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Rodrigo Coutinho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Há muita coisa boa acontecendo no time do Cruzeiro

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Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

23/06/2022 04h00

Poucos torcedores sofreram tanto quanto os cruzeirenses recentemente. O clube foi rebaixado em 2019 e amargou posições bisonhas na Série B em 2020 e 2021. Como se não bastasse o resultado esportivo e as finanças combalidas, desvios de verba foram descobertos. 2022 veio com a SAF, a promessa de dias melhores. E eles chegaram. A organização da equipe dirigida por Pezzolano dá gosto de ver.

Se fora de campo, Ronaldo Nazário comanda um processo de reestruturação administrativa. Dentro do gramado, o técnico uruguaio consegue implementar a filosofia que trouxe para a organização coletiva do time, e o crescimento individual de determinadas peças corrobora esse sucesso. A Raposa tem um DNA muito identificável.

As dez vitórias, duas derrotas e o empate que tem em 13 jogos de Série B formam a melhor campanha de uma equipe na competição desde 2014. A Chapecoense tinha 32 pontos na 13ª rodada de 2013. Os resultados têm vindo acompanhados de desempenho para o padrão da Segunda Divisão, o que dá também o direito de sonhar em surpreender na Copa do Brasil.

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Números importantes do Cruzeiro na Série B 2022
Imagem: Fonte: Opta

O grupo de jogadores da Raposa não possui nenhum nome de grande valor no mercado atual. As principais contratações foram o goleiro Rafael Cabral, o meia João Paulo e o atacante Edu. O primeiro vem de dez anos na Europa após se destacar no Santos campeão da Libertadores de 2011. O segundo teve bom desempenho pelo Atlético/GO na Série A. E o terceiro foi destaque do Brusque em 2021.

O restante do elenco reúne jovens oriundos da base, destaques em clubes menores da Série A ou da Série B, e atletas que não vinham tendo espaço na 1ª divisão. Pezzolano fez desta mistura um time que não renuncia à bola para tentar dominar os adversários, e sabe bem o que fazer para criar chances. Sem a bola, a ordem é ser agressivo para retomá-la rapidamente.

O esquema tático é quase sempre o 3-4-3. Atualmente o trio de zaga titular é formado por Zé Ivaldo, Lucas Oliveira e Eduardo Brock. O treinador consegue tirar deles muita participação no momento ofensivo. São os três jogadores que mais trocam passes em média em toda a Série B. Conduzem a pelota para gerar desmarque de algum companheiro e trabalham com passes curtos ou longos.

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O trio de zaga trabalhando com a bola no campo rival e participando ativamente da distribuição dos passes
Imagem: Rodrigo Coutinho

Em determinados jogos, Pezzolano usa um lateral como zagueiro. Geovane Jesus é um exemplo. Os alas são sempre muito agudos pelos flancos, atacam a última linha de defesa adversária para gerar algo visto nos trabalhos do uruguaio desde que começou a ganhar notoriedade em seu país. São sempre cinco atletas no ''fundo do campo'', empurrando o rival pra trás. Matheus Bidu vem sendo bem produtivo na esquerda.

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Os cinco jogadores espetados em cima da última linha rival. Os alas(em amarelo) projetados, os atacantes(em vermelho), e o centroavante Edu(branco)
Imagem: Rodrigo Coutinho

Os volantes ficam logo a frente dos zagueiros e distribuem o jogo com velocidade. Neto Moura e Willian Oliveira trabalham muito os passes longos em profundidade ou as inversões de lado para pegar os alas em situações de mano a mano. Edu é o centroavante. Se mexe basicamente no mesmo setor dentro do ''ataque posicional'' proposto, e tem a companhia de dois jogadores mais leves de cada lado.

Fernando Canesin e Jajá são os titulares, mas há rotatividade nestas funções. Enquanto um deles busca ser o elo central entre os volantes e a área, o outro ataca mais espaços nas costas da defesa, é uma espécie de ''segundo atacante''. Jogam quase sempre no ''meio-espaço'', nas costas dos volantes rivais, entre os zagueiros e laterais. Os movimentos de ataque à profundidade e apoio aos alas são bem coordenados.

Outro ponto interessante é a reação instantânea ao perder a bola. O Cruzeiro tem isso como premissa, e os zagueiros são encorajados a ''correr pra frente'' ao invés de recuar. A proposta é sufocar o rival no próprio setor em que a bola foi perdida e inibir os contra-ataques. Tem funcionado. O time leva poucos gols e sofre poucas finalizações.

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Representação da rápida reação cruzeirense ao perder a bola e inicar a transição defensiva com agressividade
Imagem: Rodrigo Coutinho

Projetar o 2023 na Série A torna-se cada dia mais real na Raposa. Reforços certamente serão contratados para um enquadramento na exigência da elite do futebol brasileiro, mas o time já tem um modelo, e a sequência deste trabalho facilitará a competitividade. A recente renovação de contrato da comissão técnica é uma grande notícia.