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Pan 2019

Juliana Veloso atira de 38 como hobby e sonha virar policial nos EUA

Em Lima, Juliana Veloso disputou seu sexto Pan. Foi sua despedida - Wander Roberto/COB
Em Lima, Juliana Veloso disputou seu sexto Pan. Foi sua despedida Imagem: Wander Roberto/COB

Demétrio Vecchioli

Do UOL, em Lima (Peru)

06/08/2019 04h00

Juliana Veloso, 38, andava sumida. Com cinco Olimpíadas no currículo, não vestia o uniforme do Brasil desde sua eliminação na Rio-2016. Naquele dia, informou à imprensa que estava pensando em parar com os saltos ornamentais e migrar para o tiro esportivo. Os planos foram parcialmente seguidos. Ontem (5), em Lima (Peru), aos 38 anos, ela se despediu do seu sexto Pan, nos saltos. Quando voltar aos Estados Unidos, onde agora mora, promete retomar seu novo hobby: atirar.

"Eu tenho porte, tenho arma, então eu brinco de atirar. Atiro mais aos finais de semana, depende de quando tem folga. Agora ganhei um (calibre) 38, atiro bastante com ele. Mas eu atiro mais com algo que seria meio que pistola, meio que espingarda. Como que chama no Brasil? É HK... É fuzil?", questionou Juliana, que se embaralhou com a língua no início da entrevista em português e não especificou qual item usa da linha da fabricante alemã HK, que produz fuzis, mas também metralhadoras, submetralhadoras e rifles - entre outras armas de fogo.

Ela quer usar arma, porém, para mais do que um hobby. "Eu entrei nessa de atirar e tenho vontade de ser policial nos Estados Unidos. O salário é ótimo, é uma profissão muito bem respeitada", avalia a saltadora, que está requisitando cidadania norte-americana.

A carioca é dessas atletas que dá o que falar. Saltadora com resultados mais expressivos entre as mulheres brasileiras, já estava distante do núcleo da modalidade quando participou da Rio-2016. Depois disso, arrumou as malas e foi morar em Orlando, nos Estados Unidos. Treinadores e atletas não sabiam responder se ela continuava sendo uma atleta ou se estava aposentada até que apareceu para competir no Troféu Brasil do ano passado. Pegou todo mundo de surpresa. Saltou e obteve índice para ir ao Mundial e aos Jogos Pan-Americanos.

Juliana Veloso no Pan - REUTERS/Henry Romero - REUTERS/Henry Romero
Juliana Veloso terminou na 11ª posição na final do trampolim de 3m pelo Pan.
Imagem: REUTERS/Henry Romero

"Eu faço porque eu amo. Sempre fiz por minha causa. Nunca fiz por causa de dinheiro, nunca fiz por causa de ninguém. Sempre tive suporte da minha família. Falei: 'vou continuar fazendo porque me diverte, é mais barato do que ir na terapia'. Se me diverte e eu estou podendo fazer, então vou continuar fazendo", argumenta.

Em Lima, a impressão é de que Juliana não é parte da equipe, mas uma atleta que, por ter cidadania brasileira e ter feito o índice, foi aceita na delegação. Ela não nega essa percepção. "Pode ser que tem gente que pensa assim. Eu estou super curtindo. Foi o Pan que que mais curti. Tem uma nova geração muito gente boa e encontrei galera da velha guarda: o Hugo Hoyama, a Ro (Rosane Ewald) a Janice (Teixeira)...", lista, citando duas atletas do tiro esportivo além do veterano do tênis de mesa, que hoje é técnico.

Forças Armadas: um sonho de infância

Não é só a idade que torna Juliana muito diferente de outras atletas dos saltos ornamentais. Ela não esconde sua forte ligação com as Forças Armadas. Tanto que é a chance de participar dos Jogos Mundias Militares em outubro que explica a longevidade de sua carreira. Desde 2016 ela é atleta da Marinha, realizando um sonho de infância.

"Eu sempre tive muito orgulho não só da Marinha, mas das Forças Armadas em geral. Desde pequena eu sempre sonhei em fazer parte da Marinha, mas meu pai sempre falou que a gente tinha que fazer uma escolha, não dava para ser atleta e militar. Não tinha equipe (militar de saltos ornamentais) e quando foi criada a primeira eles me convidaram para fazer parte e aquilo foi para mim um dos vários orgulhos da minha vida", lembra.

Ela reclama que, no Brasil, não tem apoio nenhum, só da Marinha. "A confederação (CBDA) é uma bagunça, agora vem uma federação, com uma confederação, ninguém se entende. O COB não sabe quem apoiar. Então tá uma bagunça total. Eu sempre fui a ovelha negra. Não sei por que, deve ser a única da minha geração que ainda tô aqui".

Os saltos ornamentais, sempre preterido pela CBDA, foi ainda mais escanteado pela atual gestão, de Miguel Cagnoni. Para não deixar a modalidade morrer, atletas e técnicos criaram uma nova federação, a Saltos Brasil, que organiza campeonatos e administra a modalidade com liberdade para buscar patrocínios exclusivos para os saltos ornamentais. Mas é a CBDA quem tem a chancela sobre a modalidade, representando-a perante o COB.

Morando nos Estados Unidos, Juliana não participa dessa discussão. Antigos companheiros dela de seleção, Cesar Castro e Hugo Parisi chegaram a denunciar a CBDA perante o Comitê de Ética do COB, que também ontem emitiu dura decisão contra a confederação. Questionada sobre esse trabalho, Juliana não poupou Parisi.

"Eu sempre fui a única que reclamei. Sempre fui a única que abri a boca. Quando estava tudo ruim, perguntavam para todos os atletas e todo mundo 'aham'. E eu era a única que falava. Faz uma auditoria nos atletas da minha geração e vê que tá todo mundo rico e eu sou a única que não tô. Em 2009, eu parei de treinar para ter bebê e voltei no Brasileiro, mas perdi minha bolsa. Um atleta foi pego por doping e esse atleta continuava recebendo. Qual é o critério? Eu sempre fui a que briguei e nunca ganhei nada com isso, ao contrário. Não tenho esperança nenhuma. Acho que enquanto essa galera que tá lá continuar eu não vejo futuro", atacou. O atleta citado, pego no doping, foi Parisi.

Tóquio?

Depois de cinco Olimpíadas e seis Jogos Pan-Americanos chegou a hora de parar com os saltos ornamentais? Juliana diz que não, porque o grande torneio que ela vai disputar esse ano são os Jogos Militares, na China. Depois disso, tudo pode acontecer.

"Eu nunca imaginei estar aqui. Todo mundo me perguntou na Olimpíada e eu dizia 'Claro que não, esquece isso'. Então não digo que não vou aos Jogos de Tóquio. Hoje a chance é perto de zero, quase zero. Mas não vou falar que não, porque já falei que não outras vezes e já tá claro que minha palavra não vale mais nada", brincou.