Topo

Futebol


Estudo sobre violência no futebol nacional indica 2012 como ano com mais mortes na história

Compreensão da violência entre torcidas inspira livro do sociólogo Mauricio Murad - Mario Ângelo/Sigmapress/AE
Compreensão da violência entre torcidas inspira livro do sociólogo Mauricio Murad Imagem: Mario Ângelo/Sigmapress/AE

Bruno Freitas

Do UOL, em São Paulo

17/10/2012 06h00

São apenas nove meses concluídos, mas 2012 já desponta para o estudo da violência no futebol brasileiro como ano com maior número de mortes. O levantamento é do sociólogo carioca Mauricio Murad, que se dedica há duas décadas à compreensão social de incidentes envolvendo torcidas e que acaba de lançar um livro a respeito do tema.

Até o final de setembro, o Brasil registra 17 mortes comprovadamente relacionadas a conflitos entre torcedores. No entanto, segundo Murad, a tendência é que a estatística complete o ano com mais óbitos registrados.

NÚMEROS DO ESTUDO

O estudo do sociólogo Mauricio Murad foi produzido ao longo de dez anos, entre 1999 e 2008. Neste período foram registradas 42 mortes em incidentes envolvendo brigas de torcidas, portanto, com média de 4,2 óbitos por ano [primeira colocação mundial neste período, à frente de Itália e Argentina].
DETALHES:
- 5,6 mortes de média nos últimos cinco anos do estudo
- 7 mortes de média nos últimos dois anos do estudo
- 2009 (com o estudo já concluído): 9 mortes
- 2010 (com o estudo já concluído): 12 mortes
- 2012 (até setembro): 17 mortes

"Podemos dizer que 2012, somente até o final setembro, ainda com um trimestre pela frente, tem comprovados 17 mortos. Nunca se matou tanto torcedor no Brasil como em 2012. Isso porque só contabiliza como morto aquele homicídio cujo inquérito policial aponta consequência de briga entre torcidas organizadas. Não tem achismo aí. O número pode aumentar ainda, pois temos cinco possibilidades de óbitos, em inquéritos que não foram concluídos, mas cujos sinais apontam mortes em conflito de torcida. Pode aumentar de 17 para 22", afirmou o sociólogo, autor de "Para entender a violência no futebol", da Editora Benvirá.  

Os dados acima não constam na obra recentemente lançada pelo sociólogo, cujo período de análise se restringe a dez anos, entre 1999 e 2008. Mas já neste período Murad destaca o crescimento exponencial de casos que terminam em mortes no embate entre torcidas [ver tabela acima].

Na pesquisa, o especialista detecta o fenômeno de descentralização de casos de metrópoles rumo a capitais de médio porte, que antigamente não figuravam com relevância no mapa de incidentes. Murad trata especificamente a cena em Goiânia e Fortaleza como alarmantes, mas ressalta que os números acompanham índices gerais de violência nestes locais: "As duas cidades apresentam índices altíssimos de violência no futebol. Mas estes números vêm acompanhando um altíssimo grau de violência no geral, com avanço em agressão a mulheres, deficientes, agressão sexual, assassinatos de gays".

A obra do sociólogo fala ainda sobre a tendência atual de infiltração do tráfico de drogas em torcidas organizadas e descreve como as facções operam internamente, às vezes com hierarquia de moldes militares, com pelotões e destacamentos, ou em padrões mafiosos, dividida em "famílias".

  • Reprodução

    Capa do livro de Mauricio Murad

Murad ainda critica a passividade do estado em relação à desvantagem na contenção da violência no futebol. O autor sugere uma articulação nacional que integre diferentes esferas de atuação pública.

"Vejo necessário um plano estratégico nacional. O Rio já avançou muito nisso, diante da demanda recente, mas o Nordeste, por exemplo, ainda está extremamente atrasado. Você vê casos de torcedor entrar armado no estádio, passar pela roleta armado, sem nenhum tipo de controle. É preciso que exista uma rede entre as policiais do país, em ligação com órgãos da Justiça, do Ministério Público de cada estado. Tudo com a articulação do Ministério Esporte e o da Justiça", opina.

"Eu já ofereci estes estudos a autoridades. É preciso que elas assumam suas obrigações constitucionais, na luta para redução destes dados dramáticos de insegurança e agressão no futebol brasileiro", acrescenta.

O estudioso sugere no livro um processo que combine punição, prevenção e reeducação. O sociólogo fala em trabalho de inteligência na contenção de casos e joga luz especificamente sobre a necessidade de atuação na internet para a prevenção de conflitos.  

"A internet tem que ser monitorada. O rastreamento eletrônico já provou ser um sucesso. E tem legislação para isso, a lei do crime organizado, de 1995. Ela permite o rastreamento de redes sociais, a quebra sigilo telefônico e eletrônico. Basta um órgão policial solicitar ao juiz, e, se ele entender como um ato necessário, autoriza. Existem as delegacias de crimes eletrônicos. É uma atuação mais do que necessária para que se desmonte esses grupos delinquentes", argumenta.

Sociólogo formado pela UFRJ, onde criou o núcleo de sociologia do futebol em 1990, Murad atualmente é professor titular da Universidade Salgado de Oliveira (Universo), em Niterói. O acadêmico trabalhou na Uefa por dois anos e meio, durante a década de 90, em estudos sobre a violência de torcidas em 16 países filiados à entidade europeia.

ESPECIALISTA CRITICA ABORDAGEM PADRÃO DA MÍDIA NA COBERTURA DA VIOLÊNCIA

Um dos capítulos mais controversos do livro "Para entender a violência no futebol" é o que convida à reflexão sobre o papel da mídia como interlocutora da sociedade no tema. O autor diz entender que a imprensa deveria enfrentar um processo de reeducação para evitar o cenário de sensação de insegurança e de sensacionalismo no trato das rivalidades.

"Às vezes, no imediatismo da notícia, precisa-se evitar a irresponsabilidade. A mídia dá destaque aos violentos. No trabalho de campo ouvi muitas vezes de torcedores que é bom aparecer na televisão para 'ganhar as menininhas'. Se faz glamourizado do movimento neste jogo mercantilista da mídia", diz Murad.

"Mas, em defesa da mídia, devemos dizer que ela não produz o fato. Ela é uma janela aberta para a realidade. Só é preciso que a edição seja correta, ela é fundamental. Com a sensação de insegurança, os pacíficos se afastam, e os agressivos acabam ocupando esse espaço nos estádios", complementa. 

 

HISTÓRICO DE CONFUSÕES ENTRE TORCIDAS DO CORINTHIANS E PALMEIRAS

BRIGA COM 500 TORCEDORES RESULTA NA MORTE DE TORCEDOR PALMEIRENSE

O torcedor do Palmeiras André Alves, de 21 anos, mais conhecido como "Lezo", morreu após uma briga com torcedores corintianos.

A grande quantidade de objetos usados para o confronto foi indício de que a briga já estava agendada. Barras de ferro, fogos de artifícios e armas de fogos foram usados na confusão. LEIA MAIS

HOSPITAL CONFIRMA MORTE CEREBRAL DE SEGUNDO TORCEDOR PALMEIRENSE

O torcedor palmeirense Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira, internado após um traumatismo craniano, teve morte encefálica. A informação foi divulgada pelo hospital São Camilo.

Guilherme, conhecido como Vinicius Zulu, estava envolvido na briga generalizada entre torcidas organizadas de Corinthians e Palmeiras, horas antes de clássico. LEIA MAIS
PEDRAS NO ÔNIBUS DO PALMEIRAS E INÍCIO DE BRIGA GENERALIZADA

Um ônibus que levava torcedores do Palmeiras para duelo no interior foi atingido por pedras atiradas por corintianos, em frente à sede da torcida alvinegra Pavilhão 9. O episódio ocorreu no dia 5 de fevereiro. Os palmeirenses desceram do ônibus e iniciaram briga com corintianos. A PM impediu que houvesse briga generalizada. Foram detidos 15 torcedores. Não houve feridos com gravidade. A Justiça proibiu a presença da torcida Pavilhão 9 nos jogos do Corinthians. LEIA MAIS
TORCEDOR CORINTIANO MORRE APÓS PERSEGUIÇÃO DE PALMEIRENSES

Douglas Silva foi espancado e morto por dezenas de torcedores do Palmeiras em uma praça na Marginal Tietê, em agosto de 2011. Mesmo sem uniforme do Corinthians, Douglas foi reconhecido por uma pessoa, que avisou aos palmeirenses a preferência pelo Corinthians. Douglas estava com dois amigos e ainda tentou fugir, mas não resistiu aos ferimentos. O caso é investigado pela polícia LEIA MAIS
BALA DE FOGO EM VEZ DE BORRACHA EM CLÁSSICO EM PRESIDENTE PRUDENTE

A Polícia Militar demonstrou despreparo ao monitorar torcedores do Palmeiras em clássico contra o Corinthians, em Presidente Prudente, em agosto de 2011. Em vez de balas de borracha para dispersar a torcida, os PMs atiraram com armas calibre 12. Dois torcedores do Palmeiras foram baleados, sendo um deles Lucas Alves, irmão de André Alves, que morreu em briga generalizada. Após o episódio no interior, a Mancha Alviverde foi proibida de ir a jogos. LEIA MAIS
PALMEIRENSES ARREMESSAM BARRA DE FERRO DO TOBOGÃ E ASSUSTAM PESSOAS

Torcedores do Palmeiras arremessaram uma barra de ferro do tobogã. O objeto caiu no estacionamento do estádio, mas não atingiu ninguém. A polícia militar foi acionada para acalmar os ânimos dos torcedores palmeirenses, que protestavam no Pacaembu após derrota diante do Corinthians, 1 a 0, em agosto de 2010, pelo Brasileirão. LEIA MAIS

 

Mais Futebol