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Flavia Guerra

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O dia em que Cannes parou para ver Tom Cruise passar

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Flavia Guerra

O cinema é minha casa. Da faculdade de jornalismo na ECA-USP ao mestrado em Direção de Documentários na Goldsmisths-University of London, passando pelo trabalho nos coletivos Elviras - Mulheres Críticas de Cinema e no Mais Mulheres no Audiovisual, vivo o cinema 24/7. Jornalista, documentarista, curadora, crítica de cinema e outras coisas mais, mora também no podcast Plano Geral (@planogeral_podcast), que criou em parceria com Thiago Stivaletti. É colunista de cinema da Band News FM, cobre os principais festivais de cinema internacionais para o Canal Brasil e é curadora do Feed Dog - Festival Internacional de Documentários de Moda.

Colunista do UOL, em Cannes

18/05/2022 22h58Atualizada em 24/05/2022 14h42

Foram seis minutos de aplausos, ou mais. "Top Gun" finalmente ganha, 36 anos depois de seu lançamento, a sonhada sequência. "Top Gun: Maverick" chega aos cinemas no dia 27 de maio. Antes, fez voo rasante em seleta pré-estreia nos Estados Unidos e causou na Croisette, como os frequentadores de Festival de Cannes costumam brincar sobre filmes que são os ditos arrasa-quarteirões (ou blockbusters), que causam o maior alvoroço na avenida à beira-mar da cidade.

Pudera. Em geral, é na sexta-feira, ou seja, dia 20, que a cidade fica impraticável de tantos turistas, fãs, profissionais do cinema e afins. A Croisette, que já tem uma pista fechada durante toda a quinzena do festival, se torna o próprio caos na terra, e caminhar poucos quarteirões se torna tarefa quase impossível.

Mas já nesta quarta, com a passagem de Tom Cruise, diversas ruas que dão acesso à Croisette foram fechadas, o esquema de segurança e de trânsito reforçado. Ter a chance de ver ou tirar uma foto com o astro é tarefa para quem, praticamente, dorme em frente a um dos tapetes vermelhos mais badalados do mundo.

Não houve coletiva de imprensa de Top Gun Maverick, para a infelicidade da imprensa que se desdobra para acompanhar o festival todo ano. No lugar, um concorridíssimo Rendez Vous, ou um grande bate-papo, espécie de master talk, em que o ator falou do que o move na carreira, dos filmes que faz e que quer fazer e do que acredita ser o cinema.

Diante de uma plateia seleta de cerca de mil pessoas (acredita, a fila de espera era muito maior), Tom Cruise comentou que sempre quis fazer cinema para conhecer gente, que ama as pessoas, que sempre quis conhecer o mundo não como turista, mas sim trabalhando. "O cinema me deu isso", comentou diante do público embasbacado com o carisma do ator.

Realmente, é difícil pelo menos não simpatizar com Cruise. Aos 59 anos, em sua segunda passagem por Cannes, (a primeira foi em 1992 quando exibiu o longa "Far and Away", de Ron Howard), ele esbanja energia, simpatia com a energia daquele amigo obstinado, quase nerd, que quer fazer tudo à perfeição, quase chegando à obsessão.

Tom contou que lia os créditos dos filmes e queria saber o que cada um fazia nos filmes. Disse que até hoje está aprendendo com o cinema e que faz questão de saber e aprender o que cada pessoa em seu set faz.

Como ser cinéfilo e não se encantar com alguém que, em plena era dos vídeos instantâneos das redes sociais, dos streamings afirma que nunca faria um filme para ir direto para o streaming. O negócio de Tom Cruise é o cinema.

Ele com seu novo Top Gun e com Missão Impossível, que deve chegar também em breve aos cinemas, promete chacoalhar o mercado e ajudar substancialmente os cinemas a receberem de volta o público depois da crise da pandemia.

Tom gosta de riscos, faz ele mesmo muitas das cenas de ação de seus filmes e foi certeiro ao responder quando questionado sobre o porquê de dispensar dublês e se não tem medo. "Ninguém perguntava a Gene Kelly (de 'Cantando na Chuva') por que você dança?. Eu era o tipo de menino que pulava do telhado com um paraquedas feito dos lençóis da minha mãe. E levei esta curiosidade para os filmes, para Missão Impossível."

E o medo? Tem, claro. "Mas os filmes que eu fiz me levaram a conhecer as pessoas. Eu me interesso por pessoas. E me permitiu sonhar. Acho que uma das coisas mais importantes quando trabalho com atores é que é melhor criar mesmo quando você falha. É sempre melhor tentar do que não fazer isso. Sempre é melhor fazer a pergunta e não ter medo. Mesmo que alguém ache que você é burro ou arrogante, mas melhor perguntar."

"Eu dou minha vida por isso porque eu me sinto privilegiado."

De fato, é um privilégio ganhar uma Palma de Ouro surpresa. foi o que ocorreu na sessão de gala, ou première, de Top Gun Maverick, duas horas depois do bate-papo. E mais gente na Croisette, mais gritos dos fãs, mais confusão. A cidade, e o cinema pararam para ver Tom Cruise passar.

Nesta quarta, também foi dia do russo Kirill Serebrennikov estrear seu novo longa "Tchaïkovski Wife", foi também o dia da sessão especial no Cannes Classics da cópia restaurada de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de Glauber Rocha, o único filme brasileiro a ter sessão oficial em Cannes este ano. Houve pouco espaço na mídia e nos corações e mentes para a programação do festival. Tudo girou em torno de Maverick, o rebelde.

Na 'monté de marche', ou o desfile das celebridades pelo tapete vermelho, uma surpresa e tanto: no momento crucial da passagem pelo tapete, quando as equipes se unem e param no último degrau da escadaria para a foto oficial, a Patrouille de Franc sobrevoou o céu de Cannes deixando um rastro de fumaça com as cores da bandeira francesa. Bela produção para uma première digna do lado mais blockbuster de Cannes.

Quem pensa que só de filmes de autor se faz o festival se engana. Não esqueçamos que Star Wars já teve seu dia de Space Troopers na escadaria do Palais com a première de 'Solo: A Star Wars Story' em 2018. Cannes também é feito de marketing, de mercado e de blockbusters. Afinal, de quem faz ainda filmes para o cinema.

Se os aviões causaram comoção em quem estava dentro e fora do Palais, pouco tempo depois a entrada de Cruise e da comitiva do filme, formada pelo diretor Joseph Kosinski, além dos atores Miles Teller Jennifer Connelly, entre outros. Foram longos minutos de aplauso até que Cruise subisse ao palco para apresentar Maverick.

A Palma de Ouro, não anunciada e muito bem guardada até o momento, de fato, o surpreendeu e o emocionou. E ele mais uma vez dedicou o prêmio aos que amam o cinema. Feliz de, depois da Pandemia, finalmente lançar o filme que ficou dois anos guardado, disse também estar feliz de ver (quase) todos sem máscara e finalmente poder ver os rostos das pessoas.

Se "Top Gun Maverick" é de fato tão bom quanto Top Gun? Se Top Gun, o original, era/ é de fato um bom filme? Se o novo longa talvez seja longo demais e aposte nas emoções sempre marcadas demais, quase não confiando que o público vai saber ler e interpretar sutilezas nos rostos dos atores? Tudo isso se perde em meio ao "filme evento" do momento (talvez do ano) e do carisma, este sim real e infalível, de Tom "Maverick" Cruise. O cinema, em crise mundial, nunca precisou tanto de grandes ídolos capazes de levar multidões às alas. E, além dos chamados "filmes de heróis", isso é raridade atualmente. Por tudo isso, a passagem de Cruise pela Croisette é daqueles momentos que nascem clássicos e revelam do que também é feito o Festival de Cannes.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado na versão original, o filme foi lançado há 36 anos e não 26. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL