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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Em busca de novo parceiro, OnlyFans quer ficar mais sério

Suzy Cortez, musa do OnlyFans - Reprodução / Internet
Suzy Cortez, musa do OnlyFans Imagem: Reprodução / Internet
Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

17/06/2021 04h00

Resumo da notícia

  • O OnlyFans, plataforma para maiores de 18 anos, está em busca de investidores para alcançar valor de mercado superior a R$ 5 bilhões
  • Para atrair o novo parceiro, a empresa quer ter mais celebridades e atletas para deixar no passado a imagem do "Instagram do sexo"
  • Ao ser mais Netflix e menos Sexy Hot, o OnlyFans se tornaria semelhante às empresas de tradicionais de mídia
  • O concorrente Cameo, app que conecta celebridades a fãs (mas com todos vestidos), já vale mais de R$ 5 bilhões
  • A mudança de posicionamento do OnlyFans pode representar um retrocesso para os profissionais do sexo
  • À medida que criadores de conteúdo ganham mais dinheiro e constroem suas marcas pessoais no OnlyFans, ganham maior poder de negociação na indústria

O OnlyFans, rede social que faz sucesso entre profissionais da indústria do sexo e celebridades que recebem pagamentos por seus vídeos e conteúdos compartilhados, está em busca de um investidor. Segundo a Bloomberg, a ideia é encontrar um parceiro disposto a colocar dinheiro suficiente no caixa para que a empresa chegue a um valor de mercado superior a R$ 5 billhões.

Mas para isso o OnlyFans terá de se comportar mais como uma empresa de mídia tradicional. Ou seja, mais semelhante ao Netflix e mais distante do Sexy Hot.

O fato é que investidores, de modo geral, fogem do sexo quando se trata de aparecer publicamente. Os maiores investidores do mundo são entidades conservadoras e tradicionais. Pense nos gigantescos fundos soberanos de países do Oriente Médio e Europa, ou ainda fundos de pensão de bancários e funcionários públicos. O sexo é um tema delicado e ninguém quer correr riscos publicamente.

Enquanto centenas de startups recebem aportes multimilionários mesmo com poucas perspectivas de dar lucro, o OnlyFans que já é lucrativo e ainda esse ano deve faturar mais de R$ 5 bilhões, teve de contratar uma consultoria para encontrar potenciais investidores. O Cameo, um app que conecta celebridades a a fãs para receberem e enviarem mensagens, recentemente foi avaliado em mais de R$ 5 bilhões. No aplicativo, os fãs pagam de US$ 5 (R$ 25) a mais de US$ 2.500 (R$ 12,5 mil) para receber mensagens gravadas em vídeo pelos famosos.

Uma crítica recorrente com relação ao OnlyFans era o crescente número de estudantes que, sem poder trabalhar em empregos temporários na indústria de alimentação e entretenimento, aderiam ao serviço.

Para fugir das polêmicas e atrair endinheirados investidores, o plano do OnlyFans é crescer as parcerias com celebridades e atletas, deixando no passado a imagem de "Instagram da indústria do sexo". A rapper Cardi B, o jogador de rugby Chris Robshaw e a estilista Rebecca Minkoff estão entre as celebridades que já aderiram no exterior. No Brasil, Anitta e Rita Cadillac já aderiram. A ex-Miss Bumbum e modelo Suzy Cortez contou que vendeu 2 litros de água de seu próprio banho por 7 mil dólares (aproximadamente R$ 35 mil) na plataforma. Suzy afirma ganhar R$ 5 milhões por mês na plataforma onde tem 374 mil assinantes pagantes.

Traição e dinheiro

Não vão faltar usuários para acusar o OnlyFans de traição. Afinal, poucas empresas se beneficiaram tanto da pandemia e da indústria do sexo. A empresa viu seu consumo disparar durante o período de confinamento. Por um lado, os profissionais do sexo que tiveram de parar de atender pessoalmente e encontraram na plataforma uma alternativa. De outro, consumidores ficaram mais tempo em casa e com mais tempo livre diante das telas. Teve até quem atraído pelas possibilidades de lucro da plataforma começou a vender conteúdo mesmo sem experiência no setor, incluindo um grande número de pessoas que ficou desempregada por causa da pandemia.

O site permite que os criadores vendam vídeos, fotos e mensagens diretamente aos assinantes em uma base pay-per-view, assinatura mensal ou doações, com o OnlyFans recebendo 20% dos pagamentos. Os clientes pagam entre R$ 10 e R$ 250 por mês. Atualmente, mais de 300 criadores de conteúdo já faturam mais de R$ 7 milhões no OnlyFans, afirmou a empresa em uma reportagem do Financial Times.

Os usuários da plataforma social de conteúdo adulto gastaram R$ 10 bilhões em 2020, um crescimento de 553% em relação à receita de 2019. O lucro da empresa saltou de R$ 42 milhões para R$ 371 milhões em 2020. Já o número de usuários cresceu de 20 milhões antes da pandemia para mais de 120 milhões em 12 meses (600% de crescimento).

Mia Khalifa e o problema da indústria pornô

A industria da pornografia movimenta bilhões, mas a divisão de receitas sempre privilegiou os donos dos canais de distribuição, com os atores ficando com a menor parte da receita. Um exemplo é o fenômeno pornô Mia Khalifa, que recebeu um total de R$ 60 mil para participar de alguns filmes, uma fração pequena do que seu conteúdo gerou para distribuidores como o Pornhub.

O OnlyFans se tornou uma plataforma que, ao oferecer conteúdo exclusivo e a capacidade de interagir com os artistas, bem como uma maneira para os criadores desenvolverem a própria marca, fez com que a audiência voltasse a ter interesse em pagar pelo conteúdo. Pode parecer pouco, mas ao receber mais pelo que produzem, os criadores ganham maior controle e independência.

Uma eventual mudança do OnlyFans para se tornar mais conservador traz dois riscos: um retrocesso para os profissionais da indústria do sexo que voltariam à estaca zero, e ainda criar mais um streaming ou rede social em um mercado já saturado.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL