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Flavio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Oi, sumidos

Lewis Hamilton publica foto das férias antes da temporada 2022 - Reprodução/Instagram
Lewis Hamilton publica foto das férias antes da temporada 2022 Imagem: Reprodução/Instagram
Flavio Gomes

Jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. "Um multimídia de araque", diz ele. "Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo."

Colunista do UOL

07/02/2022 15h35

Lewis Hamilton apareceu. Michael Schumacher, não.

Depois de quase dois meses sumido das redes sociais, ambiente em que navega com desenvoltura, o inglês postou uma foto no fim de semana para anunciar que estava de volta. Ponto final às especulações sobre uma aposentadoria bombástica. Hamilton, com razão, mostrou com sua ausência digital que não se conformou com as decisões do diretor de prova da F-1 na corrida que definiu o Mundial do ano passado, em Abu Dhabi. Foi sua maneira de protestar. Sorridente e com o olhar confiante de sempre na tal foto, deixou claro que levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima. Vamos à próxima. Vamos à caça do oitavo título.

Schumacher nunca teve essa chance. Em dezembro, o acidente de esqui que tirou o alemão do mundo completou oito anos. Oito anos sem informações precisas. Sem uma imagem. Sem nada. A mais eficiente blindagem de todos os tempos. Numa era em que nada escapa às câmeras de um celular, Schumacher passou por dezenas de socorristas, médicos, enfermeiros, motoristas de ambulância, pilotos de avião e helicópteros e funcionários de hospitais sem ser fotografado. Seu filho, Mick, estreou na F-1. Não toca no assunto. Seu ex-empresário, Willi Weber, não teve autorização da família para vê-lo. Jean Todt, ex-chefe, parece ser a única pessoa autorizada a visitá-lo. O que faz com alguma frequência. Nada diz.

A curiosidade em torno do sumiço de Hamilton terminou um pouco antes de seu anúncio triunfal no Instagram. Na semana passada, fora fotografado tomando um milk shake na rua em Los Angeles. Ninguém consegue se esconder por tanto tempo, nos dias de hoje. As interrogações sobre Michael persistem. Me perguntam muito sobre seu estado. A próxima notícia que teremos sobre ele será que morreu, respondo com ar grave e fatalista. Porque nada sei. Ninguém sabe.

Mas sei de outras coisas. No ano passado, a Netflix colocou no ar um documentário sobre Schumacher. Não sei lá fora, mas aqui no Brasil o filme foi recebido com a indignação pelos patriotas de plantão que não viram nele nada de relevante a não ser o fato de Rubens Barrichello e Felipe Massa não terem sido citados ou entrevistados nas quase duas horas de exibição. Oh, que crime. Oh, que injustiça. Oh, que absurdo.

É inútil argumentar que o documentário não era sobre Barrichello e Massa, nem sobre o papel desta nação varonil na sua história. Era sobre um rapaz pobre que começou a correr na pista de kart onde seu pai trabalhava como zelador, usando chassis velhos e pneus jogados no lixo. Sobre um rapaz que foi cavando seu espaço graças ao talento e à obstinação, que chegou à F-1 porque outro piloto foi preso em Londres por uma briga de trânsito, que no primeiro treino surpreendeu todo mundo com um sétimo lugar no grid, que na corrida seguinte estava numa equipe maior metendo tempo num tricampeão do mundo — brasileiro, também, hoje atuando como motorista de um farofeiro negacionista —, que em sua primeira temporada completa já estava ganhando corridas, que ousou enfrentar e derrotar Ayrton Senna, que conquistou dois títulos por uma equipe média, que aceitou o desafio de fazer da Ferrari campeã de novo, e que passou esse tempo todo sorrindo.

Sim, foram os sorrisos de Schumacher, assim como o de Hamilton, que mais chamaram a atenção no filme sobre sua vida, contrariando a falsa ideia disseminada por aqui de que ele era frio, calculista, um robô a serviço de alguma organização secreta cujo objetivo era humilhar o verde, amarelo, branco e azul anil.

Sei de outras coisas, eu dizia alguns parágrafos atrás. Por exemplo, que Schumacher jogava bola. E bem. E que descia litros de cerveja e se comportava como um adolescente para comemorar suas conquistas quando ninguém mais estava vendo, noite alta num paddock qualquer por aí. E que não tinha medo nenhum de ser feliz ao lado de sua família e de seus amigos. E que se vestia de noiva e tirava Rubinho para dançar - a foto nunca foi publicada na grande imprensa, mas sempre é tempo; foi feita pela minha ex-mulher.

Michael Schumacher, vestido de noiva, dança com Rubens Barrichello em festa na Itália, no começo do século - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Michael Schumacher, vestido de noiva, dança com Rubens Barrichello em festa na Itália, no começo do século
Imagem: Arquivo pessoal

Schumacher & Hamilton. São feitos do mesmo material, sem dúvida. Que bom que Lewis apareceu, altivo e sorridente. Michael não vai aparecer de novo. Mas tomara que ainda possa sorrir. Como na noite da foto, tirada num distante inverno do início do século em uma estação de esqui nos Alpes Italianos, a imagem de um rapaz celebrando seu casamento com a vida e com a alegria.

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