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Empresas que mudam

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Troca de sementes entre krahôs inspirou loja de produtos indígenas

Produtos criados por artesãos indígenas e comercializados pela Tucum - Divulgação
Produtos criados por artesãos indígenas e comercializados pela Tucum Imagem: Divulgação

Camila Honorato

Colaboração para Ecoa, de Munique (ALE)

30/09/2021 06h00

Quando começou a ganhar corpo, em 2009, a Tucum tinha como principal objetivo trazer uma nova forma de negócio junto aos povos originários. Um modelo que valorizasse os aspectos culturais e espirituais que permeiam as produções artesanais dessas comunidades. Queria também funcionar em rede, priorizando a colaboração e fortalecendo relações harmônicas e justas de trabalho.

A história da Tucum também esbarra e um episódio que foi interpretado por sua sócio-fundadora e diretora criativa, Amanda Santana, como uma espécie de chamado. Na época em que os primeiros contornos da empresa começaram a tomar forma, por intermédio de uma expedição na Amazônia impulsionada por Fernando Niemeyer, antropólogo indigenista e cofundador da marca, a visão de Amanda sobre a identidade e a cultura dos povos originários era parca. Em suas palavras, as imagens que lhe vinham à cabeça eram aquelas que replicavam memórias violentas fruto da colonização.

A virada aconteceu no primeiro contato com a festa tradicional de troca de sementes do povo kraô. O ritual, cercado por mulheres da aldeia, encantou Amanda. "Tinha algo lindo e mágico naquelas mulheres. Aquilo me impressionou e me deu uma nova visão do que é ser indígena." Foi daquele encontro que brotaram as raízes do que viria a ser a Tucum. De lá para cá, o projeto de conectar comunidades originárias Brasil e divulgar o trabalho de seus artesãos se fortaleceu. Chegou a ter loja própria no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, entre 2013 e 2019, quando voltou esforços oara networking e sua plataforma própria de vendas online.

"Ouvir e observar o modo de viver dos povos originários é verdadeiramente a única forma de salvar o planeta. Nós precisamos tratar a Terra com simetria, e estar perto desses grupos reforça essa ideia cada vez mais", diz ela, que é maquiadora e cabeleireira por formação e atuou por anos no ramo das artes cênicas e do audiovisual. A convivência com os grupos trouxe a Amanda uma sensação grande de acolhimento e a incentivou a estudar e explorar mais seu passado.

Entre os destaques dos produtos desenvolvidos pelos artesãos parceiros da Tucum, estão as miçangas e a cestaria, sendo este o que, para ela, representa um dos maiores símbolos de resistência contra a colonização: "É um objeto lindo e funcional. Algo que sobreviveu séculos de dominação e se manteve como um dos artefatos mais presentes no dia a dia dos povos originários". O cesto, muito mais do que um objeto extremamente útil, é símbolo de resistência e sobrevivência.

Com oito anos de atuação, a Tucum agora oferece oficinas e cursos, além do canal de vendas, como estratégias para conectar artesãos, clientes e parceiros. Continua defendendo a produção pautada na agroecologia e no ecoartesanato para impulsionar a bioeconomia e o desenvolvimento sustentável na Amazônia.

Atualmente, integram a rede da Tucum mais de oitenta povos originários e 2.500 parceiros, dos quais cerca de 1.900 são mulheres artesãs. Todos os negócios passam por um processo intitulado como monitoramento de impacto, em que os colaboradores observam os resultados gerados pelas vendas dos artesanatos nas comunidades e em seus respectivos territórios para garantir o ganho para os povos e a preservação dos recursos naturais.

A plataforma também foi alavancada por importantes parceiros do mercado de negócios sustentáveis, como Origens Brasil, que assegura a ética e a transparência financeira na relação entre as empresas e as comunidades; e Parceiros Pela Amazônia, plataforma coletiva de soluções inovadoras em prol do desenvolvimento sustentável na região.

"Nós somos, acima de tudo, uma luta pelo direito à Terra e à vida. As pessoas precisam conhecer melhor esses povos e, a partir desse contato, ressignificar a relação que temos com o nosso planeta e com a natureza", conclui.

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