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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Streaming em alta e audiência em queda aceleram planos digitais da Globo

Kyra (Vitória Strada) vendo uma notícia de Rafael (Bruno Ferrari) em Salve-se Quem Puder (Reprodução/TV Globo). - Reprodução/TV Globo
Kyra (Vitória Strada) vendo uma notícia de Rafael (Bruno Ferrari) em Salve-se Quem Puder (Reprodução/TV Globo). Imagem: Reprodução/TV Globo
Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

16/06/2021 04h00

Resumo da notícia

  • A Globo, em parceria com o fundo de investimentos de risco Mindset Ventures, quer trazer mais de 100 startups americanas para atuar no Brasil
  • Por meio de um programa chamado Globo Partner Program, a emissora realizará parcerias e investimentos estratégicos nas startups
  • A América Latina tem despertado o interesse de investidores e empreendedores atraídos pelo potencial de ganhos exponenciais na região
  • O crescimento do streaming, onde a Globo não possui a liderança isolada como na TV, é um alerta para a rápida transformação da mídia
  • A estratégia adotada pela Globo tem sido usada com sucesso no Vale do Silício por empresas como Google, Salesforce e Microsoft
  • O grupo de mídia Naspers é um modelo para investimentos em startups de tecnologia, mas também mostra os riscos com a mudança de prioridades

O Naspers, maior grupo de mídia da África do Sul, em 2001 pagou R$ 150 milhões por uma participação na Tencent e passou a controlar o equivalente a um terço da empresa. Provavelmente, foi um dos melhores investimentos de capital de risco da história moderna. Hoje, a Tencent é a maior empresa da China, a maior empresa de videogames do mundo em receita e tem uma capitalização de mercado equivalente a R$ 3,9 trilhões.

Quando a internet despontava nos anos 2000, o Naspers fez centenas de investimentos. A Tencent foi de longe a melhor, rendendo bilhões de lucro. Mas também houve equívocos, em 2006 a empresa comprou uma fatia minoritária do Grupo Abril, mas vendeu anos depois, com prejuízo. Mas também teve acertos como o Buscapé, a Movile, dona do iFood, e a OLX. Algumas das maiores startups do mundo tem participação do Naspers.

A lógica de investir em jovens empresas e torcer para que elas se tornem grandes sucessos e no caminho ainda tragam novos conhecimentos para players tradicionais não é nova. Google, Salesforce, Microsoft e a própria Tencent, têm "braços" de investimento de risco em suas operações.

Agora, a Globo intensifica seus esforços nesse sentido. Hoje, a Globo anunciou o lançamento do Globo Partner Program (Programa de Parceiros Globo), uma plataforma de lançamento para empresas americanas que buscam crescer no mercado latino-americano.

A ideia é atrair 100 startups dos Estados Unidos nas áreas de publicidade digital e plataformas diretas ao consumidor para desenvolver novas oportunidades de negócios no Brasil e América Latina. "Estamos colocando a tecnologia para funcionar em um mercado em escala, criando novos negócios e fontes de receita sustentáveis para nossos parceiros dos EUA. Nossas primeiras integrações com startups nos EUA foram muito encorajadoras", diz Carlos Moreira Jr., diretor de Ecossistema de Mídia Global e Parcerias da Globo e chefe do Globo Partner Program.

Segundo Jerry Luk, cofundador, presidente e COO da startup de vídeos Firework, "tem sido um programa fantástico". Luk diz que, na América Latina, o alcance de usuários aumentou mais de 40 vezes e o tráfego na região aumentou mais de 100 vezes desde a parceria da Firework com a Globo.

O projeto da Globo está ativo há cerca de um ano, mas em fase de testes. Os principais serviços disponíveis no portfólio do projeto incluem monetização de dados, vídeos curtos, anúncio de contexto, conversão e atribuição e observação profunda. O programa deve escalar rapidamente a operação, mas mantendo o foco nessas áreas. A Mindset Ventures, uma investidora de risco americana com mais de 40 investimentos no portfólio e especializada em empresas em estágio inicial, será parceira do programa referindo startups interessadas para a Globo.

Unicórnio global

A ideia faz sentido. A América Latina atingiu um número recorde de negócios de capital de risco no ano passado. Os investidores fecharam 488 negócios com empreendedores em 2020, superando o recorde anterior, de 2018, de acordo com a Associação Latino-Americana de Private Equity & Venture Capital, conhecida como LAVCA. Enquanto o montante arrecadado em 2020, de R$ 21,1 bilhões, foi cerca de 10% abaixo de 2019. Mas a abertura de capital na bolsa de unicórnios como Nubank e QuintoAndar deve aumentar o interesse de investidores pela região.

Na outra ponta, a Globo tem um cenário preocupante. No Brasil, 86% da população acessa pelo menos um serviço de streaming, segundo pesquisa da consultoria KPMG. Para efeito de comparação, nem metade dos brasileiros consome TV a cabo, que não para de perder assinantes. E diferentemente da TV aberta e do cabo, onde a Globo é a líder absoluta, no streaming a concorrência é feroz e os adversários formidáveis (das big techs como Amazon e Apple, a empresas de mídia como Netflix e Warner Bros. Discovery).

Some-se a isso o crescente consumo de games, de longe o setor de crescimento mais rápido globalmente na indústria de mídia e entretenimento, e fica fácil entender a razão da contínua queda de audiência e receita da TV tradicional.

A disparada do streaming no Brasil é um dos sintomas do avassalador crescimento das plataformas digitais. Para a Globo, abrir novas frentes de investimento e parcerias com startups é uma oportunidade de reduzir a dependência da mídia tradicional, não apostar todas as suas fichas apenas na sangrenta guerra do streaming, e ainda se expor à oportunidade de ganhos exponenciais, como nos investimentos milionários do Naspers que se transformaram em bilhões.

Transformação em big tech

A Globo tem experiência no setor. Pelo menos desde 2017 investe em startups e inclusive possui um braço de investimentos, a Globo Ventures. A Órama, plataforma de investimentos; a Bom Pra Crédito, um marketplace de crédito; o Enjoei, de venda de produtos; a tech.fit, empresa de aplicativos relacionados a bem estar e saúde; o ZAP, portal de imóveis; o app de logística Rappi, e o app de passagens de ônibus Buser teriam recebido aportes. E há uma joint venture com a Stone, empresa de pagamentos.

O Naspers começou como um jornal há mais de 100 anos e é uma referência de transformação, mas vale observar sua trajetória. Mesmo sendo a maior empresa de comunicação da África e líder das TVs no país, em 2019 ela separou seus negócios de tecnologia dos negócios de mídia.

Basicamente, seus investimentos em empresas de tecnologia se tornaram tão valiosos que a área de mídia do grupo depreciava o valor geral da companhia. Para resolver o problema, em 2019 o grupo criou uma nova empresa, a Prosus, um spin-off de ativos internacionais.

A Prosus é uma das maiores empresas de internet da Europa e avaliada em R$ 500 bilhões. Ela segue investindo em startups como a plataforma de alimentos online Swiggy da Índia, bem como na Mail.Ru, uma importante plataforma de internet russa. Agora, sua prioridade é a Índia, onde gastou mais de R$ 20 bilhões nos últimos cinco anos, tornando-se o segundo maior investidor do país depois da SoftBank.

O streaming é um mercado extremamente concorrido e cada vez mais consolidado. Nada indica que a competição no mundo das startups será menor, mas as chances de grandes lucros podem ser desproporcionalmente maiores. E como disse Reid Hoffman, co-fundador do LinkedIn e guru das startups do Vale do Silício: "A maneira mais rápida de mudar a si mesmo é sair com pessoas que já são do jeito que você quer ser". A Globo há anos trabalha para se tornar uma empresa digital e disruptiva, nada como se cercar de startups para isso.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL