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"Caso Levir" repete inconsistência de Modesto, que cede sob pressão

Modesto Roma coleciona situações em que recua após pressão no Santos - Ivan Storti/SantosFC
Modesto Roma coleciona situações em que recua após pressão no Santos Imagem: Ivan Storti/SantosFC

Samir Carvalho

Do UOL, em Santos (SP)

21/10/2017 04h00

O caso do técnico Levir Culpi, demitido e depois readmitido em poucas horas no Santos após apelo dos jogadores, mostra a repetição de uma inconsistência do presidente Modesto Roma. Já no fim de seu mandato e candidato à reeleição, o cartola mostrou em diferentes situações que cede sob pressão, principalmente se o contexto envolver o grupo de jogadores.

Não foi a primeira vez, por exemplo, que Modesto Roma decidiu o futuro de um treinador a pedido do elenco. Em 2015, Marcelo Fernandes era interino e seguiu no clube após um apelo dos atletas. O clube paulista negociava com diversos nomes na ocasião e estava praticamente acertado com Dorival Júnior, mas o mandatário achou melhor ouvir o conselho dos jogadores e recuou na contratação de um nome mais experiente para o cargo no momento.

“Fui ao vestiário e vi o respeito do grupo pelo Marcelo Fernandes. Pensamos em nomes. Falei em alguns nomes para vocês. O nome do Marcelo é um nome que tem tido uma ressonância forte. E acho que não podemos ser surdos. É essa a questão", contou o presidente à época, deixando clara a influência do grupo. 

Marcelo Fernandes foi efetivado e conquistou o título paulista, mas após início ruim no Campeonato Brasileiro o Santos foi atrás de um treinador mais experiente. Oswaldo de Oliveira estava contratado, mas Modesto Roma recuou de novo. Desta vez, após pressão do Conselho Gestor do clube. Com o respaldo do estatuto do clube, que determina que qualquer contratação precisa ser aprovada pelo órgão, Oswaldo de Oliveira foi vetado por unanimidade entre os integrantes do colegiado.

“Eu sei que o Dagoberto Santos (superintendente do clube) estava no Rio de Janeiro e o contrato estava assinado. Tanto que o Dagoberto disse o seguinte ao Modesto: 'Como eu faço com o contrato assinado aqui?'. Não foi nada contra o Oswaldo. Era o nome dele que não servia para o clube. Naquele momento não seria bom. Eu sei que estava assinado. Ele tinha acabado de cair no Palmeiras e perdido o título paulista para o Marcelo Fernandes”, afirmou José Renato Quaresma, integrante do Comitê Gestor do Modesto na ocasião e hoje candidato a vice-presidente do Santos pela oposição.

Modesto também recuou no caso Eric Faria

Além das situações envolvendo treinadores, Modesto Roma recuou no “caso Eric Faria”. Depois da polêmica eliminação do Santos para o Flamengo, na Copa do Brasil, o dirigente alegou publicamente ter provas de que o repórter da TV Globo havia interferido na decisão do árbitro Leandro Vuaden. No jogo em questão, o juiz anotou um pênalti para a equipe paulista e mudou de ideia depois de mais de um minuto. Inicialmente, a diretoria alvinegra alegou que essa alteração tinha acontecido por ação de Eric Faria, que estava perto do campo a trabalho. 

Logo após o jogo, o Santos apresentou um ofício à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e chegou a pedir anulação da partida. Também montou um dossiê com elementos como o depoimento de um torcedor que estava em um camarote atrás da posição de Eric Faria.

Como nenhuma das provas apresentadas pelo Santos era indubitável, o STJD acabou denunciando Modesto Roma Júnior, presidente da equipe paulista, por acusação sem provas. O presidente santista recuou e, por meio de seu departamento jurídico, disse ter avaliado melhor o caso, adotando postura menos contundente sobre a ação de Eric Faria. “O Santos reconhece que não houve interferência externa no lance. O clube apurou o caso e chegou a essa conclusão, por isso retirou o pedido de impugnação da partida”, disse o advogado santista no julgamento, Márcio Andraus.

Na réplica, porém, a Procuradoria do STJD alegou que Modesto tinha dado entrevistas a programas de TV colocando o repórter em xeque. Citou, inclusive, uma participação do dirigente ao vivo na “ESPN Brasil”. O julgamento passou a ser, então, uma discussão sobre a situação do dirigente no momento em que o ofício foi emitido – ele estava nos Estados Unidos como chefe de delegação da seleção brasileira feminina.

Levir estava demitido após o jogo, mas elenco falou mais alto

Na última sexta, a inconsistência de Modesto voltou a aparecer. O dirigente decidiu demitir Levir no inicio da madrugada, logo após o empate do Santos contra o Sport. Pela manhã, ele definiu a situação em reunião com os integrantes do Comitê Gestor. Minutos depois, em entrevista coletiva na Vila Belmiro, ele disse que o treinador corria riscos e criticou até vulnerabilidade do time em campo. 

Mas não foi apenas a parte tática do time que causou a insatisfação da diretoria com Levir Culpi. Eles não gostaram do treinador ter utilizado o ano eleitoral do clube para justificar o empate contra o Sport. “É normal a preocupação dele (declaração de Levir sobre política). Eu não faço a gestão do clube preocupado com eleição. Não dá para fazer. Se eu fizesse, seria uma contradição minha”, disse.

A decisão pela demissão foi tomada e o assessor de Levir Culpi, Adriano Rattman, chegou a postar no Facebook que o treinador havia caído. Pouco tempo depois, a publicação foi apagada - ele alega ter se baseado apenas em notícias divulgadas em veículos de imprensa como o UOL Esporte

Por tudo isso, Levir estava demitido. Modesto, no entanto, foi convencido pelo elenco a manter o treinador no cargo. Eles alegaram que o grupo estava fechado e compromissado a buscar o título brasileiro ou, no mínimo, a vaga na Copa Libertadores da América de 2018. A mobilização começou no ônibus que levava o grupo de Congonhas, em São Paulo, até Santos. Foi ali que os atletas ficaram sabendo da demissão de Levir e decidiram lutar pela permanência do técnico. Eles conversaram com o dirigente no CT Rei Pelé e conseguiram, mais uma vez, convencê-lo. O treinador, diga-se, ficou bastante emocionado com o gesto.

Nas redes sociais, a torcida santista ficou revoltada com a decisão de Modesto Roma em recuar na demissão de Levir Culpi. Na madrugada de quinta para sexta-feira, a Vila Belmiro foi pichada com palavras de ordem contra alguns nomes do elenco e o próprio cartola. "Presidente frouxo”, dizia a mensagem, justamente por conta da sua atuação em situações de pressão.

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