barbosa, diretora-executiva da Conspiração.

"As empresas de streaming entendem que é importante produzir conteúdo local. A prioridade delas é que o produto local faça sucesso aqui. Mas o Brasil tem muita capacidade de produzir para o mercado internacional", diz Luísa.

A Conspiração, como todas as produtoras, tem o desafio de negociar com os gigantes globais. "Queremos fazer parte deste ecossistema global, mas ao mesmo tempo é hora de entender para onde vamos. Sabemos como funciona e estamos preparados para colaborar com um caminho que funcione para todos", diz Luísa.

Quem é o dono da produção?

O modelo da Netflix e grandes plataformas é que elas se tornam as donas da produção e o produtor é apenas um fornecedor. No streaming também não existe divisão dos resultados. É diferente do cinema, onde a bilheteria é dividida com o produtor.

Round 6, série sul-coreano que a Netflix comprou por US$ 22 milhões, gerou US$ 900 milhões em valor para a empresa, de acordo com documentos internos que foram revelados em outubro pela Bloomberg. Hwang Dong-hyuk, o criador de Round 6, disse que não ficou rico apesar do sucesso da atração. "Não é como se a Netflix estivesse me pagando um bônus. A Netflix me pagou de acordo com o contrato original".

Segundo o Wall Street Journal, Hwang teve que parar de escrever o roteiro de Round 6 para vender seu laptop por R$ 3.700 em dinheiro. Na época, ele morava com a mãe e a avó e enfrentava dificuldades financeiras.

A Coreia do Sul é notória pelas políticas de incentivo ao audiovisual implementadas nas últimas duas décadas e que fizeram disparar a demanda por suas produções. Hwang passou mais de dez anos tentando emplacar a série que originalmente era um filme. Não fosse a alta procura pelas produções coreanas, Round 6, assim como Minha Mãe é uma Peça, por terem conceito muito diferente do usual, dificilmente teriam saído do papel.

Pandemia, disparada de custos e falta de mão de obra

Produzir audiovisual no país sempre foi um desafio, mas um conjunto de fatores piorou o cenário. Além do fechamento das salas de cinema, cresceu a complexidade das produções diante dos protocolos contra a Covid. Mas principalmente, houve uma disparada dos custos.

No Brasil o cenário foi agravado pela crise econômica, com inflação acima de 10% ao ano e disparada do dólar. Segundo produtores, o custo de alimentação foi um dos que mais subiram. "Chegamos a servir 500 refeições por dia em uma filmagem", diz um produtor. O preço dos equipamentos, a maioria comprado no exterior e pago em dólar, também disparou. O cenário ficou ainda mais complicado com o boom do streaming no país e mais busca por produções locais.

"Já percebemos no Brasil que os custos estão inflacionados. Tem um lado bom de estar entrando mais dinheiro na área, empregando profissionais e com atores, diretores e técnicos ganhando mais", afirmou Erick Brêtas, diretor de produtos e serviços digitais da Globo e responsável pelo Globoplay, em entrevista ao Notícias da TV. "Ao mesmo tempo, tem um problema de infraestrutura de produção, porque não temos mão de obra qualificada o suficiente".

Faltam estúdios e profissionais qualificados, particularmente para produções mais elaboradas, que são compradas pelas grandes plataformas de streaming.

Para Brêtas, "o efeito não é positivo se esse crescimento dos custos e salários se dá por gargalos. Quando começa a existir guerra de oferta e proposta para romper contrato, o que vemos é um crescimento inflacionário e não sustentável. Hoje temos coisas que custam o dobro porque falta gente. Precisamos investir mais para ter uma infraestrutura mais sólida".

O que fazer para resolver o problema

"Já vimos que medidas práticas como a cota de tela e a Lei da TV a Cabo conseguimos criar produtos de sucesso, formar profissionais qualificados e fomentar a indústria audiovisual brasileira. É uma indústria que gera mais de 100 mil empregos diretos no país", diz Leonardo Edde, proprietário da produtora Urca e presidente do Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual.

"Com novos estúdios e infraestrutura poderíamos ter uma demanda quatro vezes maior", diz Edde, que afirma conversar com a prefeitura do Rio de Janeiro para o desenvolvimento de um distrito criativo na cidade, com incentivos para fomentar a indústria audiovisual no local.

Para Edde, por um lado os governos podem desenvolver uma infraestrutura melhor ou criar benefícios que aliviem a pressão de custos das grandes plataformas que compram conteúdo, e de outro, poderiam impor regras e cotas para fomentar o crescimento do setor. Impor que parte das produções independentes nacionais tenham os produtores como donos ou sócios é um exemplo.

"Quando o produtor apenas vende seu conteúdo sem participação ou propriedade, tudo acaba sendo feito para atender aos interesses das plataformas, e não necessariamente fomentar o crescimento sustentável da indústria", diz Edde, "queremos filmes brasileiros e não somente filmes feitos no Brasil".

O produtor ressalta que as empresas de streaming fazem o que tem de fazer para gerar resultados e são muito bem-vindas ao país. "Aprendemos muito com eles, além de trazerem investimentos. Gerar oportunidade e fomentar as indústrias é papel do governo, não das empresas", lembra.

A posição da Ancine

Segundo a Ancine, o órgão iniciou um novo esforço de acompanhamento dos números do mercado "para se aprofundar sobre o atual panorama da participação do conteúdo brasileiro no segmento". Inicialmente, o trabalho se concentra em cerca de 60 serviços de VoD (video on demand) disponíveis no país.

A análise identificou, em uma abordagem preliminar, mais de 5.000 obras com participação brasileira presentes nestes serviços, o que representa aproximadamente 10% do total de obras disponíveis nas plataformas acompanhadas. Essas obras totalizam mais de 73 mil horas de conteúdo nacional nos serviços (cerca de 30% do total de conteúdo disponível).

Questionado sobre a posição da Ancine sobre política de cotas, Alex Braga, diretor-presidente da agência, respondeu por email: "O aumento dos serviços (de streaming), dos investimentos e da circulação do produto nacional, além de mitigar os efeitos da crise sanitária, criaram um ambiente fértil, maduro e equilibrado para o debate da regulação do streaming. Ao lado da garantia da produção independente, da propriedade, para que as criações intelectuais brasileiras, as diversas paisagens do Brasil tenham espaço, e para que os brasileiros possam se ver, ouvir e sentir, é tempo de falar de cinema. É essencial a discussão da janela cinematográfica para obras brasileiras de longa metragem, tanto como medida para desenvolvimento socioeconômico do país, quanto para uma maior eficiência da política setorial"

Imaginar o Brasil sem a obra cinematográfica de Paulo Gustavo é uma chance de refletir sobre o quanto perdemos nos últimos três anos e o quanto estamos dispostos a perder no futuro se não implementarmos políticas setoriais efetivas.

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