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Bolt que se cuide: você sabia que o homem pode correr 100 m em 6 segundos?

17/07/2021 04h00

A prova de 100 metros rasos é a mais importante do Atletismo. Você sabe por quê? A explicação está no desafio a um dos limites mais importantes do corpo humano: qual a velocidade máxima que conseguimos atingir?

Usain Bolt é hoje o homem mais rápido do mundo. Ele correu os 100 metros na Olimpíada de 2012 em 9 segundos e 63 centésimos. No dia em que ganhou a medalha de ouro sua velocidade máxima foi de 44 km/h —é tão rápido que, se ele passasse correndo por um radar em uma rua dentro de SP, poderia ser multado.

Mas será que Bolt está perto do limite do homem na corrida? Se a gente pensar na evolução que vivemos desde a primeira Olimpíada, em 1896, a resposta é que sim.

O primeiro campeão olímpico foi Thomas Burke, dos Estados Unidos. Ele ganhou o ouro com a marca de 11.8 segundos. O curioso é que, naquela prova, ele foi o único a largar com o corpo inclinado, algo que provocava risos no público, mas foi uma das primeiras inovações para deixar a corrida mais rápida. Foi tão inovador que até hoje os velocistas largam de blocos, inclinados e com uma base para aumentar o impulso inicial.

Desde Burke, quebramos o recorde mundial dos 100m sete vezes. Foram apenas 4 anos para ir dos 11,8 segundos até a casa dos 10. Mas foram necessários quase 70 anos para que alguém corresse abaixo dos 10 segundos. O primeiro a fazer isso foi Jim Hines, também americano, em 1968. Naquele ano, a Olimpíada foi realizada na Cidade do México, a 2250 m de altitude e o ar rarefeito causou uma explosão dos recordes no atletismo, mostrando que a influência do ar é determinante no tempo final. Desde então, foram mais 50 anos e só conseguimos baixar 47 centésimos (quase meio segundo) dessa marca.

Agora, as inovações da ciência e a própria evolução humana ainda podem ajudar nessa disputa do homem contra o próprio corpo. Primeiro, vamos voltar a Burke. Além da largada inclinada, ele também foi o inventor dos tênis com pregos, que aumentam a tração durante a corrida. Ao longo dos últimos 120 anos, os equipamentos de treinos e de competição mudaram para o melhor. As roupas são mais aerodinâmicas, os tênis são mais leves.

E o próprio corpo humano está mudando. No início do século passado, os vencedores foram baixinhos como Charley Paddock (1,71m em 1920), Percy Williams (1,70m em 1928) e Eddie Tolan (1,70m em 1932). Usain Bolt mede 1,96m. É quase uma régua de 30 cm mais alto que seus colegas do passado!

O aumento da altura média da população mundial foi de quase 7 cm desde 1820. Isso indica que, nas próximas décadas, é provável que os corredores sejam ainda mais altos.

Além disso, um estudo de 2010 do Journal of Applied Physiology, especializado em fisiologia, disse que o ser humano é capaz de correr a uma velocidade de até 64,4 km/h. Bolt chegou a uma velocidade média de 37,4 km/h nos Jogos Olímpicos de Londres (2012), com o tempo de 9,63 s e uma máxima de 44 km/h.

A velocidade de um corredor varia durante toda a prova. A técnica utilizada na largada, meio e fim da prova também foram bastante aperfeiçoadas na busca por milésimos de segundos. Bolt revolucionou isso. Ele foi o primeiro a sustentar sua velocidade máxima por 30 metros da prova, compensando uma largada ruim.

Fazendo as contas, se alguém chegar aos 64 km/h do limite do homem e mantiver a velocidade por 30 metros, ele seria 45,5% mais rápido que Bolt nesse trecho. Mantendo esse aumento de 45,5% nos outros 70 metros, ele correria os 100m em apenas 6,62 segundos, com uma velocidade média de 54,4 km/h. Algo que hoje em dia é improvável.

Parece fácil concluir tudo isso usando os dados dos homens. Mas e se a gente olhar para as mulheres? O recorde feminino é o mesmo há 33 anos. Em 1988, Florence Griffith-Joyner ganhou com 10,62 segundos e desde então quem chegou mais perto foi a jamaicana Elaine Thompson, com 10,71 segundos no Rio em 2016. Isso significa que as mulheres já atingiram seu limite? Não é bem assim.

Flo Jo morreu aos 39 anos e sempre levantou polêmicas sobre doping. Sem julgar ou acusar ninguém, essa polêmica levanta uma questão sobre uma discussão interessante: quanto o uso de substancias proibidas pode evidenciar que estamos próximos do nosso limite?

Florence foi 0,14 centésimo de segundo mais rápida que Shelley Ann Frasier, a melhor corredora de hoje, mas, como Bolt, ela era mais alta e mais forte que Shelley (1,70 m contra 1,52 m).

Nas Olimpíadas de Tóquio 2020, dificilmente teremos um novo recordista nos 100 m masculino. Mas há uma boa chance de Shelley Ann Frasier derrubar a marca de Florence.