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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Libertadores vale mais que um salário mínimo ao torcedor

Torcidas de Palmeiras e Flamengo - Montagem/UOL
Torcidas de Palmeiras e Flamengo Imagem: Montagem/UOL
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Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz "Gestão além da Planilha".

23/10/2021 04h00

Com Augusto Zaupa

Soou como se fosse piada, uma piada de mau gosto, quando fiquei sabendo os valores dos ingressos estipulados pela Conmebol para a final da Copa Libertadores entre Palmeiras e Flamengo. Para acompanhar este jogão em 27 de novembro, em Montevidéu (URU), é preciso desembolsar US$ 200 (cerca de R$ 1.128) pela entrada mais barata, quantia superior ao atual salário mínimo brasileiro, que hoje é R$ 1.100.

O futebol perdeu a sua essência, a sua raiz, porque era para ser um esporte popular, do povo. Lógico que foi se tornando caro e excluindo parcelas da sociedade porque a qualidade dos profissionais tem aumentando ao longo dos anos. Cada vez mais exigimos mais e mais qualidade dos atletas, dos clubes e de todos que englobam o mundo da bola. Isto tudo exige altas quantias de grana

Mas é preciso ter limites, não é para tanto cobrar mais que o dobro em relação à decisão de 2019, quando o ingresso mais acessível custou US$ 80 (R$ 340 na cotação da época, e R$ 435 na atual). Além disso, na última final da Liga dos Campeões, a Uefa estipulou o preço de 70 euros (R$ 460 à época) pelo bilhete mais barato. Estamos falando do principal torneio de clubes do mundo, que junta craques das principais seleções.

É um absurdo esta 'cegueira' da Conmebol ao não querer enxergar a realidade dos povos da América do Sul, uma vez que passamos por dificuldades tremendas. E olha, nem vou adentrar sobre a crise que afundou a economia do nosso país e de nossos vizinhos devido à pandemia —famílias inteiras estão desempregadas, sem teto e remexendo o lixo para ter o que comer. Acredito que os próprios jogadores que serão os astros deste espetáculo não aprovam estas cifras absurdas, conforme o atacante palmeirense Dudu demonstrou o seu descontentamento em relação aos valores.

Ninguém é obrigado a desembolsar mais de R$ 1.100 para acompanhar presencialmente esta final nos setores que ficam atrás dos gols —exato, a entrada mais barata dá direito ao acesso neste setor do estádio Centenário, onde irão se concentrar as torcidas organizadas dos finalistas. Se quiser um pouco mais de luxo, compre o acesso aos camarotes e tribunas especiais (na lateral do campo) por US$ 300 (R$ 1.691) ou US$ 650 (R$ 3.664). Mas podemos assistir pela TV, se tivermos o pensamento mais simplório.

Estádio Centenário, em Montevidéu, capital do Uruguai, palco da final da Libertadores 2021 - Divulgação - Divulgação
Estádio Centenário, em Montevidéu (URU), será o palco da final da Libertadores 2021
Imagem: Divulgação

Além dos preços abusivos dos ingressos, há gastos ainda maiores: translado, hospedagem, alimentação... O Flamengo, por exemplo, divulgou serviço de viagem para quem estiver interessado em assistir à decisão em Montevidéu. O preço individual varia entre R$ 9,4 mil e R$ 13,9 mil. O pacote não inclui ingresso.

Isso tudo está abarcado pela decisão da Conmebol de organizar a final em jogo único, numa praça estabelecida antes do início da Libertadores, algo que ocorre desde 2019. Não é porque isso é comum na Champions League que também dará certo na Libertadores. Vivemos realidades completamente diferentes. O maior charme para alcançar o título da América era ver a pressão das torcidas nas suas casas, em partidas de ida e volta. Esta obsessão de repetir tudo que se faz na Europa afastou a possibilidade de o torcedor ver o capitão do seu clube levantando a taça dentro do seu próprio estádio.

Aqui entre nós, nem vou me aprofundar ao comparar a infraestrutura europeia com a nossa —hospedagem, estradas, transporte, atrações nas cidades, preços dos serviços... É um abismo gigantesco. Já encontramos diferenças quando nivelamos estes setores que temos aqui no Brasil com Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina...

Por eu ter uma agência de turismo (Sieben Tour By Tinga) poderia lucrar com isso, como em 2019, quando vendi pacotes para a final em Lima (Peru), entre Flamengo e River Plate. Mas eu prefiro ver o dinheiro circular dentro da economia local, neste caso, os comerciantes de São Paulo e do Rio de Janeiro seriam os mais beneficiados diretamente.

Ganhei dois títulos da Libertadores (2006 e 2010) pelo Internacional jogando em casa, no Beira-Rio. Tenho certeza que não teria as mesmas experiências e histórias que carrego hoje comigo se as finais tivessem ocorrido em campo neutro, como tem sido atualmente.

Fico com o sentimento que a Conmebol prioriza a plateia ao elitizar o futebol sul-americano. Assim, não vai demorar para a final única da Libertadores ocorrer nos Emirados Árabes, Qatar ou outro país fora do nosso continente. E o torcedor que se dane e se distancie cada vez mais do futebol.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL