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De atleta olímpica a servente de obras: "Sofri abusos no taekwondo"

Julia Vasconcelos competiu pela seleção brasileira na Olimpíada de 2016 - Reprodução/Instagram
Julia Vasconcelos competiu pela seleção brasileira na Olimpíada de 2016 Imagem: Reprodução/Instagram

Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

19/10/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A atleta do taekwondo Julia Vasconcelos disputou a Olimpíada do Rio 2016
  • Depois de abusos psicológicos do técnico, ela decidiu abandonar o esporte
  • Se mudou para os Estados Unidos onde trabalha como servente de obras e professora de luta
  • Julia teve dois episódios de depressão e vários de bulimia durante a carreira
  • Após a perda do pai, ela quer ficar mais perto da família. Para isso, pretende voltar ao Brasil em quatro anos

Julia Vasconcelos defendeu o Brasil pelo taekwondo nos Jogos Olímpicos de 2016. A lutadora de São José dos Campos foi a única de sua equipe a fazer parte da equipe brasileira, mas os custos da realização do sonho, para ela, não valeram a pena: a jovem de 27 anos alega ter sofrido abusos psicológicos e assédio moral por parte do treinador desde a infância.

Julia se mudou para Nova Jersey em 2018, largou as competições e, hoje, come o que tem vontade. Trabalha em dois empregos, que tomam 15 horas do dia dela: é servente de obra pela manhã e professora de taekwondo à noite. Nas poucas horas que restam, ela dorme. "Sou constantemente cansada, mas não tem outro jeito. Uma hora o corpo acostuma", diz.

A decisão de largar a mãe, a ex-noiva e o esporte foi tomada num repente, na virada do ano. Como ela já tinha o visto de atleta, precisou de apenas dois meses para vender o carro, os móveis e entregar o apartamento em que morava. Julia teve depressão em dois momentos da vida, sendo o último, pouco antes de se mudar, o mais severo. "Passei por uma cirurgia, coloquei cinco parafusos na mão e quando encontrava meu mestre, ele só falava sobre meu peso".

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

Da equipe, com quem ela passava mais tempo, afirma não ter tido qualquer apoio. Do treinador, nem uma palavra. "Tentei procurá-lo porque precisava de ajuda, eu estava com depressão. Um funcionário da Liga [Valeparaibana de Artes Marciais] tentou contato com ele nesse dia e ele falou que só era para eu procurá-lo quando ele me ligasse. Me senti muito sozinha. Por sorte, minha mãe e minha família ficaram ao meu lado".

Cobranças indevidas e punição a quem não apoiasse políticos

Ali foi o fim de uma situação recorrente desde os seis anos de idade de Julia, quando começou a treinar. "Eu sempre vi coisas erradas acontecendo ali. A última delas foi meu ex-técnico pedir uma porcentagem do meu salário. Eu não concordava com isso e não tinha espaço para falar sobre. A associação alegava que essa parte do salário era guardada para ajudar atletas que não tivessem dinheiro para competir. Mas eu sabia muito bem que não era esse o destino do dinheiro".

"Em 2016, época de Olimpíada e de eleições municipais, minha mãe se candidatou a vereadora em São José dos Campos. Eu não pude apoiá-la. Sabe por quê? Tinha um vereador que apoiava a equipe, a gente viajava com dinheiro da emenda dele. Só que, em troca, a gente tinha que explicitamente apoiá-lo. Queria apoiar minha mãe e não deixaram. Ouvi que se eu não apoiasse o vereador, teria de cair fora".

Segundo Julia, sempre houve ganho de dinheiro em cima dos atletas. "O preço do ônibus que nos levava às competições era R$ 30 e meu treinador cobrava R$ 60 da gente. A camiseta da equipe, que era um direito dos atletas, era vendida por ele. Se a gente negasse contribuir com essa grana, nós recebíamos punições: éramos proibidos de participar das competições, por exemplo. Chegou uma hora que não deu mais para mim".

A última competição da qual Julia participou antes de ter de operar a mão foi o mundial da Coreia em 2017. Ela conta que, além de todos os abusos psicológicos do técnico, ele também tentou demovê-la da ideia de operar —mesmo com todos os médicos recomendando a cirurgia. "Quando voltei, ele ficou fazendo graça, dizendo que eu precisava perder peso, que era indisciplinada. E aí comecei a ficar deprimida. O treino, que era meu melhor momento do dia, deixou de me dar prazer".

Compulsão alimentar e bulimia

Julia foi titular da seleção brasileira por quatro anos e nunca reprovou em uma pesagem. Ela competia pela categoria de até 58 quilos, mesmo medindo 1,75 m. A magreza exigida dentro da categoria teve altos custos: Julia desenvolveu bulimia durante a adolescência. "Quando faltavam cinco ou seis dias para a competição, eu ia ao shopping, comia o que tinha vontade e, quando chegava em casa, colocava tudo para fora", conta. "Às vezes, eu pegava o carro de madrugada e ia ao supermercado só para ver comida: passava a noite olhando para as barras de chocolate e pizzas".

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram

"Quando eu viajava para competir, comprava quilos de chocolate e bolos. Depois da pesagem, me acabava de comer. Me pesava todos os dias, todos. Quando ia chegando perto da competição, eu apertava a dieta. Dias antes, eu sobrevivia com, mais ou menos, 600 calorias por dia —comia só uma clara de ovo e um pouquinho de frango desfiado", conta.

Para o dia da pesagem, quando faltavam ainda alguns gramas para que a atleta se encaixasse nos 57 quilos, ela desidratava "em saunas três vezes por dia" ou em banheiras com água quentíssima que, por pouco, não queimava a pele. A cada banho, Julia eliminava dois quilos. "Na Olimpíada, fiquei 20 horas sem tomar qualquer líquido".

Com a depressão, veio o medo do futuro. A atleta fez faculdade de nutrição, mas não concluiu o curso. "Eu sofria porque estava odiando treinar, só que tinha medo, pensava: 'Se eu não fizer isso, vou fazer o quê? Com o que vou trabalhar?'. Então, um amigo que mora nos Estados Unidos sugeriu que eu passasse um tempo aqui. E eu realmente precisava me afastar. Não tenho vergonha alguma de ser uma ex-atleta olímpica que hoje trabalha em obra", diz.

Julia está feliz com a vida nova, mas garante que a moradia nos Estados Unidos tem prazo de validade. "Quero voltar para o Brasil em, no máximo, quatro anos. Eu gosto daqui, tenho amigos, mas bate uma solidão às vezes e é bem difícil ficar longe da minha família. Meu pai morreu quando eu tinha 11 anos e foi ele quem me colocou no taekwondo. Preciso estar perto das pessoas que amo".

Nos poucos momentos de folga, o prazer de Julia deixou de ser o esporte. Agora, ela pega a moto, coloca uma música e viaja por 1h30 até a praia mais próxima. "Aqui me sinto livre. Nada paga essa liberdade."

Liga investigada pelo Ministério Público

Em agosto de 2018, o Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito para investigar possíveis irregularidades nos repasses e nas prestações de contas entre a Prefeitura de São José dos Campos e a Liga Valeparaibana de Artes Marciais, pela qual Julia lutou.

A investigação faz parte de um inquérito que já apurava uma suposta cobrança de pedágio aos alunos. O valor arrecadado seria dividido entre vereadores. Procurado pela reportagem, o Ministério Público explica que o processo corre em segredo de Justiça mas que "estão sendo feitas análises técnicas de informações contábeis e financeiras referentes ao que foi denunciado e também ao que foi solicitado pela Promotoria às partes envolvidas. A investigação está em curso".

Outro lado

O advogado da Liga Valeparaibana de Artes Marciais Carlos Eduardo Rennó afirma "que [associação e técnico] jamais receberam qualquer tipo de vantagem ilícita ou praticaram qualquer ato em desfavor de seus atletas, equipe e/ou colaboradores. Ao contrário do que injustamente se tenta atribuir a eles, o que se vê dessa parceria é o brilhante trabalho realizado em prol ao esporte e a cultura na cidade de São José dos Campos, região do Vale do Paraíba e Litoral Norte".

"Trabalho que, dentre as diversas medalhas em competições e circuitos nacionais e internacionais, também possibilitou a classificação de jovens atletas do Vale do Paraíba e região para os Jogos Olímpicos, o que demonstra e ratifica a seriedade dos trabalhos realizados por ambos. As alegações feitas por essas pessoas más intencionadas têm o simples intuito de macular a imagem da Associação e do profissional do esporte, relacionando-os a supostas práticas as quais carecem de quaisquer provas".

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