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Em MG, Adilson Batista ressurge no futebol e resgata lado "Capitão América"

Adilson Batista, o "Capitão América": resgate para a elite dos técnicos brasileiros - Pedro Vale/AGIF
Adilson Batista, o "Capitão América": resgate para a elite dos técnicos brasileiros Imagem: Pedro Vale/AGIF

Napoleão de Almeida

Colaboração para o UOL

29/09/2018 04h00

Foram três anos no gelo. Depois de disputar a final da Libertadores com o Cruzeiro em 2009, ele entrou numa espiral descendente que envolveu uma passagem difícil pelo Corinthians, seu adversário deste sábado, uma participação no rebaixamento do Atlético-PR em 2011, críticas no São Paulo, no Santos, uma queda com o Vasco em 2013 e a última chance no Joinville, que também viria a ser rebaixado em 2015. Dias difíceis para o Capitão América. Ou Adilson Batista, líder do Grêmio na conquista da Libertadores em 1995.

CAP AME - Reprodução - Reprodução
Cena do filme "Capitão América": herói foi resgatado no gelo na ficção
Imagem: Reprodução

Foi nesta conquista que nasceu o apelido em alusão ao herói dos quadrinhos. Revelado no Atlético-PR, Adilson brilhou como zagueiro e, após aposentar, colecionou sucessos antes do período de baixa, levantando taças por Figueirense e Cruzeiro, seu trabalho de maior destaque. Quem o buscou “no gelo” foi o América-MG, três anos após seu último trabalho como técnico. Pelo Coelho, já são 12 jogos com 4 vitórias, 5 empates e 3 derrotas, aproveitamento de 51,5%.

“O Ricardo Drubscky (coordenador técnico do América) me ligou, conversamos, ele marcou a passagem pro outro dia cedo. Sentei no escritório com o (presidente Marcos Salum), a conversa foi boa, proveitosa”, contou o técnico, que falou sobre o período distante da área técnica: “Eu tive convites, não foram concretizados. Foram cinco da Série A e alguns da B, mas não deu sequência. Fiquei contente, estava com vontade de trabalhar novamente. Eu sabia que era um desafio, nesse período você melhora.”

O América de Adilson ganhou destaque por parar o líder São Paulo no Morumbi, com direito a um gol de empate no melhor estilo Tiki Taka de Guardiola – “É um gênio, o melhor de todos”, elogia. Não só isso: nos confrontos contra os quatro primeiros do campeonato, venceu o Inter e empatou com Palmeiras e Flamengo. “Pra gente que tem uma estrada, uma experiência, tem que ter discernimento para absorver, para ter tranquilidade no elogio e não se empolgar. Eu tenho consciência, sempre tive auto crítica”, comentou.

Adilson Gremio - Reprodução - Reprodução
Adilson com a camisa do Grêmio, quando ganhou o apelido
Imagem: Reprodução

Durante o afastamento, Adilson rodou pelo mundo. Fez cursos, acompanhou métodos de treino na Alemanha, Inglaterra, Argentina e Uruguai, entre outros. “Eu não estava escondido, eu estava estudando. Num curso com 100 alunos tem sete campeões do mundo. Você tá lá e o Edimilson tá falando de como é o Barcelona, o Roque Jr. falando sobre o Milan. Fui acompanhar os jogos (fora do país). A intensidade, a dinâmica, o jogo corrido, o pega e pressiona, recuperação, compactação, velocidade, dedicação, entrega. Aí você vai ver clima, horário, número de jogos, tudo isso acaba refletindo. Coisa que temos dificuldades aqui”, criticou. O Capitão América era constantemente visto na Arena da Baixada nos jogos do Atlético-PR: “Domingo eu tava lá, fui assistir Atlético x Paraná. Eu saí do jogo do Morumbi, e fui ver o jogo. Eu sou atleticano".

Quedas no Furacão, Vasco e Joinville, baixa no Corinthians, Santos e São Paulo

Adilson Corinthians - Ricardo Nogueira/Folhapress - Ricardo Nogueira/Folhapress
Adilson pelo Corinthians, adversário deste sábado
Imagem: Ricardo Nogueira/Folhapress

Adilson fala abertamente sobre a fase de baixa. "Tem coisas boas, tem coisas que têm que melhorar. Acho que os treinadores têm essa consciência. Infelizmente você é julgado toda quarta e domingo” comentou, para depois cobrar: “O debate está muito raso também. Precisamos melhorar as análises. Nos cobram estudos, a preparação, mas todos precisam evoluir. Na gestão, quem tá comandando o futebol, o pós-jogo, a própria crítica, se tem embasamento".

"Evidente que eu cometi erros”, prosseguiu, “escolhas que aceitei de ir para determinados clubes que não iam me dar a estrutura. E quem nunca teve um 7 a 1 na vida?".

A passagem no Corinthians não está entre o que considera “erro”: “Se você lembrar, o Andrés (Sanchez, presidente do Timão) fala bem de mim. Perdi o Ralf por lesão, alguns jogos que não podiam perder, empatamos. No São Paulo empatamos muito. No Santos perdi um jogo e me mandaram embora, uma injustiça, mas queriam o Muricy. No Vasco eu fiz um bom trabalho, mas fui prejudicado contra o Flamengo”, comentou, sobre a final do Carioca 2014.

Ele próprio analisou a carreira. “O pessoal fala do Cruzeiro, mas eu subi (no Paulista, em 2001) com o Mogi Mirim, um ótimo trabalho. No América-RN, fomos campeões (2002). Fui pro Avaí (2002-03), fiz um bom trabalho. Fui pro Paraná (2003), um bom trabalho, no Grêmio tiro o time do rebaixamento, ótimo trabalho (2003), no Figueirense (2005-06) um ótimo trabalho, fomos campeões. Fui pro Japão, fizemos um ótimo trabalho no Jubilo Iwata. Vou pro Cruzeiro, três anos seguidos na Libertadores, perdi a final, ganhamos do Atlético-MG por 5 a 0. Tem muita coisa boa que as pessoas esquecem. Ganhar é importante, o Marcelo (Oliveira) ganhou duas, o Tite ganhou, o Vanderlei (Luxemburgo). Mas é difícil ganhar. Só um ganha. Vamos analisar aqui, o trabalho do Lisca (técnico do Ceará) é ótimo.”

Adilson Atlético - Divulgação/Atlético-PR - Divulgação/Atlético-PR
Adilson dirigiu o Atlético-PR em 2011
Imagem: Divulgação/Atlético-PR

O gol do América no Morumbi, com a jogada nascendo no goleiro e acabando na rede adversária após 49 toques de 10 jogadores diferentes, despertou uma comparação com outra proposta recente. Ligado umbilicalmente ao Atlético-PR, Adilson também comentou a passagem de Fernando Diniz, cuja proposta é similar, pelo clube do coração: “Quem sou eu pra julgar o Diniz? Um ótimo profissional, inteligente, trabalhador. Seus times jogam bola. Ele valoriza conceitos importantes, de ter a bola, de chamar o adversário, de sair tocando. Infelizmente teve dificuldades e foi mandado embora. Eu fui à Arena contra o Paraná e o Tiago (Nunes, atual técnico do Furacão) fez coisas que o Fernando fazia. Também tem trabalho dele lá. Espero que receba outra oportunidade. Eu sei que ele sabe.”

Críticas ao calendário e objetivo claro no América

O debate anterior leva a outro: o futebol brasileiro deixou de ser protagonista na hora de propor o jogo? “A gente já viu o Corinthians na época do Tite, o Grêmio com o Renato, o Cruzeiro com o Marcelo, o Palmeiras com Luxemburgo, todos propondo jogo. Já tivemos grandes jogos aqui no Brasil. É que a gente precisa reduzir o número dos jogos pra ter melhor qualidade. Quem organiza precisa ajudar. Nós temos várias datas no ano. É só as federações estaduais abdicarem de receberem cotas e ter voto e pensar no bem do futebol. ‘Ah, mas o Paulista é mais rentável’; precisamos pensar no Brasil todo. A CBF tem que ajudar.”

Na maratona de jogos do futebol brasileiro, todos os detalhes contam para o rendimento dos times. “Tivemos problemas de logística com a empresa aérea que patrocina o campeonato. Muitos tem que ir pra São Paulo pra voltar pra sua cidade. Isso tem perda. Vale pro jogo na segunda, na quinta... o Joinville jogou vários jogos em 2015 às 11h da manhã. Isso não prejudicou? Dirigi o Paysandu, descia lá no sul pegar o Juventude pra depois pegar o Flamengo. Cansou, não? Se determinada empresa não faz, vai pra outra.”

O América tenta ser protagonista com Adilson. “Eu sempre priorizei escolas que eu sempre gostei. Foram times de toque de bola. Só que com dinâmica, velocidade, intensidade. Às vezes tendo a paciência de rodar. Foi um bom mérito dos atletas”, ainda sobre o gol contra o São Paulo. A meta, porém, não é ser uma referência de futebol-arte: “O América eu tô com uma sintonia muito legal, está existindo respeito, compreensão, as coisas estão acontecendo. Eu agradeço à oportunidade. A gente quer a permanência que é muito importante pro clube.”

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