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Entenda o que é nazismo e como ideias supremacistas ainda assombram o mundo

Uniforme de soldado nazista  - Artsiom Malashenko/Getty Images/iStockphoto
Uniforme de soldado nazista Imagem: Artsiom Malashenko/Getty Images/iStockphoto

Giacomo Vicenzo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

14/05/2022 06h00

O nazismo tem raízes na Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, e marcou o período de 1933 a 1945 na Alemanha sob o comando de Adolf Hitler, que era líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Décadas depois, a "desnazificação" ainda é pretexto para conflitos entre Rússia e Ucrânia. Ideias de defesa de uma dita liberdade de expressão de pessoas que compactuam com os ideais do regime pairam na sociedade até hoje —e o neonazismo reúne células em diversos países.

Mas o que é nazismo de fato e que ideias e valores foram centrais para a consolidação desse regime? Por que seus ideais ainda assombram a sociedade contemporânea? Para responder a essas e outras perguntas, Ecoa conversou com sociólogos sobre o tema. Acompanhe a seguir.

O que é nazismo e quais são as suas características?

"O nazismo tem como preceito um governo forte e a ideia de que exista alguém que seja o pai da nação e um chefe único. Enquanto isso, há uma ideia de povo forte e que tem laços entre si para justificar que a sociedade é naturalmente desigual", explica Marcos Horácio Gomes Dias, sociólogo e doutor em história social pela PUC-SP.

O regime se apoia em um governo totalitarista, antissemita e eugenista —movimento que defendia que o povo alemão era geneticamente mais evoluído que os outros seres humanos.

"O nazismo é uma ideologia que se expressa e acredita na supremacia sobre o outro. Isso significa que toda a população mundial tem de ser igual a esse grupo que é considerado mais evoluído", explica Fábio Mariano Borges, doutor em sociologia pela PUC-SP, consultor de Inclusão da Diversidade e professor visitante da Universidade de Nottingham (Reino Unido).

Adolf Hitler - ullstein bild via Getty Images - ullstein bild via Getty Images
Adolf Hitler em 15 de março de 1938
Imagem: ullstein bild via Getty Images

"Desse modo, a raça ariana passa a ser um modelo para todos os outros povos. Para que se alcance uma dita 'evolução' na escala humana. Se acredita em uma ideia de evolucionismo que diz que existem povos menos avançados e outros mais avançados, de acordo com a ciência [equivocada] defendida pelo regime", completa Borges.

O que pode explicar a ascensão do nazismo na Alemanha?

As raízes do nazismo alemão surgiram entre 1914 e 1918, quando a Alemanha perde a Primeira Guerra Mundial e passa por uma crise econômica, que também alimenta na população alemã um sentimento de injustiça.

"Quando a Alemanha perde a Primeira Guerra Mundial, há uma sensação de decadência e de uma pátria que paga uma dívida de guerra injusta e que foi traída. O acusado de ser o principal traidor é o povo judeu. Em um cenário de desemprego e desespero, isso ganha um apelo emocional entre o povo alemão", aponta Dias.

O sociólogo lembra que valores como a família, a religião e a pátria são exaltados e colocados como caminhos em contraponto ao que os nazistas chamavam de "decadência do mundo" —que é explicada pelo não respeito ou por não se seguir esses valores.

O nazismo é uma derivação do fascismo italiano. As pessoas estão muito fragilizadas psicologicamente e essa política promove uma união do corpo social, que ganha importância e força na sociedade.

Marcos Horácio Gomes Dias, sociólogo e doutor em história social pela PUC-SP

Nesse cenário, o totalitarismo político e o poder de um líder único ganham força. Em vez de ser questionado por sua tirania, é enaltecido por trazer uma ideia de ordem e restabelecimento social.

"O totalitarismo se dá como uma das principais ferramentas para perpetuar essa política, porque por meio dele se controla tudo. Em vez de as pessoas encontrarem problemas nesse poder, encaram como algo bom, pois se tem a ideia de ordem dentro da nação", explica Dias.

Já Borges lembra que no início do século 20 há um avanço das linhas férreas e de embarcações e isso acelera a imigração, que também é estimulada pela Segunda Guerra Mundial.

O nazismo acontece justamente em um momento de crise econômica em que há um grande aumento de estrangeiros. Desse modo, é possível dizer que o nazismo é um radicalismo de não aceitação do diferente.

Fábio Mariano Borges, doutor em sociologia pela PUC-SP, consultor de Inclusão da Diversidade e professor visitante da Universidade de Nottingham

"A ideia defendida é que as sociedades que avançaram mais foram as de pessoas de pele branca e que prezavam por ideais como família e disciplina. Nesse sentido, o nazismo funciona muito bem porque acredita que o seu povo teve o mérito de chegar nesse degrau mais alto —flertando com a ideia de meritocracia e capitalismo, defendendo que os seres humanos existem para produzir", completa.

Essa concepção foi o que deu origem ao conceito de espaço vital, que resumidamente defendia que os povos arianos deveriam expandir ao máximo seus territórios pelo mundo. Esse foi um dos principais estopins para os conflitos da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Como ideais derivados do nazismo ainda assombram a sociedade?

O fim do nazismo se dá quando a Alemanha Nazista é derrotada pelos países aliados em 1945, sobretudo pela ação do exército soviético e a morte do fuhrer alemão. A vitória inicia os primeiros passos para o fim da Segunda Guerra Mundial, que se encerra mais tarde naquele ano.

Mesmo vencido no campo de batalha, o nazismo persiste e seus ideais são reproduzidos ainda hoje em nossa sociedade. De acordo com Dias, essa concepção de que o mundo venceu o nazismo se refere muito ao conceito do momento da Segunda Guerra Mundial, pois ainda há ideias e traços que resistem na sociedade contemporânea, que inclusive dão origem ao conceito de neonazismo.

"Essas ideias já faziam parte da nossa sociedade e são sentimentos ainda não resolvidos, que estão à espreita de alguém que os conduza à tona novamente. O que criou o nazismo alemão não foram sentimentos novos, mas sim sentimentos e preconceitos que já existiam na sociedade ocidental como um todo", alerta o sociólogo.

Momentos de insegurança econômica e desemprego criam um espaço perigoso e propício às doutrinas fascistas. "Quem está passando pelo medo da guerra e de outros problemas sociais acaba criando esse medo de culturas e grupos diferentes", acredita Dias.

Quais são os caminhos para evitar a banalização dessas ideias e conscientizar sobre o seu risco?

Dias lembra que há avanços que vão no sentido oposto do que sustentou o nazismo, como a ideia de que não existem mais raças, mas sim etnias e um senso maior de igualdade entre os povos.

"Ainda não desconstruímos os valores que o nazismo tem. Esse combate tem de ser feito com eterna vigilância e educação, para que que discutam esses problemas verdadeiramente. Além disso, pessoas que participaram desses regimes precisam ser condenadas", ressalta Dias.

O sociólogo destaca ainda que a aceitação do outro, como culturas diferentes, estrangeiros e a diversidade de pensamento como um todo, é um caminho importante para não comprar narrativas que deem origem a um regime totalitário.

"Essas ideias são perigosas mesmo para quem as apoia, pois fazer parte de uma massa e de um corpo social não exime a possibilidade de que qualquer coisa possa ser suspeita. Isso mostra que se está sempre sozinho ao optar pela exclusão do outro e do diferente", alerta Marcos Horácio.

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