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Coluna do Veterinário

Só multiplicar por 7? A verdade sobre a relação das idades humana e canina

André Marchina Gonçalves

André Marchina Gonçalves é médico veterinário formado pela FMVZ-USP em 2012. Possui pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária pela PAV e Anestesia Regional Veterinária pelo IEP Ranvier. Trabalhou em alguns dos principais hospitais e clínicas veterinárias de São Paulo entre 2013 e 2019, quando mudou-se para a Espanha. Atualmente é aluno da Universidade de Murcia, onde faz um masters em Medicina de Pequenos Animais.

Colaboração para o UOL, em Murcia (ESP)

08/10/2020 13h37

A ideia de que um ano para os cães é equivalente a sete anos humanos é amplamente difundida há muito tempo. Quando eu estava no colégio, calcular as idades do meu cão e de todos os que eu conhecia na família e na vizinhança me ajudou a decorar a tabuada do 7. Mas é correto pensar assim?

Confesso que não sei a origem desse mito, mas podemos dizer que até os anos 1980 e 1990 essa era uma estimativa bem razoável. Isso porque a expectativa de vida de nossos melhores amigos era mais baixa do que é hoje em dia. Um cão costumava viver menos, e uma fração menor passava dos 10 anos de idade.

Assim, quando calculávamos a idade de um cão, tínhamos casos de animais que viveram até os 70, 77 ou 84 anos, nada muito além disso. Porém, com o avanço na medicina veterinária, da nutrição dos cães e no modo como os nossos animais são tratados por seus donos, essa expectativa de vida deu um grande salto nas últimas décadas.

Desse modo, a regra dos 7 anos passou a não funcionar muito bem.

Afinal, quantas pessoas de 126 anos você conhece? Pois eu conheço diversos cães de 18 anos e até mais. Cada dia é mais frequente entrarem pela porta das clínicas veterinárias cães acima dos 20 anos. O mais velho que conheci é um spitz alemão (ou lulu da pomerânia) de 23 anos, o que significaria absurdos 161 anos humanos na regra dos 7.

Mas existe algum modo mais científico de estimar a idade dos cães?

Já sabemos há algum tempo padrões relativos à expectativa de vida de nossos melhores amigos. O primeiro é que o tamanho é o principal fator que influencia na longevidade: cães menores vivem mais do que cães maiores. Outro fator importante é a raça: algumas têm uma expectativa de vida maior do que outras, e os cães sem raça definida (os famosos vira-latas) vivem mais do que os animais de pedigree. Sabemos também que os cães pequenos se desenvolvem mais rapidamente que os grandes.

Então, somando todos esses fatores, já existem há alguns anos estimativas mais precisas sobre a correlação entre idade animal e humana, que possivelmente você já tenha até visto em algum pôster na parede da clínica veterinária que você frequenta.

A novidade que temos agora é um estudo publicado recentemente em que, por meio da análise de alterações epigenéticas, foi possível traçar uma comparação precisa entre o envelhecimento de cães e de humanos. Mais especificamente, os cientistas utilizaram a mensuração do nível de metilação do DNA de cães da raça labrador de diferentes idades e compararam ele ao de humanos.

Não, eu também não entendi.

Minha amiga bióloga Débora Brandt, que faz doutorado em genética na Universidade da Califórnia, me explicou que a metilação de DNA é uma alteração molecular chamada de epigenética porque acontece "sobre" o DNA, e não "no" DNA. Dessa forma, a informação contida nos genes na forma das famosas letras A, T, C e G não é alterada. O que muda é que algumas das letras C recebem um grupo químico (chamado metil) sobre elas. Essas alterações "sobre" o DNA se acumulam de maneira previsível ao longo da vida de um organismo.

Com base nisso, os cientistas desenvolveram um "relógio epigenético", que funciona assim: você olha quanto e onde tem metilação no DNA, e isso te indica há quanto tempo nasceu o bicho. Esse mapa de quais partes do genoma estão metiladas é chamado de metiloma.

Nesse trabalho, os pesquisadores compararam o acúmulo de metilação no DNA ao longo da vida de labradores ao acúmulo em humanos. Para cada metiloma de labrador, eles olharam quais eram os metilomas humanos mais parecidos e tiraram uma média das idades desses humanos para fazer a equivalência entre idade canina e idade humana.

Desse modo, foi possível traçar um paralelo de maneira objetiva entre a idade dos cães e a idade de pessoas. E quais foram os resultados?

Realmente existe uma relação entre as idades. Como suspeitávamos, a relação não é linear. Essa relação pode ser expressada por uma função logarítmica e, desse modo, não é possível converter a idade por meio de uma simples multiplicação.

Eu explico o que isso significa na prática: nos primeiros anos da vida de um cão, ele "vive bem mais" do que depois de adulto. Um labrador ao completar o primeiro ano de vida estaria próximo dos 30 anos humanos, mas depois disso, até os 12 anos, ele só envelhece até os 70 anos humanos. Ou seja, temos um ano equivalente a 30, e depois 11 que equivalem a 40, mas que aumentam de maneira cada vez menos acelerada. O gráfico abaixo representa essa evolução.

O interessante desse estudo é que ele responde o que todo dono de cão quer saber de maneira científica e objetiva. Infelizmente, essa relação estabelecida só vale para cães da raça labrador.

Arrisco dizer até que é possível que outros cães de tamanho parecido com o labrador, como por exemplo os golden retriever, devam ter um padrão de envelhecimento bem semelhante. Em compensação, se o seu animal é pequeno como um yorkshire, nem adianta tentar extrapolar. Quem sabe no futuro não surjam mais estudos desse tipo com outra raças.

infografico - idade cães -  -
Adaptado de Wang e colegas, 2020 - Quantitative Translation of Dog-to-Human Aging by Conserved Remodeling of the DNA Methylome

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.