PUBLICIDADE
Topo

Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Novembro negro: Lewis Hamilton, Celsinho e um país que não se reconhece

Lewis Hamilton comemora vitória no GP de São Paulo com a bandeira do Brasil - Reprodução/F-1
Lewis Hamilton comemora vitória no GP de São Paulo com a bandeira do Brasil Imagem: Reprodução/F-1
Conteúdo exclusivo para assinantes
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

19/11/2021 04h00

Hoje é dia da bandeira. Recentemente a vimos surgir no alto da cabeça do piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton após sua vitória do GP Brasil e, pela primeira vez em muito tempo, uma parcela grande da população olhou para aquele pano e para aquelas cores sem desconfiança, pois o símbolo que deveria ser a representação visual da nação brasileira, sofreu uma espécie de sequestro por grupos que pregam uma ordem torta e um progresso não inclusivo.

Não passaram cinco dias da bandeira exaltada pelo piloto inglês e o Brasil mostrou que também no esporte ela segue mesmo sendo apenas de alguns, pois o STJD, às vésperas do Dia da Consciência Negra, resolveu devolver ao Brusque os três pontos perdidos pelos xingamentos racistas ao meia Celsinho.
O caso já foi exposto aqui e em vários outros locais. Está fácil buscar o histórico do que aconteceu com o absurdo de um clube que em pleno século 21 tem pessoas com um grau tão alto de primariedade nas atitudes racistas.

A bandeira nas mãos do inglês Hamilton foi despida do significado violento aderido a ela de forma cada vez mais intensa ao longo da última década, mas o Estado que ela representa segue se acovardando quando o assunto é garantir cidadania para todos e todas.

O clube chegou a dizer que o jogador teria sido "oportunista" ao acusar racismo e foi rechaçado por muita gente. Um dos patrocinadores se retirou, fez exigências... Mas ainda assim teve quem desse razão ao clube e parece que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva está do lado destes últimos provando que o antirracismo do esporte nacional vai até a página dois. Vai até onde seja bonito para a imagem e para as vendas, vai até onde esbarra com interesses e influências que não dão a mínima que tudo continue muito ruim para uma maioria da população que segue sendo humilhada na primeira oportunidade, seja dentro de campo ou fora dele.

O irônico é que muitas destas pessoas devem ter aplaudido Lewis Hamilton, um atleta negro, super milionário, conhecido mundialmente, campeão... Mas que jamais deixou de se posicionar mesmo quando os dirigentes do seu esporte tentaram silenciar sua voz. Hamilton se engaja, fala, se orgulha de quem é, não admite e é aplaudido no Brasil, um país que não se reconhece.

Celsinho também o fez, mas ele não é Hamilton e a diferença principal não está na conta bancária. A diferença está em uma bandeira que ele, por mais que possa ter simpatia por ela, não devolve jamais este afeto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL