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Éverton Ribeiro é o craque do futebol brasileiro na década

Everton Ribeiro, do Flamengo, comemora gol sobre o Fortaleza - Alexandre Vidal / Flamengo
Everton Ribeiro, do Flamengo, comemora gol sobre o Fortaleza Imagem: Alexandre Vidal / Flamengo
Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz "Gestão além da Planilha".

10/09/2020 04h00

Gabriel Barbosa, o Gabigol, foi o artilheiro dos últimos dois Brasileirões e fundamental no título da Libertadores de 2019, Bruno Henrique foi eleito o craque da edição passada do torneio sul-americano de clubes, e Arrascaeta é essencial no grupo de Domènec Torrent, além levar consigo a marca de maior transferência envolvendo dois clubes brasileiros. Mas o craque do time é Éverton Ribeiro. Aliás, não só do Rubro-Negro, mas o melhor jogador do futebol brasileiro desta década.

Éverton Ribeiro concentra três pilares do atual futebol brasileiro: resultado, números e arte. Ao analisarmos os últimos anos, ele esteve sempre entre os três grandes jogadores dos campeonatos nacionais, seja a Copa do Brasil ou o Brasileiro. Só não ficou em evidência quando foi jogar fora, no Al-Ahli, dos Emirados Árabes Unidos, entre 2015 e 2017.

Tive a oportunidade de jogar por anos com o Ronaldinho Gaúcho, um dos maiores jogadores do mundo de todos os tempos. Presenciei, não só nas partidas como também em treinos, a grandeza dele, assim como de outros grandes craques. Éverton Ribeiro tem chamado a minha atenção nestes últimos dez anos. De 2011 a 2020, não passou em branco em nenhum, pois ganhou títulos em todos os anos por onde passou (confira a lista logo abaixo).

Éverton Ribeiro segura troféu de campeão da Libertadores pelo Flamengo em 2019 - Manuel Velasquez/Getty Images - Manuel Velasquez/Getty Images
Éverton Ribeiro segura troféu de campeão da Libertadores pelo Flamengo em 2019
Imagem: Manuel Velasquez/Getty Images
No Flamengo, ele tem ao lado um trio muito forte: Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta, que é um jogador fantástico - também tive a oportunidade de atuar ao lado deste jogador uruguaio. Enalteço todos eles, mas o Éverton está acima deles.

Mesmo com a baixa estatura, com 1,68 m, o camisa 7 flamenguista tem enorme capacidade de improviso como poucos. Nunca sabemos o que ele irá aprontar em campo. Ele complica demais a vida do adversário a cada metro que ganha no gramado. Da lateral-esquerda para frente, consegue jogar em qualquer função. Esta capacidade o difere dos demais. É um jogador típico brasileiro, com uma técnica invejável.

Ele representa o padrão de sucesso do jogador brasileiro. Nesta última década, os principais destaques têm características semelhantes à dele. Foi assim com o Dudu no Palmeiras, com o Everton Cebolinha no Grêmio, com o D'Alessandro no Internacional e com o Soteldo no Santos. Todos com incrível capacidade de improviso.

Meia Everton Ribeiro, do Coritiba, domina a bola com Fabinho, do Bahia, na marcação - Felipe Oliveira/AGIF - Felipe Oliveira/AGIF
Éverton Ribeiro em ação pelo Coritiba, em 2012
Imagem: Felipe Oliveira/AGIF
O Éverton Ribeiro começou a despontar em 2011, quando foi emprestado ao São Caetano. Lá, o ex-zagueiro Antônio Carlos Zago foi esperto ao apoiar a transição da lateral-esquerda, onde atuava, para transformá-lo em um meia. Na nova posição, a inspiração veio do Alex, ex-camisa 10 do Palmeiras, Cruzeiro e Coritiba.

Esta mudança de função despertou a atenção do Coritiba. Lá, ganhou destaque nacional, mesmo não sendo o protagonista no primeiro ano, fez parte do time do Coxa que chegou à final da Copa do Brasil de 2011 contra o Vasco. Já na temporada seguinte, com o Coritiba decidindo novamente o título da principal competição de mata-mata do país, marcou nove gols, incluindo um na vitória diante do São Paulo por 2 a 0, pela semifinal.

Depois destas duas boas temporadas no Paraná, Éverton Ribeiro foi contratado pelo Cruzeiro, após ter arrebentado no Coxa. Aí lembro que, curiosamente, "participei desta negociação". O Cruzeiro estava tentando trazê-lo, mas havia outros times na concorrência.

Então, na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro de 2012, com o título já decidido a favor do Fluminense, o Alexandre Mattos, que era o diretor de futebol do clube e hoje está no Atlético-MG, me passou uma missão: fazer a cabeça do Éverton para ele ir trabalhar conosco.

Logo no primeiro lance que participei, fui em direção para marcá-lo, mas o Éverton já deu aquele giro rápido. Ele é pequeno e tem uma habilidade incrível, parece até que usa as mãos para tirar a bola da tua direção — brincávamos com ele devido à estatura ao dizer que ele estava mais próximo do chão e, por isso, usava as mãos. Neste lance, ele passou fácil por mim e quase fez o gol. Já na jogada seguinte, cheguei na orelha dele e disse: "vem jogar aqui no Cruzeiro".

Àquela época, estava tudo certinho no Cruzeiro, tudo redondinho. Era o único clube que pagava 100% na carteira, não atrasava os salários um dia sequer. Tinha dois CTs muito bem estruturados. Fiquei o jogo todo na orelha dele falando para ele acertar com o Cruzeiro, o que acabou acontecendo. Vencemos aquele jogo por 2 a 1, e o Éverton foi quem marcou para o Coritiba.

29 nov 2013 - Everton Ribeiro se manifesta via facebook e instagram para comemorar o título de "craque do Campeonato" - Reprodução - Reprodução
Éverton Ribeiro se manifestou via Facebook e Instagram para comemorar o título de Craque do Brasileirão de 2013
Imagem: Reprodução

Já trabalhando em Belo Horizonte, vieram os títulos do Campeonato Brasileiro de 2013 e 2014, que renderam ao Éverton a escolha de melhor jogador do Prêmio Craque do Brasileirão, criado pela CBF em 2005. Somente o Rogério Ceni havia alcançado este feito de ser eleito o destaque do Nacional por dois anos consecutivos. Vale destacar que, em 2019, o escolhido foi o Bruno Henrique, mas o Éverton foi eleito o melhor meia do campeonato e apontado pelos torcedores como o Craque da Galera.

Agora pergunto: quem alcançou esta sequência de alto rendimento e evidência na década passada? Ninguém teve este protagonismo em dez anos consecutivos.

Cada vez mais cedo, os jogadores vão para a Europa e dificilmente criam raízes aqui no nosso futebol. Robinho e Diego despontaram no Santos, mas logo deixaram o país. Tevez teve uma passagem vitoriosa, mas relâmpago pelo Corinthians. Rogério Ceni ganhou o Prêmio Craque do Brasileirão por dois anos, aquele São Paulo do Muricy Ramalho, no entanto, era muito mais forte no coletivo. Hoje no Grêmio, Diego Souza venceu a disputa com os flamenguistas Adriano e Petkovic, ambos do campeão Flamengo em 2009, mas não manteve o rendimento nas temporadas posteriores.

Acredito que o Éverton tem as mesmas qualidades de jogadores que são a referência na Europa, tirando, lógico, os três astros Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo. Mas sim, o Éverton está na mesma prateleira de qualquer outro grande jogador mundial.

Ele, porém, não é um jogador comercial, midiático. Pelo contrário, é discreto, não se envolve em polêmicas, não usa frases feitas para chamar a atenção, não faz danças provocativas ao fazer um gol. Prefere manter o foco entre as quatros linhas, fugindo totalmente à regra. Jogadores que são protagonistas aparecem mais na mídia e se tornam referência pela exposição.

Como capitão do Flamengo, é a referência pela técnica ao invés do falatório em campo. Vejo que o Éverton não tem o reconhecimento merecido. Ele poderia ter visto muito mais coisas lá na Europa, ter jogado uma Champions League, e ainda merece isso, pois tem apenas 31 anos.

Mas acredito que isso não o incomoda por causa da sua simplicidade e humildade, como deixou claro quando o informei que ele seria o assunto da minha coluna desta semana:

Everton Ribeiro, jogador da seleção brasileira, reage durante partida contra o Paraguai, pela Copa América de 2015 - REUTERS/Andres Stapff - REUTERS/Andres Stapff
Éverton Ribeiro reage durante partida contra o Paraguai, pela Copa América de 2015
Imagem: REUTERS/Andres Stapff
"Essa década foi abençoada, graças a Deus. Vários títulos, grandes jogos, inúmeras finais, jogar em grandes clubes e ter construído uma carreira tão gratificante, podendo representar o meu país na seleção brasileira. Me cobro muito para fazer o meu melhor porque no futebol o investimento é alto. A performance também tem que ser em alto nível. Me cobro todos os dias para estar entre os melhores. Sei que não é fácil, mas é um compromisso que tenho comigo. Me inspirei muito no Alex [ex-Coritiba, Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe]. Comecei como lateral, mas sabia que ali não era a minha posição. Quando eu fui para a meia, ficou tudo mais fácil e as coisas se encaminham bem até hoje. Então, estou muito contente por ter feito uma década assim tão boa."

A carreira vitoriosa começou cedo, e o torcedor agradece pela escolha que ele fez, pois poucos sabem que, ainda criança, o Éverton dividia o mundo da bola com o tatame, uma vez que foi campeão paulista de judô na categoria infantil em 1992. "Chegou uma hora que não dava mais para acompanhar os dois esportes e tive que deixar o judô de lado. Mas eu ia bem, fui campeão paulista, mesmo sendo sempre o mais miudinho", me recordou.

Acredito que o Éverton Ribeiro será apontado novamente como o melhor jogador do Brasil nesta temporada encurtada, depois de dois bons anos pelo Flamengo.

Principais títulos da carreira de Éverton Ribeiro:

Coritiba
Campeonato Paranaense: 2011 e 2012

Cruzeiro
Campeonato Brasileiro: 2013 e 2014
Campeonato Mineiro: 2014

Al-Ahli
Campeonato dos Emirados Árabes Unidos: 2015-16
Supercopa dos Emirados Árabes: 2014 e 2016

Flamengo
Copa Libertadores: 2019
Campeonato Brasileiro: 2019
Campeonato Carioca: 2019, 2020
Supercopa do Brasil: 2020
Recopa Sul-Americana: 2020
Taça Guanabara: 2018, 2020
Taça Rio: 2019

Seleção brasileira
Superclássico das Américas: 2014
Campeonato Sul-Americano sub-20: 2009

* Com colaboração de Augusto Zaupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.