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O adeus a Maradona: um epílogo de exageros, como sua própria vida

27/11/2020 18h05

Buenos Aires, 27 Nov 2020 (AFP) - Maradona teve uma vida cinematográfica e uma despedida na mesma medida. A dor do público, o alvoroço, o mítico e o apaixonado estiveram presentes na sua despedida terrena, tão cheia de exageros como a sua vida.

"Ele foi um ídolo popular que representou a nação argentina como ninguém", opinou à AFP Diego Murzi, doutor em Ciências Sociais e presidente da ONG 'Salvemos al Fútbol', que luta contra a violência neste esporte.

O funeral foi um vulcão de emoções que transbordaram em excessos porque "não cabia à figura de Maradona, foram apenas 10 horas, limitadas a Buenos Aires, algo quase clandestino", disse.

A irrupção de torcedores ao velório na Casa Rosada, violando todo o controle, a retirada emergencial do caixão, a polêmica repressão policial nas ruas e a despedida emocionada da caravana funerária ao longo de 30 quilômetros foram uma vertigem das emoções 'maradonianas'.

Dois dias depois de sua morte por parada cardíaca aos 60 anos, o governo do peronista Alberto Fernández e o prefeito liberal de Buenos Aires Horacio Rodríguez Larreta se culpam pelo final caótico no velório de quinta-feira.

"Maradona sempre foi um ídolo na disputa, entre a política, entre a família e entre o povo", acrescentou Murzi.

- "Maradona gera excesso popular" -Às brigas com os familiares, meio-irmãos, ex-companheiras, cunhadas e sobrinhos, somam-se as brigas com políticos.

A polícia da prefeitura reprimiu com gás e balas de borracha centenas de pessoas que compareceram ao funeral.

"Era previsível, para muitos, Maradona fazia parte da família e consideravam um direito ir ao seu funeral", analisa Murzi.

Uma serpente humana de vinte ruas desafiou a covid-19 com pessoas aglomeradas umas às outras, esperando horas em pé no sol para se despedir daquele que trazia tantas alegrias para suas vidas.

Quando foi anunciado o fim do velório público, de acordo com o horário estabelecido pela família, a frustração causou tumultos.

"A possibilidade de incidentes em um evento relacionado ao futebol está sempre latente na Argentina, até mesmo em um funeral", explica Murzi.

Também havia torcedores violentos subindo nas grades da Casa Rosada e tomando o controle do pátio interno da sede do governo.

"Devíamos ter antecipado a presença dos 'barra brava'", declarou o presidente em autocrítica nesta sexta-feira.

"É claro que Maradona gera uma espécie de excesso popular que ultrapassa todos nós", justificou Fernández.

Também havia morbidez e ameaças. As repudiáveis fotos com o polegar levantado ao lado do cadáver - que os funcionários da funerária tiraram e viralizaram nas redes sociais - provocaram indignação e também raiva de fãs que prometiam vingança em mensagens anônimas de origem duvidosa.

"Peço desculpas a todos", implorou Claudio Fernández, um dos que aparece nas fotos, nesta sexta-feira.

- De todos -Para Murzi, há um fenômeno social em torno de Maradona, a ideia de que como ídolo ele pertence a todos.

"A questão é a quem Maradona pertenceu, se pertence a todos, agora de quem é o corpo?" questiona Murzi, antecipando que o cemitério privado se tornará inevitavelmente um local de culto e peregrinação.

A passagem do cortejo fúnebre para o cemitério interrompeu o trânsito nas rodovias. Os motoristas desceram de seus veículos para gritar "Maradooooo! Maradoooo!".

Dos terraços das casas inacabadas, famílias inteiras usavam camisas da Argentina com o '10' estampado nas costas, emblema do 'D10s'. A Argentina se despediu da forma como ele viveu: sem meio termo.

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