"Eu mudei"

Gerson afasta fama de indolente para ser o jogador que viabiliza o Flamengo de Jorge Jesus

Leo Burlá Do UOL, no Rio de Janeiro
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Talentoso, mas indolente

Nas categorias de base do Fluminense, ninguém falava do garoto Gerson sem arregalar os olhos. Ele é considerado, até hoje, um dos maiores talentos que saíram da cultuada escola de Xerém. Naquela época, dois adjetivos costumavam completar as definições sobre seu jogo. "Talentoso" era o primeiro. O adolescente tinha toque refinado na bola e pensamento rápido. Mas o problema era a segunda qualificação: "indolente", fruto de uma postura desprovida de energia do garoto, mimado por um clube que o tratou desde a infância como craque.

O meio-campista até rendeu boa grana ao Fluminense na negociação com a Roma. Em 2015, os italianos pagaram 16 milhões de euros, o equivalente a R$ 60 milhões à época. Mas em campo, Gerson nem teve tempo para entregar o que dele se esperava: disputou apenas uma temporada cheia pelo clube, a de 2015. Foi para a capital italiana no ano seguinte após só 49 jogos como titular.

O baque sofrido no futebol italiano foi grande. Não que faltasse categoria. Faltava um choque de realidade. Depois de jogos e jogos no banco, ele precisou parar, olhar e pensar o que precisava para sobreviver por lá. Foi aí que encontrou a tão pedida "intensidade".

É essa a versão evoluída que o Flamengo recebeu em seu retorno ao Rio de Janeiro. A "talentoso", some o "diferente". E é esse jogador diferente que falou com o UOL Esporte nesta semana sobre carreira, futebol e vida. Aproveite!

Na Itália, tinha muito tempo para pensar. Aí pensava que tinha de mudar. Não podia ser a mesma pessoa. Pedia para os treinadores para ficar no campo, para me ensinar algumas coisas. Pensei: "quero ser um grande jogador?". Não queria ser conhecido como alguém que jogou aqui e ali e não deu certo. Mudei minha cabeça

Gerson

Gerson, meio-campista do Flamengo

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O equilíbrio do time

Tão logo chegou, o técnico Jorge Jesus apontou que havia carência de volantes no elenco do Flamengo. O clube foi ao mercado e, para espanto de muitos, escolheu Gerson para preencher a lacuna. Quem se lembrava do jogador no Fluminense não entendeu como a revelação de Xerém funcionaria em tal função.

Na memória dos torcedores ainda estava aquele jovem que brilhava com a bola no pé, mas se desligava quando o jogo se afastava. Hoje escalado mais recuado, Gerson é o ponto de equilíbrio de um time muito ofensivo. Já jogou na direita, na esquerda e centralizado. Foi bem em todas e viabilizou uma escalação que conta não só com o trio Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol à frente, além de Everton Ribeiro e William Arão - ninguém que seja muito conhecido pelo poder marcação.

Esse tipo de desempenho já tinha florescido na Fiorentina na temporada 2018-19 do Calcio. Foram 36 partidas na Serie A, 27 como titular, com média de ações defensivas quase duas vezes maior do que no ano anterior. Não eram dados tão alardeados, mas que justificavam os R$ 43 milhões pagos pela diretoria rubro-negra.

"Quando jogava aqui, pensava que não tinha a capacidade de aprender a marcar. Quando comecei a me adaptar, fiquei feliz com meu rendimento", afirmou. "Meu canto preferido do campo é do lado direito, tenho mais possibilidades de tirar para dentro e finalizar. Mas na esquerda também me sinto bem."

Matteo Ciambelli/NurPhoto via Getty Images Matteo Ciambelli/NurPhoto via Getty Images

PVC: craque também joga sem a bola

"Craque do Flamengo nos anos 1980, o zagueiro Mozer fez carreira na Europa e pensa que há uma diferença entre o futebol jogado no Brasil e no velho continente: cobrança. "Aqui, continuamos à procura de um camisa 10", diz Mozer. O vício vem do tempo em que se discutia a posição do jogador e não sua função em campo. Gerson foi criado assim.

Nasceu para ser camisa 10. Viajou para a Itália e lá aprendeu que até mesmo um camisa 10 clássico, seja ponta-de-lança ou meia-armador, precisa exercer funções defensivas. Quando o time perde a bola, ele dá combate, ajuda a recuperar a posse, seja com o desarme ou apenas induzindo o adversário a errar o passe.

Gerson da Fiorentina era assim. Jogava como meio-campista, criador com a bola no pé, combatente sem ela. No Flamengo, fez partidas exuberantes no primeiro turno. Contra o Palmeiras, organizou o Flamengo desde o primeiro passe. Contra o Santos, fez a cobertura dos dois laterais, na direita e na esquerda. Gerson confirma o que Pato e Ganso desmentem: que todo jogador brasileiro evolui taticamente quando joga na Europa."

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

É craque? É operário?

Gerson subiu aos profissionais do Flu em 2015. Escalado pelo técnico Cristóvão Borges, fez sua primeira aparição no time de cima atuando (curiosamente) um pouco mais recuado. A fama na base do clube foi, aos poucos, fazendo com que Gerson fosse "empurrado" para frente, posicionando-se mais próximo dos homens de ataque. Em 63 jogos ao todo, marcou oito vezes, mas nunca convenceu totalmente.

Em 13 jogos pelo Flamengo, marcou uma vez, mas essa contagem não é a principal. O meio-campista tem se notabilizado pela capacidade de desempenhar diferentes funções no campo. Ele já jogou aberto pelo lado, criando jogadas pela lateral. Já entrou à frente de dois volantes, como o homem de criação. Foi escalado, também, ao lado de Arão, para garantir a estabilidade de um time tomado por jogadores com tino para o ataque. Como PVC citou acima, ele é o recheio que permite que o Flamengo funcione.

Só não pensem que essa tenha sido uma transição tranquila. Ainda mais quando distante de casa. Mas a experiência acabou realmente moldando seu jogo. "Eu jogava de forma diferente aqui. Achava que não precisava marcar, mas tive de me adaptar. Aceito a opinião de todo mundo. Por isso, as pessoas que falavam mal de mim estão começando a falar bem", disse. "Mas é difícil sair daqui, ainda mais sendo novo. É diferente ser um jogador jovem e já sair para um país diferente, uma cultura diferente, com futebol muito intenso. Lá é o futebol mais físico que tem."

Thiago Ribeiro/AGIF Thiago Ribeiro/AGIF

Um "mister" à espera

Foi esse Gerson que Jorge Jesus recebeu no Flamengo. Um meio-campista adaptado ao jogo que o português pretendia ver sua equipe praticar. Mesmo assim, o experiente técnico português ainda tinha o que oferecer ao jovem atleta. Gerson estava pronto para escutar e absorver.

O jogador não foge à regra do elenco rubro-negro e se derrete em elogios ao técnico, que foi o principal avalista pelo considerável investimento do clube por sua contratação.

"O 'mister' é muito inteligente. Quando ele bota o objetivo na cabeça, vai até o final. Ele não é só bom treinador, é uma grande pessoa. Está sempre aqui para estender a mão, se relaciona com os que jogam mais e os que jogam menos", pontuou.

Jesus, por sua vez, se deleita com seu reforço. Já disse não compreender como nenhum clube grande europeu "se deu conta" do jogador antes do Fla entrar em cena.

Não entendo como deixaram voltar da Itália. Não deram nada pelo Gerson. É o nosso "joker" [curinga]. É taticamente muito evoluído. Seja onde for, tem influência no jogo

Jorge Jesus

Jorge Jesus, técnico do Flamengo

Por seleção, ele jogaria nas onze

A emergente versatilidade de Gerson já fez de Jorge Jesus um fã. O meia flamenguista, agora, espera que valha também para conquistar outro "mister" badalado por aqui: Tite. Pensando em seleção, talvez ainda seja cedo. São apenas 13 jogos em sua volta ao Brasil e em um Flamengo em ascensão, quando tudo parece funcionar. Como reagirão a eventuais adversidades?

Apesar de estar em campo na derrota por 3 a 0 para o Bahia, o principal revés da era Jorge Jesus no rubro-negro até agora, ele ainda não enfrentou nenhuma grande crise, ainda não teve de se explicar por um jogo ruim. A torcida flamenguista, empolgada como se espera de quem lidera o campeonato, já fala em seleção. O meia, no entanto, sorri. E diz nem imaginar em qual posição o treinador do Brasil poderia usá-lo. E nem se importa: estaria às ordens para jogar onde fosse preciso.

"Estou pensando em continuar trabalhando e fazendo bem o que tenho de fazer no Flamengo para ter a oportunidade na seleção. Como faço várias funções aqui, não sei qual o Tite gosta mais. Não sei em que posição ele me enxerga. Onde ele me enxergar, vou trabalhar para fazer bem", disse.

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Comemoração virou marca registrada

"VAPO" é o nome que o próprio Gerson deu a sua comemoração característica. É esse gesto da imagem, em que ele cruza os braços em forma de "X" na altura do pescoço. Já ganhou a arquibancada e as redes sociais rubro-negras. A marca registrada nasceu de uma brincadeira e significa, para eles, algo como "vencer", "finalizar".

"Essa comemoração surgiu em uma conversa com um amigo. Ele disse que tinha de comemorar um gol fazendo esse gesto. Ainda estava na Itália quando ele me pediu. Acabei voltando ao Brasil, para o Fla, e assim que saiu o primeiro gol eu fiz. Fico feliz em ver torcedores e crianças imitando", afirmou

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Descrença em casa

A casa confortável e a vida sem privações econômicas são valorizadas por Gerson no seu retorno ao Rio. É uma condição conquistada à duras penas. Quando garoto em Nova Iguaçu, viu o sonho de ser jogador ser desprezado até por pessoas próximas. Não são memórias que trazem muito prazer.

"Havia muitos familiares que falavam que não ia dar certo. Falavam que era loucura. Que era algo que só dava certo para os que tinham dinheiro. Mas dessas coisas nem gosto de falar. Saber que a pessoa tem o seu sangue e não está muito feliz com o que está acontecendo na sua vida não é muito legal", afirmou.

"Mas hoje eu respeito. Se precisarem de mim para qualquer coisa, estarei lá para ajudar", completou.

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"Não se paga mal com mal"

Os sacrifícios da família Santos da Silva foram grandes - "Pode pensar em todos", observa Gerson -, mas Marcão, o pai, apostou todas as fichas no menino. Também teve que, por isso, enfrentar muita descrença.

"Meu pai teve de fazer muitas coisas, trabalhar em um monte de emprego. Às vezes, tinha de passar em porta de negócio para pegar dinheiro emprestado para eu ir para o treino. A gente sabia que a pessoa tinha, mas a pessoa falava que não tinha, não queria ajudar", afirmou o meia do Flamengo.

"Eu era pequeno, mas tenho tudo isso gravado na minha cabeça. As pessoas que não nos ajudaram hoje nos pedem ajuda. Mas a gente não paga mal com mal. A gente sempre ajuda", acrescentou.

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Caçador de pipas

Nem só de futebol vivia Gerson nas ruas da Baixada Fluminense. O meia tem uma outra paixão que vem de cedo: as pipas. Além de diversão, o brinquedo já foi uma via para o jogador arrumar trocados e ajudar com as contas da casa. Era o modo que tinha para todo o esforço do pai.

"Tem um cara lá até hoje que vende pipa. O dono da lojinha às vezes tinha de ir buscar umas pipas longe, aí eu ficava lá olhando. Ele pedia para o ajudar e me dava um dinheirinho. Eu entregava para meu pai ou até comprava algo para casa. Mas a pipa era uma paixão minha", recordou o rubro-negro. Mesmo que hoje possa comprar produtos mais sofisticados, as pipas ainda fazem parte da rotina do jogador. Quando está de folga, cercado por amigos da infância, é normal vê-lo com linha em mão, olhando para o alto, manipulando o brinquedo à distância.

É um momento em que as coisas ficam muito mais simples, e que a intensidade já não é mais pedida. Nessa hora, Gerson pode viver apenas com seu talento de criança.

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