A hora dele

Everton Ribeiro vira solução oportuna de problema do futebol brasileiro na formação de meias

Gabriel Carneiro Do UOL, em São Paulo Lucas Figueiredo/CBF

Everton Ribeiro foi um dos destaques da seleção brasileira contra a Venezuela na vitória por 1 a 0 da última sexta-feira (13), pela terceira rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo do Qatar.

Em sua estreia como titular aos 31 anos de idade e vestindo logo a camisa 10, o jogador do Flamengo participou da jogada do gol de Roberto Firmino ao levantar a bola na área para a ajeitada de Renan Lodi. Foi como um recado para o técnico Tite: diante da longa fase de oscilações de Philippe Coutinho — que só não está convocado por lesão —, dá para confiar no substituto.

A imposição de concorrência para Coutinho é uma boa notícia na seleção que tenta se reinventar no ciclo até 2022. Outro candidato é Lucas Paquetá, convocado justamente como reposição para o desfalque do meia do Barcelona. Hoje no Lyon, o ex-flamenguista teve o nome duramente questionado por uma razão que dá para entender: ele mal jogava na Itália e ainda não se firmou na França.

Mesmo contestado, Paquetá foi convocado porque está adaptado ao sistema de jogo de Tite e em um contexto de pouco tempo para treinar isso pode fazer a diferença. Ele teve boa atuação no Morumbi.

Também há outra razão, mais profunda: além dele, quem mais desempenha essa função de meia construtor, o armador de jogadas por dentro do campo, em alto nível, no Brasil ou na Europa? Tem alguém pronto além desses três nomes para aparecer na lista? Trocá-los por quem? Diante da solução oportuna que Everton Ribeiro proporcionou, é isso que o UOL Esporte tenta responder.

Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

O que é a posição?

Em quatro anos e meio de trabalho, Tite já variou em diversos momentos o esquema tático — o que muda, também, a posição e a função de alguns jogadores. Nos últimos quatro jogos, ele fixou um 2-3-5 quando o time ataca e 4-2-3-1 ou 4-3-3 quando o time defende. No meio-campo há jogadores abertos dos lados do campo e um que atua mais centralizado no tripé, seja Coutinho ou Everton Ribeiro.

Esse homem é o que Tite chama de "médio construtor", um armador por dentro que entregue assistências, gols e qualidade na troca de passes, com influência direta no jogo ofensivo, capacidade de gerar espaços e romper linhas de marcação. Ele parte do centro, mas pode flutuar pelos lados, então a dinâmica do jogo e a qualidade no 1x1 são diferenciais. E aí, já pensou em alguém?

Bruna Prado/UOL

Quem pode ter chance?

Alguns nomes podem ter surgido na mente até você rolar a tela para este texto. Gérson, do Flamengo, por exemplo. Um dos destaques do futebol brasileiro, sem dúvida, mas que não desempenha essa função porque sua construção de jogo costuma ser mais por trás. Lucas, do Tottenham, também não faz isso. Bruno Guimarães, do Lyon, tampouco. Já Willian, do Arsenal, tem jogado de atacante pela direita.

Também há Marinho, do Santos, e Thiago Galhardo, do Internacional, entre os nomes que vivem bons momentos e já foram elogiados na CBF, mas um é atacante de lado no 4-3-3 e o outro é segundo atacante. Todos estes seis jogadores teriam que fazer funções diferentes do que desempenham nos clubes, o que o autointitulado "ladrão de ideias" Tite diz que tenta evitar por causa do pouco tempo de preparação antes dos jogos.

Galhardo, inclusive, foi convocado para enfrentar o Uruguai amanhã como substituto de Pedro no ataque.

Além de Everton Ribeiro, Coutinho e Paquetá, Tite já convocou outros 12 meias em quatro anos e meio de trabalho, mas nenhum deles parece próximo de uma nova lembrança. Você se lembra de todos?

Outros meias da Era Tite

  • 11 convocações

    Renato Augusto, do Beijing Gouan, foi a referência do setor por anos, mas a queda de nível do futebol chinês o deixou pelo caminho. Não vai há dois anos.

    Imagem: Reprodução/Instagram
  • 7 convocações

    Giuliano esteve por muito tempo no radar fixo, mas a ida para o Al Nassr, da Arábia Saudita, atrapalhou. Aos 30, é recém-chegado ao Basaksehir-TUR.

    Imagem: Divulgação
  • 5 convocações

    Lucas Lima foi lembrado por Tite na época que defendia o Santos, mas joga no Palmeiras desde o começo de 2018 e não voltou por causa da irregularidade.

    Imagem: Cesar Greco
  • 4 convocações

    Diego, do Flamengo, é um dos jogadores mais elogiados por Tite ao longo dos últimos anos, mas os 35 anos impedem uma sequência visando à Copa do Qatar.

    Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
  • 2 convocações

    Rodriguinho foi convocado na época em que atuava pelo Corinthians, em 2017. Na sequência atuou no Egito, pelo Cruzeiro. Atualmente no Bahia.

    Imagem: Walmir Cirne/AGIF
  • 1 convocação

    São seis jogadores: Oscar (Shanghai SIPG), Gustavo Scarpa (Palmeiras), Camilo (Ponte Preta), Felipe Anderson (Porto), Andreas Pereira (Lazio) e Rafinha (PSG).

    Imagem: Divulgação/Instagram/Sipg_fc

Eu tenho colocado que levo muito em consideração o momento do atleta, o histórico dentro da seleção e a projeção futura. Um atleta de alto nível concorre em patamares elevados, então há atletas que não vieram, mas estão no nosso acompanhamento. E dentro desses três itens tem uma competição leal que tem que existir para elevar o nível técnico. E a partir daí são escolhas, que são a responsabilidade da atribuição do treinador

Tite, Sobre critérios de convocação na seleção

Xavier Laine/Getty Images

Rafinha e jovens vistos pela CBF

Rafinha Alcântara foi convocado pela última vez há dois anos, para amistosos na Inglaterra. Ele é campeão olímpico pela seleção de Rogério Micale em 2016, já tinha sido convocado por Dunga, mas só figurou na lista de Tite aquela vez. O que não significa que tenha saído do radar, ainda mais agora que se transferiu para o PSG — já são sete jogos pelo novo clube, mas sem sequência como titular até agora.

O excesso de problemas físicos dificultou a vida de Rafinha nos últimos anos, mas ele ainda é uma das esperanças da posição aos 27 anos.

Há outros nomes mais jovens no radar, como Reinier. Emprestado pelo Real Madrid ao Borussia Dortmund, ele ainda não se firmou na Alemanha, mas foi titular da seleção sub-24 num amistoso sábado (14), diante da Coreia do Sul. Fez até gol, mas carece de afirmação.

Marcos Antônio, também chamado de Marcos Bahia, é mais um nome. Formado no Athletico-PR e no Estoril, ele tem 20 anos e defende o Shakhtar Donetsk na Ucrânia. Foi titular nos três jogos da Liga dos Campeões até agora em um estilo mais área a área e menos armador, mas nas seleções de base joga de 10.

Mesmo sem histórico em seleção de base, Gabriel Sara também integra esta lista de alternativas. Aos 21 anos, joga no profissional do São Paulo com frequência desde o ano passado e virou titular com Fernando Diniz em 2020. Vem de gol marcado contra o Fortaleza na última rodada do Brasileirão e elogios.

Diante desse panorama é possível tirar uma conclusão: vivemos um período de carência de meias construtores brasileiros afirmados em alto nível na Europa. Não existe um De Bruyne verde-amarelo, para citar o belga que é referência na posição atualmente. Ou seja, há uma brecha de formação no futebol nacional que em último grau desafia a seleção brasileira a encontrar soluções.

Ricardo Nogueira/CBF Ricardo Nogueira/CBF

Opções "originais"

Divulgação/Mineirão

No Brasil

Nathan, do Atlético-MG, apesar do rodízio de titulares e das multifunções, cresceu com Sampaoli em 2020 como meia que pisa área e é uma alternativa. Outros jogadores que vivem boas fases e desempenham funções semelhantes são Vina, do Ceará, e Claudinho, do Red Bull Bragantino.

Sebastian Frej/MB Media/Getty Images

Na Europa

O Leeds, time dirigido por Marcelo Bielsa na Premier League, pagou R$ 150 milhões pelo meia brasileiro Raphinha esse ano. Ele fez três partidas e tem atuado mais aberto pela esquerda. João Pedro, do Cagliari, e Matheus Pereira, do West Bromwich também têm tido destaque recente.

As opiniões dos colunistas do UOL

Lucas Figueiredo/CBF

Marcel Rizzo

"Tite disse no começo do ano à France Football que faltava ao Brasil um meia de distribuição. E citou Bruno Guimarães como opção. A seleção, e o futebol brasileiro no geral, tem carência desse meia de criação que, na cabeça de Tite, pode se transformar em um jogador que faça duas funções, variando entre proximidade do primeiro volante e dos atacantes. Mas se achar um de criação, como Everton Ribeiro, pode ter dois jogadores revezando nas funções também. Problema é achar esse "10" agora"

Lucas Figueiredo/CBF

Danilo Lavieri

"A carência de um camisa 10 clássico é mundial. Vários times mudaram o seu estilo de jogo sem um armador "das antigas", com o Liverpool sendo o principal exemplo. Na seleção, Coutinho é uma das opções, mas ele não consegue repetir a boa fase que teve justamente no Liverpool. Everton Ribeiro é uma das melhores opções, mas acredito mais em uma mudança de formação, sem armador e com meio formado por atletas como Bruno Guimarães e Douglas Luiz, com Firmino sendo 9 ou 10."

Lucas Figueiredo/CBF

Perrone

"Precisamos nos livrar da imagem do "10" clássico. Aquele craque que desequilibrava jogos foi extinto. Atualmente, o meia precisa ser rápido, construir o jogo com passes curtos e ajudar na marcação. Nesse cenário não há fartura, mas nomes a serem trabalhados. Coutinho pode ser esse cara, mas falta regularidade. Paquetá parece nunca deixar de ser um projeto. Bruno Guimarães é excelente nome para ser lapidado. Reinier merece ser olhado com carinho. Hoje, escalar Neymar nesse papel é uma boa opção."

Daniel Apuy/Getty Images

Neymar de "número 1"

Quando assumiu a seleção brasileira logo após o tetracampeonato de 1994, Zagallo prometeu o resgate do futebol-arte e isso aconteceria a partir do jogador "número 1". Essa figura quase mística rondou o ambiente da seleção até depois da Copa da França e representa justamente o meia de ligação com o ataque, o armador, o típico camisa 10, o "médio construtor" de Tite.

Raí, Giovanni, Juninho Paulista, Rivaldo, Leonardo e até Denílson foram testados de "número 1", mas ninguém rendia o que Zagallo esperava. Era uma busca, como acontece de novo agora, mais de 20 anos depois.

Uma opção trabalhada nos bastidores da CBF é dar funções de camisa 10 ao camisa 10 da seleção. Tite entende que Neymar desequilibra mais quando parte do lado esquerdo — foram assim seus melhores momentos no Santos, no Barcelona e na própria seleção. No futebol francês, porém, ele atua por vezes em uma posição mais central e entrega bom rendimento.

Em PSG 4 x 0 Dijon, último jogo antes da lesão na coxa esquerda que também o tirou dos jogos da seleção, ele deu duas assistências, finalizou sete vezes, acertou cinco dribles e deu quase cem toques na bola, sendo nove decisivos, jogando centralizado, com Kean e Sarabia de atacantes, Rafinha aberto pela direita e Draxler mais recuado.

Lucas Figueiredo/CBF

Entre 29 nomes, Everton Ribeiro

Esta reportagem citou nominalmente 29 meio-campistas brasileiros. Isso mostra duas coisas: 1) como o futebol nacional é rico em possibilidades de diferentes níveis e idades; 2) como é valiosa a chance que Everton Ribeiro tem atualmente.

Reserva nas duas primeiras rodadas das Eliminatórias, ele somou 46 minutos contra Bolívia e Peru para merecer a oportunidade como titular diante de Venezuela e Uruguai — este, amanhã, às 20h. É apenas sua segunda convocação com Tite, em 12 no total. Fará o décimo jogo.

É muita felicidade. Infelizmente o Ney acabou machucado e tive essa honra de vestir a 10 da seleção, é um sonho de criança realizado. Graças a Deus também pude participar da jogada do gol, vai ficar marcado."

A sequência de jogos de Everton Ribeiro vai deixar para trás o argumento que põe Coutinho à frente pela rodagem com o grupo e adaptação ao sistema de jogo da seleção. É o que Tite deseja: "Toda a qualidade técnica que ele externou no Flamengo e vem repetindo conosco nos treinamentos nos faz ter confiança. Independentemente de onde for utilizado, Everton é criador."

O meia do Flamengo foi para a seleção pela primeira vez em 2014, logo após a Copa do Mundo, quando se destacava pelo Cruzeiro. Esteve na Copa América de 2015 e até jogou duas vezes, mas perdeu espaço com a transferência para os Emirados Árabes e passou longe da Copa da Rússia. A meta é o Qatar, quando terá 33 anos.

"Sonho em jogar uma Copa do Mundo e o que tenho que fazer é meu melhor no Flamengo, buscar sempre ganhar títulos para ser lembrado pelo Tite."

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