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Rodrigo Coutinho

O ‘trio de 10’ que impulsiona o futebol do Grêmio

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

30/11/2020 04h00

Já são 13 jogos sem perder! Desde o dia 11 de outubro, quando foi batido pelo Santos, o Grêmio não deixa o campo com um resultado negativo. Inconsistente durante boa parte de 2020, o desempenho da equipe vem crescendo recentemente, e a influência de Matheus Henrique, Darlan e Jean Pyerre ajuda muito a explicar a isso.

O trio possui muita coisa em comum. Nasceram num intervalo de seis meses. Portanto possuem 22 anos de idade atualmente. Matheus Henrique, o mais velho, nascido em dezembro de 1997, foi também o último a chegar ao Tricolor. Veio da base do São Caetano, mas terminou sua formação no sub-20 gremista. Jean Pyerre e Darlan estão há mais tempo. O primeiro desde os nove anos, e o segundo desde os 12.

Darlan e Matheus Henrique têm formado a dupla de volantes do time. Mas, assim como Jean Pyerre, jogaram na função de ''camisa 10'' ou ''meia-central'' durante boa parte de suas formações. O encaixe no modelo de jogo preferencial do time acaba sendo perfeito. Todos têm qualidade no passe, capacidade de aproximação para se associarem, e visão aguçada para distribuir as jogadas iniciais. Se procuram constantemente na faixa central gremista. E por ali o time sempre começa os ataques.

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Comparativo dos últimos cinco jogos do Grêmio com o trio e sem trio mostram a melhora da equipe
Imagem: Rodrigo Coutinho

- O interessante dos três é que todos jogaram em mais de uma função na base. Jean, desde os nove anos, alternou entre ''segundo volante'' e meia. Darlan foi meia em alguns momentos, Matheusinho, já com idade sub-20, chegou como meia e foi transformado em volante na equipe de transição. São três meio-campistas móveis e com vivência em outras funções. São tempos diferentes de trabalhos na base, mas todos com capacidade de aprendizagem e assimilação a modelos distintos - explica Gustavo Vargas, observador técnico da base do Grêmio desde 2018.

Entender o tempo correto de amadurecimento destes jovens também é primordial para que deem a resposta. Muitas vezes o futebol não espera e alguns atletas são queimados no processo. Tenho algumas ressalvas ao trabalho de Renato, sobretudo nos últimos dois anos, mas ele tem mostrado capacidade para dar minutos e protagonismo aos jovens no momento certo. Nem sempre de forma tão precoce, mas obtendo retorno dentro de campo com eles a partir dos 21 anos. Arthur, Pepê e Everton Cebolinha são outros exemplos.

Encaixe Tático

A facilidade de adaptação do trio tem sido vista para melhorar a ocupação de espaços do Grêmio quando o time se estabelece no campo de ataque. Jean promove constantes recuos para pegar a bola na região dos volantes, e aí vemos Darlan ou Matheus Henrique se projetando para gerar a linha de passe nas costas do meio-campo rival. Desta forma há possibilidades de progredir, verticalizar o passe.

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Movimento de recuo feito por Jean Pyerre em muitos momentos. Se alinha a Darlan e Matheus Henrique, e um dos dois se projeta na 'entrelinha' para compensar
Imagem: Rodrigo Coutinho

Nos cinco jogos em que estiveram juntos recentemente já foi possível observar evolução neste ponto. Por mais que o tempo de amostragem seja curto, é visível a melhora na fluência do jogo ofensivo. A sequência poderá dar mais naturalidade a esses movimentos e o time recuperar a produtividade que já teve nos melhores momentos do trabalho de Renato. Construir a partir da faixa central e aproximar jogadores no setor é uma das premissas de jogo do Imortal.

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O time-base que Renato vem escalando no Grêmio
Imagem: Rodrigo Coutinho

Opção a ausência de Maicon

Capitão e grande líder técnico do meio-campo gremista, Maicon vive às voltas com problemas físicos e lesões desde 2017. De lá pra cá, ele esteve em apenas 48% dos 275 jogos realizados pelo Tricolor. Se estiver bem, será titular, mas o encaixe ''Matheus-Darlan-Jean'' oferece uma solução a algo que tirou o sono de Renato nos últimos anos.

Vem sendo comum a repetição do mantra ''não fazemos mais camisas 10 como antigamente'' para se falar de futebol no Brasil. A grande realidade é que meio-campistas com tais características seguem sendo produzidos. A questão é que no esporte de hoje, há demandas no jogo totalmente diferentes em comparação a uma era mais ''romântica'', e o atleta precisa agregar novas valências ao seu repertório. Caso não faça, não conseguirá se desenvolver plenamente.

O futebol, como tudo na vida, muda, se transforma. Para uns fica melhor, para outros, pior. O que não podemos fazer é continuar olhando para o campo da mesma forma que fazíamos há décadas. E exigir dos atletas de hoje algo que víamos em outros personagens inseridos num contexto totalmente diferente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.