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J. Ventura crê em bom trabalho no Santos e vê amadurecimento no Corinthians

Jair Ventura trabalhou como técnico no Corinthians - Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians
Jair Ventura trabalhou como técnico no Corinthians Imagem: Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

26/02/2019 09h39

Premiado técnico revelação do Campeonato Brasileiro de 2016, Jair Ventura tirou o Botafogo da zona de rebaixamento e levou à Taça Libertadores. Em 2017, o Glorioso chegou de forma surpreendente às quartas de final da competição internacional. Após fim de ano ruim, o 2018 que se vislumbrava animador teve números decepcionantes no Santos e no Corinthians. O Fluminense chegou a cogitá-lo para assumir a equipe neste início de 2019. Não se confirmou e o treinador, na primeira pausa da carreira, recebeu o "Lance!" em seu apartamento para uma conversa franca sobre os trabalhos e as polêmicas. Nesta primeira de três partes da entrevista exclusiva, ele lembra sondagens recebidas, o constrangimento no Timão e lamenta não ter tido continuidade nas equipes paulistas.

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Por que não acertou com o Fluminense?

Foi um namoro. A gente conversou, mas não teve convite oficial. Seria um prazer trabalhar num gigante não só do futebol carioca, mas mundial. Quem sabe em breve. Hoje, o clube está bem servido com um treinador (Fernando Diniz) e com um futebol muito bacana, que todo mundo gosta de ver, admira. Torço muito para que possa dar certo, ainda mais com a chegada do Ganso, a volta do Pedro. Vem fazendo um Carioca grande, um time competitivo, envolvente. Desejo sorte para ele e todos do Rio.

Teve outras propostas neste período pós-Corinthians?

Teve, mas não gosto de revelar de quem. Foram dois times da Série A do Brasil, depois de sair do Corinthians. Mas preferi esperar. Opção minha de não escutar, nada financeiro. Foi uma pausa. Quando saí do Santos, eu havia dito que não ia trabalhar. Veio a proposta do Corinthians, que estava num momento difícil, de muitas mudanças - concretizou a 11ª contratação, tanto que meu contrato era até o final de 2019, não 2018 -. Teve a Copa do Brasil em que batemos na trave (vice). Em dois anos de carreira, disputar a final da Copa do Brasil, e ali teve o VAR, que eu sou muito a favor e sigo sendo, mas acho que não foi a melhor interpretação (o gol de Pedrinho anulado), mas vida que segue. Ter disputado uma final contra o Mano Menezes, disputar um Corinthians x Flamengo é demais, nossa torcida botar 43 mil num treino de tarde... infelizmente não teve continuidade, mas desejo sorte aos companheiros que ficaram.

Você teve um início de carreira meteórico, se consolidou em 2017, mas, em 2018, os números não foram bons. Que análise pessoal você faz do ano passado?

Vamos nomear os trabalhos. No Botafogo, excelente. Por quê? Um feito que soube esses dias: nenhum outro time, desde 2003, havia entrado na zona de rebaixamento e classificado para a Libertadores no mesmo ano. E quando se faz um trabalho excelente, excepcional, você não vai fazer sempre. E 2017 foi melhor ainda. Levamos o time à semifinal da Copa do Brasil, jogamos melhor contra o Grêmio (quartas de final da Libertadores), todo mundo falou. Fizemos um grande ano. E o trabalho no Santos foi bom. Os números não foram bons, mas os objetivos, sim. Disputar quatro competições e ir bem em três: na Libertadores, classificado em primeiro no grupo: excelente; na Copa do Brasil, quartas de final; e, no Paulista, saímos na semifinal, para o Palmeiras, ganhando um jogo com quatro atacantes com media 18, 19 anos. Caímos nos pênaltis. A competição que tínhamos chance de recuperação, como nós mesmos já tínhamos feito em 2016, seria o Brasileiro. Todo mundo faz, todo mundo deixa o Brasileiro porque pode recuperar. No mata-mata não tem recuperação. Por conta dos mata-matas, entramos com times alternativos no Campeonato Brasileiro. No Paulista porque, quando cheguei lá, tinha 44 jogadores. Botei todos para jogar e isso pode custar pontos num campeonato competitivo como o Paulista. Mas poderia, assim, saber o que tinha na mão para, no momento mais decisivo, poder usar. Sem contar os reforços. O percentual sem o Sánchez, desde que ele chegou, é de 30%. Tem jogadores que são muito importantes. Fiquei a duas rodadas de estreá-lo. Fiquei triste por não ter completado um ciclo, sem saber se poderia ter feito um trabalho excelente, se poderia ter chegado numa final de Copa do Brasil, como foi no Corinthians. Quem sabe campeão da Libertadores com os reforços que estavam chegando, mas não dá para saber porque foi interrompido. E no Corinthians foi um período muito curto. Quando eu cheguei, todo mundo falou que "o Jair é doido", era um momento complicado, estreia com Palmeiras, fora, depois Flamengo, também fora. A gente perde de 1 a 0 para o Palmeiras, eu não mexi nada, tive um dia de treino, fizemos bolas paradas, e depois fomos trocando o pneu com o carro andando. Eliminamos o Flamengo, apesar de muito criticados no jogo de ida, no Rio, mas fizemos valer nosso fator casa e vencemos o Flamengo. Batemos na porta do título da Copa do Brasil e isso foi o divisor de águas. Se a gente bate campeão, de repente eu ainda estaria no Corinthians. E você sai para um treinador que volta depois de três títulos em dois anos. Mais do que normal a volta do Carille. Você falou da minha ascensão, a dele marca mais ainda com três títulos. Então essa foi a minha concepção de 2018. Não dá para comparar com o excelente. Perder uma final é ruim? É. Mas eliminar 78 times não é tão ruim. Palmeiras, Inter, Grêmio... várias equipes fortes ficaram pelo caminho. Foi um ano de muito aprendizado. Por ser jovem, aprendemos cada vez mais. Não faria nada diferente. Adorei trabalhar em São Paulo. E outra coisa que fica evidente: se o trabalho não fosse bom no Santos, o Corinthians não ia me ligar. Um arquirrival ligaria? Comparado com no Botafogo, não foi bom. Mas não foi tão ruim, se comparado com situações normais.

Você chegou a dizer que precisava de um tempo. Afinal, olhando para trás, aceitaria ou não um novo trabalho tão rapidamente, no caso o Corinthians?

Aceitaria porque fiquei muito perto de um título. Não é o ideal, mas você não pode falar "Ah, não faço isso ou aquilo."

Mas se arrepende de ter dito que não aceitaria?

Não falei que não aceitaria. Falei que queria descansar. Até porque sabia que, se fosse irrecusável, aceitaria. Não sou treinador que não trabalha pegando no meio do ano. Pode buscar que nunca falei isso. Se tivesse falado, diria que me arrependo. Mas falei, na época, que queria descansar. Chegou a proposta e aceitei. E vou continuar assim. O ideal é começar desde o inicio do ano, logicamente, fazendo pré-temporada, que são dez, 15 dias, sete de treino, não é essa maravilha toda. Mas uma oportunidade como essa... você aprende com os amigos também. Tive treinadores trabalhando comigo que receberam propostas de outros clubes, não foram, e acabaram demitidos com duas, três rodadas, acontece. É muito difícil. Você vai para um time que é uma situação, chega lá e muda tudo. É muito difícil cravar qual o momento de aceitar e o de não aceitar. Envolve uma série de coisas não só do campo.

Você está falando do Santos?

Ah, do Santos... eu nunca expus, não gosto, coisa minha, não sei se vou mudar. Mas depois que eu saí veio tudo à tona. Não é o ideal, mas não tiro minha parcela de culpa. Poderia ter feito trabalho excelente como o do Botafogo? Poderia. Acho que a expectativa do clube que te tira pagando a multa era essa, mas nunca se vai fazer, logo em seguida, um trabalho excelente, inédito. É uma vez só. Pode repetir, mas é muito difícil. Tanto que, desde 2003, ninguém conseguiu esse feito. São difíceis. Tem a arrancada do Cuca com o Fluminense (2009), o Flamengo, que bateu campeão no mesmo ano. E em todos os trabalhos meus eu não tive como contratar, usar jogadores que pedi, ter um grupo. Sempre momentos delicados de três gigantes. No Corinthians, grande parte do elenco saiu, tanto que o Andrés Sanchez deixou claro que precisava repor esses jogadores. No Santos, perdemos 50% dos gols. Lucas Lima e Ricardo Oliveira foram responsáveis por esse número no ano anterior, e saíram. E eu perco o Bruno Henrique, esse jogador fantástico, com seis minutos do primeiro jogo. E eu fui lá, buscando meninos, lançando jovens, o Rodrygo foi a venda que mais rendeu para um clube brasileiro, o Pituca que pouca gente conhecia, estava no Santos B... então tem coisas boas. Mas, de repente, não foi excelente.

No Corinthians, o retorno do Carille sendo falado com você ainda no comando do time. Ficou uma situação constrangedora?

Lógico. Ainda faltavam muitos jogos, mas ali eu vi o tamanho da minha maturidade, do meu profissionalismo. Mantive os treinos, a postura, pode perguntar aos que ficaram. Levei até o final. Foi um momento difícil, de muito amadurecimento e profissionalismo já que eu tinha contrato em vigor, e assim eu fiz até o último minuto.

Você foi muito criticado pela pouca criação que o Corinthians teve contra o Flamengo no Maracanã, pela Copa do Brasil. O que houve ali?

Já expliquei: tivemos dificuldade. Escutei muita coisa dizendo que "a ordem do treinador foi não passar do meio-campo". Em nenhum momento. Tivemos muitas dificuldades nesse jogo. Não acertamos nenhum chute no gol. Verdade, mas tivemos duas chances próximas. Um chute cruzado, outro que o Clayson entrou cara a cara também e acabou chutando para fora. Tivemos muita dificuldade, o Flamengo marcou muito fortemente a nossa saída de bola, e estávamos com dificuldade de sair dessa pressão. Mas no jogo da volta conseguimos, vencemos e obtivemos a classificação.

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