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Árbitro muda texto e inclui racismo em súmula de jogo Grêmio x Santos

Do UOL, em São Paulo

29/08/2014 10h50

Após ter ignorado o tema na primeira versão da súmula, o árbitro Wilton Pereira Sampaio (Fifa/GO) fez um adendo nesta sexta-feira (29) e incluiu no relatório do jogo Grêmio x Santos, válido pela Copa do Brasil, as ofensas racistas da torcida gaúcha ao goleiro Aranha. O incidente aconteceu na última quinta-feira (28), na Arena Grêmio.

“Informo que ao chegar ao hotel, advindo do estádio, por volta das 23h50, tive conhecimento através da imprensa que durante a partida existiram atos de racismo oriundos da torcida do Grêmio direcionados ao goleiro da equipe do Santos F.C., Sr. Mario Lúcio Duarte Costa, nº 1. Relato que aos 41 minutos do segundo tempo, durante uma paralisação do jogo, dois atletas que se encontravam no banco de reservas da equipe do Santos, nº 7, Sr. Robson de Souza e nº 10, Sr. Gabriel Barbosa Almeida, me relataram que o goleiro da sua equipe estava sendo vítima de atos de racismo, momento em que me dirigi até o referido atleta, o mesmo confirmou tal fato. Contudo, nenhum integrante da equipe de arbitragem ouviu ou presenciou tais atos. Após esta paralisação o jogo teve prosseguimento normal sem qualquer relato de outro atleta”, escreveu Pereira Sampaio.

A versão original da súmula ignorava o incidente, mas citava episódios como um rolo de papel higiênico arremessado no gramado e a expulsão do técnico do Grêmio, Luiz Felipe Scolari, que foi alijado da partida por ter reclamado de forma incisiva durante o intervalo.

Com base no adendo, o Grêmio deve ser denunciado. “O clube poderá responder por infração ao inciso do artigo 243-G do CBJD [Código Brasileiro de Justiça Desportiva]”, disse Paulo Schmitt, procurador-geral do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), ao jornal “Zero Hora”.

O artigo 243-G fala sobre “praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”. As penas possíveis vão de perda de mando de campo até exclusão da competição.

O Grêmio já foi multado neste ano por causa de atos racistas de seus torcedores. Na decisão do Campeonato Gaúcho, o zagueiro Paulão, do Internacional, foi vítima do mesmo tipo de ofensa. O time tricolor teve de desembolsar R$ 80 mil por causa disso.

O caso de Aranha aconteceu no segundo tempo do jogo da última quinta-feira – vitória do Santos por 2 a 0 na partida de ida das oitavas de final da Copa do Brasil. Imagens da “ESPN” deixam clara a manifestação de torcedores do Grêmio, e a equipe do litoral de São Paulo fala inicialmente em pleitear punição apenas a essas pessoas.

“Caráter é tudo! Se não há homens de bem e pessoas de caráter, há uma contaminação na política, no trabalho, nos eventos e, claro, na vida. É preciso inibir esse tipo de ato, pois se não o fizermos, estamos, de certa maneira, concordando com isso”, disse Aranha depois do jogo.

Casos de racismo em estádios gaúchos se repetem

  • Fernando Santos/Folha Imagem

    2006: Antônio Carlos x Jeovânio

    Em partida realizada no estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, um caso de racismo ficou marcado na história do futebol gaúcho. O zagueiro Antônio Carlos, que defendia o Juventude, fez sinais apontando para pele após acertar uma cotovelada no volante Jeovânio, do Grêmio, e ser expulso. O jogador tentou se justificar, pediu desculpas, mas jamais teve o perdão do marcador gremista.

  • Wander Roberto/VIPCOMM

    2011: Zé Roberto é vítima no Olímpico

    Na final do Gauchão de 2011, o meia Zé Roberto denunciou atos racistas vindos da torcida do Grêmio. Segundo ele, os aficionados imitavam macacos a cada toque na bola durante o aquecimento. O relato do jogador ainda revelou que, segundo colegas de profissão, tal situação é 'normal' no Estado. Ao deixar o clube, Zé também disse que seu filho sofreu com racismo em uma escola de Porto Alegre.

  • Nabor Goulart/Agência Freelancer

    2013: Vanderlei, do Caxias, sofre em NH

    O atacante Vanderlei, do Caxias, foi alvo do mesmo tipo de injúria racial no duelo entre sua equipe e o Novo Hamburgo pelo Gauchão de 2013. Quando tocava na bola, via os aficionados imitarem macacos nas arquibancadas do Estádio do Vale. O árbitro Jean Pierre Gonçalves de Lima relatou o fato em súmula, o Nóia foi julgado e a pena foi uma multa de R$ 10 mil.

  • Fabio Braga/Folhapress

    2014: Árbitro tem carro coberto por bananas

    No duelo entre Esportivo e Veranópolis, em Bento Gonçalves, pelo Gauchão, o árbitro Márcio Chagas da Silva foi chamado de macaco, safado e imundo. Depois, ao ir até seu carro para deixar o estádio, viu que o veículo havia sido depredado e coberto por bananas. Julgado, o Esportivo perdeu pontos e acabou rebaixado. Chagas abandonou o apito e atualmente é comentarista de rádio e televisão.

  • Pedro Antunes/Divulgação assessoria imprensa Pelotas

    2014: Goleiro é xingado em Pelotas

    Reiterando a 'normalidade' de casos de racismo no interior do Estadol, o goleiro reserva do São Paulo-RS foi vítima de xingamentos durante o aquecimento no duelo contra o Pelotas. Lúcio foi chamado de 'preto vagabundo, macaco' entre outras colocações mais graves. O responsável foi detido e impedido de comparecer em estádios durante partidas do Pelotas pelos próximos 720 dias.

  • Vinícius Costa/Agência Preview

    2014: Paulão 'encara' torcedor no Gre-Nal

    Ao deixar o gramado da Arena do Grêmio após a vitória do Inter por 2 a 1 na primeira partida da final do Gauchão deste ano, o zagueiro Paulão viu um torcedor imitar um macaco, fazendo ofensas racistas das cadeiras do estádio. Prontamente, o robusto defensor 'encarou' o aficionado rival e chamou para briga. O torcedor fugiu. Paulão não registrou queixa e o caso gerou multa de R$ 80 mil ao Grêmio.

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