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Chega, futebol também é profissão!

Jogadores de Flamengo e Fluminense fazem protesto de apoio aos profissionais do Figueirense que foram agredidos - Thiago Ribeiro/AGIF
Jogadores de Flamengo e Fluminense fazem protesto de apoio aos profissionais do Figueirense que foram agredidos Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz "Gestão além da Planilha".

17/09/2020 04h00

No intervalo de menos de dez dias, dois episódios de violência de torcedores contra jogadores profissionais voltaram a chamar negativamente a nossa atenção. Infelizmente, vimos cenas de intimidação ao elenco do Corinthians em meio ao saguão do principal aeroporto do Brasil, além da invasão e agressão no ambiente de trabalho do grupo do Figueirense.

Toda vez que eu vejo isso, desde o início da minha carreira e até nestes últimos cinco anos que me aposentei dos gramados, sempre me pergunto: por que estas cenas de barbárie acontecem no futebol?

Hoje, com um pouco mais de idade, entendo que, na verdade, o torcedor acredita que o futebol não é uma profissão como qualquer outra. Por ser entretenimento, muitos não reconhecem com uma atividade profissional que, como em outras áreas, tem CLT, férias, 13º salário, FGTS, entre outros direitos trabalhistas. E claro, obrigações a serem cumpridas.

Quando eu vou ao cinema, que também é um setor de entretenimento, e um filme não supera as minhas expectativas, não saio quebrando a sala ou xingando o funcionário que está na bilheteria, os atores, o diretor e toda a equipe responsável por aquele filme.

O mesmo acontece em outras profissões. Se um médico não tiver sucesso numa cirurgia mais delicada, a família do paciente tem o direito de xingá-lo e de hostiliza-lo no seu ambiente de trabalho? Se um advogado perder três os quatro processos no intervalo de uma semana, os clientes podem ir ao seu escritório para promover um quebra-quebra?

Parte da nossa sociedade não reconhece o futebol como uma profissão normal. Não se importam se os salários dos jogadores estão atrasados e que familiares dependem desta renda. Não querem saber se o profissional passa por problemas particulares. Para esta parcela, o jogador tem sempre que dar espetáculo e ponto.

Não podemos achar que o profissional está ali apenas brincando de jogar futebol para ganhar dinheiro. O elenco e a toda a comissão técnica se capacitaram, se dedicaram afinco para estarem ali.

Nutricionista do Figueirense ganhar flores em treino após invasão de torcedores - Patrick Floriani/FFC - Patrick Floriani/FFC
Cíntia Carvalho, nutricionista do Figueirense, ganha flores em treino após invasão de torcedores
Imagem: Patrick Floriani/FFC
Tive a oportunidade de conversar com a nutricionista do Figueirense, Cíntia Carvalho. Trabalhamos juntos no Internacional. Ela relatou nas redes sociais a invasão do grupo de torcedores no estádio Orlando Scarpelli, no início deste mês, durante o treino do Figueira. Há anos no meio do futebol, a Cíntia desabafou ao falar da fobia que carrega devido a inúmeros casos de violência que sofreu de torcedores.

"A gente tem que dar satisfação o tempo todo com os nossos, às vezes com pessoas muito próximas a nós, familiares até. É impressionante. Virou uma coisa normal dentro do futebol. Uma coisa velada, uma coisa normal. Isso me incomoda há muitos anos. Uma vez fomos a Fortaleza e o nosso ônibus foi apedrejado pela torcida do Ceará depois que ganhamos o jogo. Um atleta ficou coberto de cacos de vidro. Ou seja, se tu ganhas sofre violência e se perdes também sofre violência", desabafou.

"Estávamos trabalhando. Não somos vagabundos, trabalhamos sábado, domingo e feriado. Trabalhamos para conquistar resultados, mas nem sempre conseguimos. Acompanho essa ira há muitos anos, acho que ainda carrego o rebaixamento [à Série B] do Inter. Onde íamos, as pessoas achavam que tinham o direito de nos ofender, de agredir. Eu, como nutricionista, nem saia mais de casa e nem com a minha família eu falava. Como os atletas costumam dizer: 'eles acham que queremos entrar no campo para perder e passar fiasco?' Quem trabalha com futebol tem pai, tem mãe, tem filho e trabalha. Merecemos respeito", completou.

É importante também frisar que alguns profissionais da mídia — não são todos — também transmitem ao torcedor esta mensagem que o futebol não é uma profissão. Vejo em mesas redondas pós-rodada comentários absurdos, xingando e diminuindo um atleta. Dizem que não serve para jogar nem no time da esquina. Tudo isso vai dando a conotação de que o nosso esporte é uma brincadeira.

Cássio é protegido por seguranças durante tumulto no desembarque do Corinthians no Aeroporto de Guarulhos - Reprodução/TV Gazeta - Reprodução/TV Gazeta
Cássio é protegido por seguranças durante tumulto no desembarque do Corinthians no Aeroporto de Guarulhos
Imagem: Reprodução/TV Gazeta

No caso do Corinthians, o Fagner e o Cássio são jogadores de Copa do Mundo, que vestem a camisa do clube com orgulho. Demonstraram, e ainda demonstram, ao longo dos anos a qualidade deles com vários títulos conquistados.

O torcedor brasileiro deseja que os ídolos fiquem mais tempo no clube. Ficam chateados quando o atleta é vendido para a Europa ou outra equipe de fora quando está em alta. Mas se este profissional ficar mais três, quatro, cinco ou seis temporadas no clube, ele vai passar por alguma oscilação.

Neste momento de queda de rendimento vêm as ameaças. Desta forma, não tem lógica exigir que o jogador siga no seu clube. Então, se ganhou algum campeonato, é melhor ir embora porque no dia que tiver dificuldade esta mesma torcida não vai apoiá-lo, longe disso, ele será xingado e terá a família ameaçada. Aterrorizar o filho do Fagner e a esposa do Cássio nas redes sociais irá ajudar no rendimento do Corinthians em campo? Ninguém em sã consciência terá confiança para arriscar um drible, uma jogada mais elaborada na partida seguinte.

Estes episódios de violência no meio do futebol passam batido muitas vezes porque a vítima teme futuras represálias. Para que a denúncia siga adiante, quem apanhou precisa testemunhar, confrontar, e ninguém vai fazer isso por medo. O atleta sabe que ao registrar um boletim de ocorrência será hostilizado na primeira oportunidade que for a campo.

Os jogadores têm muita visibilidade e são formadores de opinião. Desta forma, estão se blindando ao protestarem ao início das partidas cruzando os braços, visto que o futebol está ultrapassando os limites devido este fanatismo doentio. Estas manifestações, no entanto, acabam podadas muitas vezes por receio de represálias.

Estas denúncias de violência deveriam ser feitas pelos clubes, que são os empregadores. Algum representante dos times deveria ficar frente a frente com estes marginais. Os clubes precisam parar de se escorar na desculpa que a busca pela justiça é obrigação do poder público. E, claro, acabar com toda a regalia que estes vulgos torcedores recebem no dia a dia, como ingressos, ônibus fretados, ajuda com viagens e pagamento de aluguel de sedes de torcidas. Algumas delas até recebem a concessão de usar o emblema do clube para produzir e comercializar produtos.

Não defendo o fim das organizadas, pelo contrário. Sou a favor do banimento do ambiente do futebol desses 20 ou 30 gatos-pingados que foram ao Aeroporto de Guarulhos e ao estádio Orlando Scarpelli. Eles não representam as torcidas de Corinthians e Figueirense.

As organizadas são extremamente fundamentais para o futebol. Fica ainda mais evidente quando assistimos atualmente aos jogos sem público, o que é algo chato, sem emoção. Além dos 'torcedores normais', as organizadas fazem parte do espetáculo. Elas cantam, gritam os nomes dos jogadores e empurram o time.

Quando ainda jogava, eu só marcava compromissos particulares depois dos jogos do fim de semana. Evitava agendar um almoço de segunda-feira caso perdesse porque tinha certeza que seria incomodado na mesa do restaurante por alguém que iria me cobrar pelo resultado. Isso só acontece no futebol.

Torcida do Borussia Dortmund faz festa para apoiar o time no Signal Iduna Park - Wolfgang Rattay/Reuters - Wolfgang Rattay/Reuters
Torcida do Borussia Dortmund faz festa para apoiar o time no Signal Iduna Park
Imagem: Wolfgang Rattay/Reuters

Tive sorte na minha carreira de pegar fases boas nos clubes por onde passei. Presenciei dois casos de intimidação mais enfáticas no Botafogo, no início da minha carreira como profissional, e no Cruzeiro, quando já fui gerente de futebol. Mas o único que vale registro ocorreu na Alemanha, pelo Borussia Dormund. Perdemos o clássico por 4 a 1 para o Bayern de Munique, vínhamos de numa sequência negativa, a fase não era boa. Quando saímos do estádio, a torcida organizada Muralha Amarela, que é fanática e leva mais de 20 mil torcedores por jogo, estava sentada em frente ao nosso ônibus.

Tivemos que esperar todos os torcedores saírem para, aí sim, deixarmos o estádio. Achei justo, muito justo porque às vezes chegamos em casa antes do próprio torcedor que batalha para ir ver um jogo. No Borussia, cansei de perder jogos e passar pelo meio da torcida no estacionamento para pegar o meu carro e não sofri nenhuma agressão, nem verbal. Chegava até esperar por uma cobrança maior porque estamos acostumados com isto aqui no Brasil, mas nunca houve este tipo de situação na Alemanha.

Tudo tem que ter um limite. Onde se tem agressão, se perde a razão.

* Com colaboração Augusto Zaupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.